Favelas da região são ocupadas por policiais, mas fim da fortaleza do TCP não deve ser por muito tempo 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Barricada. Trilhos e carros no viaduto que liga as ruas Bulhões Marcial e Doutor Adauto, acesso importante a Vigário Geral: obstáculo para viaturas da Polícia Civil ainda foi incendiado pelos criminosos — Foto: Reprodução/TV Globo A Polícia Militar voltou a Vigário Geral e Parada de Lucas ontem, desta vez com o apoio de policiais civis. Ao chegar às comunidades, os agentes se depararam com uma barreira de carros incendiados no principal acesso. Com uma operação estratégica, a corporação consolida a retomada do Complexo de Israel, uma cidadela do Terceiro Comando Puro (TCP). A ocupação começou na última sexta-feira pela Cidade Alta, em Cordovil, de onde os traficantes têm uma visão panorâmica das comunidades vizinhas e das principais vias do entorno. A perda do ponto de observação teria enfraquecido a quadrilha. Junto com a Cidade Alta, os policiais invadiram Cinco Bocas e Pica-Pau. O trabalho terminou nos últimos dois dias com o cerco se fechando em Parada de Lucas e Vigário Geral. A permanência da polícia nas cinco favelas, porém, será por tempo determinado: falta efetivo para estendê-la. — A Cidade Alta é a comunidade mais difícil porque tem posição estratégica. Como o nome já diz, ela é alta, de lá o bandido enxerga as outras comunidades e consegue atirar em quem está embaixo. Por isso, começamos por ali. Se não, íamos tomar tiro ao entrar em Parada de Lucas e Vigário Geral — explicou o major Maicon Pereira, porta-voz da PM. Meia hora de tiros Por volta das 2h de ontem, o Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) entrou em Vigário Geral pelos fundos da comunidade, uma área de mangue. Por meia hora, os traficantes fizeram disparos. Fontes da PM dizem que não era um ataque contra os policiais, mas sim um aviso de que o Bope estava chegando. Álvaro Malaquias Santa Rosa, o Peixão, chefe do Complexo de Israel, um dos criminosos mais procurados do Rio, não estava no bunker. Arisco, ele nunca foi preso e costuma andar com um séquito de mais de 40 seguranças com fuzis. Veja obstáculos criados por Peixão para se proteger de rivais Havia informação do setor de inteligência de que Peixão poderia estar escondido em uma favela aliada, o que levou a desencadear uma operação ontem mesmo no Buraco do Boi, em Nova Iguaçu. Um gerente-geral do tráfico morreu na ação, e três pessoas foram presas, duas delas vindas de Parada de Lucas. A polícia apreendeu dois fuzis, drogas e veículos. Agora, a atenção dos agentes está voltada para Acari e uma favela da Baixada Fluminense, onde o traficante pode estar escondido. Mesmo sem confronto direto, a entrada em Parada de Lucas e Vigário Geral não foi simples. O primeiro problema foi tirar do caminho uma barricada de trilhos e carros montada no viaduto que liga as ruas Bulhões Marcial e Doutor Adauto, acesso importante a Vigário Geral. Sete viaturas da Polícia Civil ficaram paradas ali até a barreira ser removida. Os bandidos ainda atearam fogo aos veículos. Na comunidade, os policiais chegaram às defesas do tráfico. Logo na entrada, encontraram uma casamata com seteira — um buraco na parede para apoiar fuzil e melhorar a mira — de frente para uma estação de trens, perto da passarela de pedestres na Rua Bulhões Marcial. A parede tinha duas camadas de tijolos, e o chão estava cheio de cápsulas de bala já deflagradas. Na passarela principal sobre a linha do trem, por onde os moradores entram em Vigário Geral e saem de lá, havia uma barricada de pneus e trilhos. Em outra, mais para o lado de Parada de Lucas, foi encontrado um portão de ferro trancado com cadeado. O obstáculo foi retirado pelos policiais. Bloqueio. Trilhos cravados no concreto e pneus empilhados restringem o caminho na passarela que dá acesso a Vigário Geral — Foto: Fabiano Rocha Em Vigário Geral, os policiais também localizaram a casa de Leandro Santos Sabino, o Flamengo, aliado de Peixão. O imóvel de alto padrão ainda está em obras. A PM diz que a operação busca combater a intolerância religiosa pregada por Peixão, coibir a exploração comercial do tráfico e frear as brigas entre facções rivais. A Polícia Civil aproveitou o cerco para cumprir mandados de prisão contra foragidos. Oito pessoas foram localizadas, entre elas Luana Rosa de Araújo, a Madrinha da Cidade Alta, que tinha quatro mandados em aberto, dois por homicídio e dois por associação ao tráfico. Para os investigadores, ela é braço direito de Peixão e cuida da contabilidade da facção. Fuzil cor-de-rosa Com Luana foram apreendidos um celular, um caderno de anotações do tráfico e um notebook. A polícia investiga a informação de que ela ganhou de Peixão um fuzil cor-de-rosa. A arma, porém, não foi encontrada. — Luana chefiava uma comunidade do TCP em Duque de Caxias, a Massapê, e participou de um homicídio ao lado de outros bandidos da facção em 2021. Ela é perigosa — disse o delegado Bruno Ciniello, titular da 38ª DP (Brás de Pina). A PM promete manter o policiamento nas cinco favelas 24 horas por dia. Sem uma data definida para terminar, a operação tem apenas a participação da segurança pública: não há previsão de ações sociais dos governos estadual e municipal. Casamata. Ambiente interno (à esquerda) tinha cápsulas de bala no chão: da seteira (acima) — buraco na parede para apoiar o fuzil —, se avista a linha férrea, perto da passarela da Bulhões Marcial — Foto: Divulgação/Polícia Civil Neste momento, o que se tem são equipes do Primeiro Comando de Policiamento de Área e do Comando de Operações Especiais circulando por pontos estratégicos das comunidades. O entorno do complexo ganhou reforço: o Batalhão de Policiamento em Vias Expressas (BPVE) está de prontidão para atuar em caso de retaliação como a de segunda-feira, quando bandidos da Favela de Acari, também do TCP, incendiaram dois caminhões na Avenida Brasil. — Não temos base fixa nas comunidades. Os policiais fazem o policiamento preventivo e ostensivo, junto com a inteligência, que acompanha a movimentação dos criminosos. A troca de turno é feita no próprio local, não no batalhão. E, além do efetivo que fica lá, entramos com outras unidades pontualmente, como fizemos com o Batalhão de Ações com Cães. O Bope está fazendo buscas por criminosos. É assim que vamos atuando: procurando material ilícito e apurando denúncias que não dava para checar antes — detalhou o major Maicon.