Este ano, esses animais começaram a aparecer por aqui mais cedo, em maio, quando o usual seria em junho 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Baleias na costa do Rio de Janeiro: — Foto: Custodio Coimbra / Agência O Globo RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 11/06/2026 - 12:01 Chegada Antecipada de Baleias-Jubarte Encanta RJ e Aumenta População As baleias-jubarte estão chegando mais cedo ao litoral do Rio de Janeiro, antecipando a temporada de acasalamento e nascimento de filhotes. Com uma população crescente, elas encantam locais e turistas com suas canções e acrobacias. Pesquisadores do Projeto Baleia Jubarte destacam a importância de proteger esses cetáceos, cujo número já chega a 35 mil, após a proibição da caça em 1987. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Sejam jovens ou bem mais maduras, o importante é a sedução. No mar, a estação do romance está a toda e vai além do Dia dos Namorados. Para as baleias-jubartes, ela se prolonga até agosto no litoral do estado do Rio de Janeiro. As baleias, que este ano começaram a aparecer por aqui mais cedo, em maio, quando o usual seria em junho, vêm para encontrar parceiros e ter filhotes, frutos de enlaces do ano anterior. Áudio do canto da baleia jubarte para seduzir as fêmeas A jubarte faz jus ao apelido de cantora e seu encanto vai muito além dos saltos espetaculares e da exibição de esguichos e nadadeiras colossais. Elas têm canções, dialetos e sotaques, que pesquisadores, pouco a pouco, começam a decifrar. Também chegam ao Brasil em número cada vez maior, para alegria de moradores do Rio e turistas. — O Brasil tem hoje a maior população de jubartes do mundo. Elas voltaram a aparecer no litoral do Rio de Janeiro há cerca de dez anos e estão mais numerosas a cada ano. Redescobrem um litoral que já foi delas. Após chegarem quase ao extermínio, é uma alegria ver esses animais espetaculares de volta — afirma Enrico Marcovaldi, diretor do Projeto Baleia Jubarte (PBJ), que atua há quase quatro décadas e é pioneiro em conservação e pesquisa destes cetáceos. Na segunda expedição do ano do PBJ no município do Rio, na última terça-feira, foi possível avistar, sem muita dificuldade, 12 animais. Eram adolescentes aprendendo a rota brasileira, seu caminho ancestral pelo litoral do estado. As jubartes passam seis meses se alimentando na Antártica — comem krill, diminuto crustáceo de águas geladas, base da cadeia alimentar marinha antártica. E nos outros seis meses do ano rumam para o Brasil, para se reproduzir e dar à luz em águas mais quentes e rasas, numa jornada de 4 mil quilômetros só de ida. Do ladrão de celular com 'meta de produtividade' à mineração de criptomoedas: Como o Complexo da Maré virou uma central de crimes Baleia é avistada no mar fluminense — Foto: Custodio Coimbra / Agência O Globo Passam pelo litoral do Sul e do Sudeste chegam até a Bahia. Em novembro, retornam às águas da Antártica. No período brasileiro não comem nada. A meta é reprodução. Meta esta que tem sido bem-sucedida, livre do massacre promovido no passado pelo ser humano. Quando a caça de cetáceos — e não apenas da jubarte — foi finalmente proibida no Brasil em 1987 restavam cerca de 2 mil baleias. Hoje, Marcovaldi diz que elas já são cerca de 35 mil. Ainda distante da abundância do passado, gotas no oceano, mas sinal de um futuro promissor. — As baleias estão sendo vistas com mais facilidade no Rio porque há mais jubartes no mar. Antes eram tão poucas que passavam despercebidas — destaca Marcovaldi. Ver as jubartes no litoral não é mais difícil. Há até quem já as tenha fotografado da janela de casa, em Ipanema. Mas, no mar, com sorte, é possível ouvi-las. E não apenas escutar o borrifo que fazem ao emergir para respirar. A jubarte, de forma geral, vem à superfície para respirar entre a cada 4 e 8 minutos, embora possa permanecer mais que o dobro disso submersa, se quiser. Os sons que emitem, por vezes, são audíveis fora d’água, caso elas se aproximem da superfície no momento em que cantam. No oceano, eles se propagam por milhares de quilômetros. A jubarte é a voz do oceano. Serenatas, poemas e sussurros Namoro de jubarte precisa ter serenata. Só os machos cantam. Eles compõem melodias de 12 minutos a 14 minutos, que podem repetir até horas para seduzir as fêmeas. E nada de samba de uma nota só. A melodia da jubarte tem uma estrutura definida, com unidades repetitivas pequenas chamadas “frases”, organizadas em temas maiores, numa sequência específica. São como poemas, em que o tema é a estrofe. A baleia fêmea é maior que o macho e muito exigente, dizem pesquisadores. As melodias também precisam inovar a cada ano para atrair a atenção das fêmeas. — E a cada anos elas incorporam os sons que escutam em suas longas jornadas pelo oceano. Sons da natureza, como os ruídos de peixes, de próprio oceano e, também os produzidos por seres humanos, como os dos motores de navios — explica o pesquisador do PBJ Pedro Froes. Já as mães e filhotes se comunicam como se sussurrassem. Provavelmente, para não chamar a atenção de predadores. A jubarte é uma gigante, mas seus filhotes, mesmo nascendo com quatro metros e engordando cerca de 100 quilos por dia, são vulneráveis a ataques de orcas. Estas, bem menores, atacam em grupos. Marcovaldi lembra que as orcas, conhecidas por sua inteligência, também frequentam o litoral do Rio. Um grande macho de orca apelidado de Capitão é bem conhecido pelos pesquisadores. Jubarte é avistada em alto-mar no Rio: baleias vêm namorar no estado — Foto: Custodio Coimbra / Agência O Globo E há também sons de alimentação, de alerta e outros menos compreendidos pela ciência. Froes acrescenta que as diferentes populações de jubartes possuem seus próprios dialetos e sotaques. O dialeto das baleias que vêm para o Brasil pode ser distinguido do das equatorianas, por exemplo. As jubartes de uma população, em sua maioria, costumam manter a mesma rota por toda a vida. É por isso que existem jubartes brasileiras, chilenas e equatorianas, por exemplo. Os cientistas monitoram as vozes das baleias com microfones especiais na água e também como tecnologia de “etiquetas”, que tem revolucionado o estudo desses animais. Elas são fixadas por ventosas e enviam desde dados de localização por satélite, áudios, vídeos e dados sobre o estado de saúde do animal, explica Froes. Asas gigantes e mistérios O nome jubarte vem do francês e alude à corcova ou corcunda que esses cetáceos possuem. Característica que nem de longe é a mais marcante num animal. A espécie tem a maior envergadura entre as baleias, graças às enormes nadadeiras peitorais, que podem chegar a cinco metros. É daí que vem o nome científico em latim Megaptera novaeangliae. Megaptera significa “grandes asas”, em referência às suas longas nadadeiras peitorais, que alcançam um terço do tamanho total do animal. As nadadeiras funcionam como grandes lemes, ajudam nas manobras, no equilíbrio e até mesmo na comunicação, quando batem na água. O segundo nome se refere à Nova Inglaterra, nos EUA, onde a jubarte, uma baleia cosmopolita foi descrita pela primeira vez. A jubarte é capaz de executar com elegância acrobacias, a despeito de chegar a pesar 40 toneladas. Mas o mundo das jubartes, nômades dos mares, conserva muitos mistérios. São animais solitários, que só se reúnem para se reproduzir. Mesmo mãe e filhote, colados em sua passagem pelo Rio, acabam por se separar após um ano. Ninguém sabe exatamente como se formam as populações, isto é, os grupos que seguem uma determinada rota por toda vida. Tampouco porque algumas se tornam errantes. O PBJ documentou uma jubarte brasileira que foi para na Austrália, um recorde de mais de 14 mil quilômetros de travessia. Bebês cariocas e ciência cidadã Os pesquisadores do PBJ contabilizam seis filhotes nascidos em águas cariocas desde 2021, um alento para a conservação da espécie. Como as baleias têm marcas individuais, cientistas podem identifica-las pela nadadeira caudal. Turistas e observadores que as fotografem podem enviar suas imagens para o PBJ (fotoid@baleiajubarte.org.br) que as registra em plataformas de ciência cidadã, como o Happywhale (happywhale.com). Por essas plataformas é possível acompanhar as idas e vindas de “sua” baleia pelo oceano. Toda ação importa para preservar gigantes, que medem em média de 13 metros a 14 metros, maiores que quase todos os barcos usados para observá-las. Gigantes, mas ainda assim frágeis frente a ameaças como emalhe em barcos de pesca, colisão com navios, poluição por lixo e sonora, e mudanças climáticas, que têm reduzido a oferta de krill. A disponibilidade de alimentos é uma das hipóteses da chegada antecipada das jubartes. Outra seria o maior número de jovens, que estão aprendendo a rota. Ramon Nascimento, comandante do catamarã Sagarana, que leva grupos para observar as jubartes, lembra que é preciso muita responsabilidade no turismo — barcos não devem, por exemplo, se aproximar a menos de 100 metros dos cetáceos. E assegura que compensa. — Elas são curiosas, algumas chegam bem perto por iniciativa própria, para ver quem as está observando. Quando fazem isso, é um presente. Impossível não se emocionar — diz Nascimento. Marcovaldi ressalta que por séculos jubartes e outras baleias, como a franca, foram mortas aos milhares. Seu óleo iluminou as ruas do Brasil e de Portugal. Seus ossos serviam de argamassa. Praias ficavam vermelhas de sangue. — A proibição da caça nos deu uma chance de continuar a compartilhar o mundo com esses extraordinários animais, inteligentes e essenciais para o equilíbrio dos mares. Temos que agarrar essa oportunidade — salienta Marcovaldi.
Dia dos Namorados também no mar: baleias jubarte vêm para o litoral do RJ para encontrar parceiros e ter filhotes
Este ano, esses animais começaram a aparecer por aqui mais cedo, em maio, quando o usual seria em junho







