O sistema financeiro vem incorporando os riscos climáticos às decisões de investimento, crédito e gestão de riscos em velocidade superior à observada no restante do ambiente corporativo 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Claudio de Moraes, professor e Pesquisador do COPPEAD-UFRJ — Foto: Divulgação Muito se tem discutido sobre o “fim do ESG”. O que estamos assistindo, na realidade, não é ao fim da sustentabilidade, mas ao fim da necessidade de tratá-la como uma agenda separada. As questões ambientais, sociais e de governança deixaram de ocupar um espaço periférico para se tornarem parte integrante das decisões econômicas e financeiras. No artigo The End of ESG, publicado em 2023 na revista Financial Management, Alex Edmans, professor de Finanças da London Business School, sustenta que fatores ambientais, sociais e de governança deixam de constituir uma agenda específica quando passam a integrar naturalmente a análise econômica e financeira de longo prazo. Para o autor, considerar esses fatores não deveria ser chamado de investimento ESG, mas simplesmente de boa análise de investimento. Em outras palavras, o ESG não desaparece. Ele é incorporado à própria lógica da economia, das finanças e da criação de valor de longo prazo. Essa conclusão também encontra respaldo em minha agenda de pesquisa sobre o mercado financeiro brasileiro, desenvolvida no COPPEAD Business School. Em artigos publicados no Journal of Economics and Business, como Banking Sustainability in a Large Emerging Economy e Green Commitments versus Genuine Practices: Evidence from the Brazilian Banking System, e na revista EconomiA, com o artigo The Relationship Between Financial Stability and Transparency in Social-Environmental Policies, entre outros, encontro evidências de que fatores ambientais já influenciam a composição das carteiras de crédito, a gestão de riscos e a estabilidade financeira. Na mesma direção, o Banco Central do Brasil passou a incorporar os riscos climáticos e socioambientais às análises apresentadas no Relatório de Política Monetária. A mensagem é clara: eventos climáticos deixaram de ser apenas uma preocupação ambiental para serem reconhecidos como fatores capazes de influenciar a inflação, a atividade econômica, a estabilidade financeira e, consequentemente, a própria condução da política monetária. Essas evidências encontram correspondência crescente na percepção dos profissionais do mundo corporativo. Recentemente, tive a oportunidade de discutir esse tema com Onara Lima e Maria Eugênia Buosi, em uma conversa que será publicada em breve. A convergência foi evidente: o sistema financeiro vem incorporando os riscos climáticos às decisões de investimento, crédito e gestão de riscos em velocidade superior à observada no restante do ambiente corporativo e muito antes de essa transformação ser plenamente assimilada pela mídia e pela sociedade. O contraste é evidente. Mesmo convivendo com enchentes, secas prolongadas, ondas de calor e eventos climáticos extremos em diversas cidades brasileiras, a mídia e parte da sociedade ainda tratam a sustentabilidade predominantemente como uma pauta ambiental. No entanto, seus efeitos já são percebidos no mercado financeiro por meio da precificação de ativos, da concessão de crédito, dos seguros e da gestão de riscos. Os canais de transmissão dessa nova realidade econômica ainda não alcançaram plenamente as empresas, os consumidores e as decisões individuais. Talvez esse seja o verdadeiro paradoxo do momento. O debate central já não deveria ser se o ESG acabou ou não. A questão relevante é compreender como a percepção dos riscos climáticos se difunde pela economia. O sistema financeiro foi o primeiro a reagir porque sua função é antecipar, precificar e gerenciar riscos. O desafio agora é acelerar essa transmissão para o setor produtivo, para as políticas públicas e para a sociedade. Quanto maior a demora, maior será o custo econômico, financeiro e social da adaptação. Nesse sentido, o chamado “fim do ESG” pode representar justamente o seu maior sucesso: deixar de ser uma agenda específica para tornar-se parte inseparável da análise econômica, da gestão de riscos e das decisões de investimento. O verdadeiro desafio já não é discutir o futuro do ESG. É compreender que já entramos na economia dos riscos climáticos e, sobretudo, como devemos nos posicionar diante dessa nova realidade. A adaptação deixou de ser uma escolha para se tornar uma necessidade econômica. Como bem observou Onara Lima em nossa recente conversa, antecipar-se é muito menos custoso do que administrar as consequências. Talvez essa seja a principal lição da economia dos riscos climáticos. Quanto mais adiarmos as decisões necessárias, mais deixaremos de fazer gestão de riscos para fazer, apenas, gestão de consequências. Sobre o autor Claudio de Moraes é professor e pesquisador do Coppead, especialista em Banking, com artigos publicados em diversos periódicos internacionais. Atua no Banco Central do Brasil na área de estabilidade financeira, com experiência em regulação e supervisão bancária.
O fim do ESG? Não. O início da economia dos riscos climáticos.
O sistema financeiro vem incorporando os riscos climáticos às decisões de investimento, crédito e gestão de riscos em velocidade superior à observada no restante do ambiente corporativo







