Enquanto percorrem os mais de 4.000 km que separam as águas geladíssimas da Antártida das águas quentinhas da costa brasileira, as jubartes fazem dos oceanos quase uma sala de concerto —mas ainda sem plateia.
O deslocamento anual dessa espécie de baleias é também um momento de ensaio: os machos, que usam o canto para atrair parceiras, praticam para chegar afinados aos locais de reprodução, situados principalmente em áreas tropicais ou subtropicais, como o Brasil.
O treinamento permite que os machos aprimorem as canções, e eles fazem isso também imitando outros machos que escutam pelo caminho. Na água, o som tem uma velocidade mais de quatro vezes maior do que no ar, e as ondas sonoras podem viajar por milhares de quilômetros, dependendo da frequência do som. Isso significa que uma jubarte macho pode ouvir a outra de muito longe para aprender a cantar melhor.
"Pode ser que machos que cantem efusivamente bem mostrem para outros machos que eles não estão tão bem preparados para a reprodução", diz o biólogo Marcos César de Oliveira Santos, que estruturou o Laboratório de Biologia da Conservação de Mamíferos Aquáticos, o LABCMA, do Instituto Oceanográfico da USP, onde ele dá aulas.
"Na migração, eles vão treinando e podem se influenciar. Eles podem pensar: ‘Nossa, eu vou acrescentar isso na minha canção, porque isso vai me dar mais chances de acessar as fêmeas’."






