Órgãos federais apontam probabilidade acima de 95% de o fenômeno se configurar no segundo semestre, com potencial forte a muito forte. A FGV projeta perdas de 7% a 10% em soja, milho, café e laranja. O que separa a lavoura da chuva é uma infraestrutura que o país tem, mas quase não usa 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Tubos e Conexões Asperbras — Foto: Divulgação Em 19 de junho, quatro instituições federais assinaram o mesmo documento. INPE, INMET, Funceme e CENSIPAM divulgaram nota técnica conjunta apontando probabilidade superior a 95% de persistência das condições de El Niño ao longo do segundo semestre de 2026, com possibilidade de o fenômeno se estender até pelo menos o início de 2027 e potencial para atingir intensidade forte a muito forte. O Climate Prediction Center, da agência americana NOAA, atribuiu 63% de probabilidade a um evento de intensidade muito forte entre novembro de 2026 e janeiro de 2027. Traduzido para a mesa do brasileiro, o cenário tem números. Estimativa apresentada por Eduardo Assad, professor da Fundação Getulio Vargas e ex-secretário do Ministério do Meio Ambiente, projeta que um El Niño forte pode reduzir entre 7% e 10% a produção nacional de soja, milho, café e laranja. Não é uma previsão de safra: é uma medida do que está exposto. O que torna esse número menos inevitável do que parece é um dado de infraestrutura que raramente aparece no debate público. Levantamento da Embrapa com dados até outubro de 2024 mostrou que a área irrigada por pivôs centrais no Brasil chegou a 2,2 milhões de hectares, com crescimento de mais de 14% em dois anos. Estudos da ANA (Agência Nacional de Águas) e do Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional estimam o potencial irrigável do país em até 55 milhões de hectares. Ou seja: o Brasil usa uma fração do que poderia usar. E, segundo a própria ANA, a produção irrigada apresenta produtividade de duas a três vezes maior do que a de áreas de sequeiro. A distância entre 2,2 milhões e 55 milhões de hectares não é um problema climático. É um problema de investimento, de crédito e de assistência técnica, que o clima apenas cobra de uma vez a cada ciclo de El Niño ou de La Niña mais severo. O efeito do fenômeno, aliás, divide o país. As projeções indicam redução das chuvas no Norte e no Nordeste, com risco de secas mais severas, enquanto a Região Sul tende a registrar precipitação acima da média. É uma geografia que desfaz o senso comum de que El Niño é sinônimo de seca nacional, e que explica por que a discussão sobre irrigação se concentra hoje no Nordeste, no norte do Centro-Oeste e no MATOPIBA, exatamente a fronteira em que a agricultura brasileira mais se expandiu na última década. É nesse recorte que atua a Asperbras, fabricante de tubos e conexões de PVC e PEAD fundada em 1985 em Penápolis, no interior de São Paulo. A empresa opera seis plantas industriais distribuídas por São Paulo, Rio Grande do Norte e Bahia, com capacidade de 60 mil toneladas por ano de PVC e 14 mil toneladas por ano de PEAD. Duas dessas unidades estão dentro do arco que os órgãos climáticos apontam como o de maior risco. "A irrigação não é mais um diferencial competitivo. Diante do que os órgãos climáticos estão apontando para o segundo semestre de 2026, ela se torna uma condição básica para garantir produção e renda", comenta Francisco Carlos Jorge Colnaghi, Vice-Presidente do Conselho de Administração da Asperbras. Parte do portfólio atende o sistema móvel, que o produtor monta e desmonta conforme a estação. É um detalhe técnico com consequência social: reduz o capital que o produtor precisa imobilizar para começar a irrigar. Essa consequência tem endereço. Guilherme Bastos, professor da FGV e ex-secretário do Ministério da Agricultura, aponta que pequenos e médios produtores enfrentam mais dificuldades diante do El Niño do que os grandes, que chegam mais preparados. Ele defende o uso de seguros paramétricos e de mecanismos estaduais para alcançar quem não tem acesso ao Proagro (Programa de Garantia da Atividade Agropecuária) ou a seguros privados, e observa que faltam mapas de risco e planos de mitigação articulados entre estados e municípios. "O produtor que irriga com projeto bem dimensionado e material de qualidade reduz a dependência da chuva e mantém previsibilidade de produção mesmo nos anos difíceis. Isso não é sofisticação, é a diferença entre plantar e apostar", destaca Thiago Rosa, Diretor Comercial da Asperbras. O El Niño de 2026 vai passar. Os boletins climáticos já indicam que o evento tende a perder força ao longo de 2027, e a discussão pública sobre irrigação provavelmente vai esfriar junto. Fica a pergunta que sobrevive ao ciclo: o país vai tratar os 53 milhões de hectares irrigáveis não irrigados como uma pauta de emergência climática, que aparece quando o Pacífico esquenta, ou como o que eles são, uma decisão de infraestrutura adiada há décadas?