Nenhum dos quatro candidatos presentes no encontro promovido pela Band, no domingo, tinha 10% das intenções de voto nas principais pesquisas 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Renan, Caiado e Cury no primeiro debate entre candidatos à Presidência da República de 2026 — Foto: Maria Isabel Oliveira / O Globo. O brilhante livro “Debate na Veia”, do jornalista Fernando Mitre, presenteia o leitor com um desfile sobre a bela trajetória dos debates presidenciais desde o fim da ditadura. Infelizmente essa história está sendo corroída a cada ciclo eleitoral. No último domingo, a Band abriu a temporada de debates presidenciais de 2026 com uma cena inédita: nenhum dos quatro candidatos presentes tinha 10% das intenções de voto nas principais pesquisas. Lula e Flávio Bolsonaro, líderes nas pesquisas, simplesmente não apareceram. Romeu Zema também faltou. Não foi acidente. Foi o desfecho previsível de um sistema que, há décadas, ensina aos candidatos brasileiros que faltar a debate custa pouco. E também não maximiza a audiência potencial de eventos tão importantes. O histórico é longo. Jânio Quadros recusou o primeiro convite da televisão brasileira, em 1960. Collor evitou debater no primeiro turno de 1989. FHC não participou de nenhum debate em sua campanha à reeleição em 1998 (em 1994 só foi no primeiro). Lula faltou nos debates do primeiro turno de 2006 e voltou a faltar em 2022. Bolsonaro em 2018, depois da facada, não compareceu mais. Cada um, a seu modo, testou o limite e descobriu que o limite praticamente não existe. Em 2022, dois debates de primeiro turno foram simplesmente cancelados quando os dois favoritos avisaram que não iriam. A regra eleitoral só obriga emissoras a convidar candidatos de partidos com cinco ou mais deputados eleitos e, claro, não obriga ninguém a comparecer. Estamos na contramão do mundo democrático tanto em termos de incentivo de presença quanto de potencializar a audiência. Na Argentina, debate presidencial virou lei e é obrigatório. Não comparecimento implica em punição. No México, o Instituto Nacional Eleitoral (órgão autônomo, sem vínculo com nenhuma emissora) organiza os debates desde 1994. Na Espanha, a Academia de Televisión, entidade neutra, organiza os debates e uma reforma de 2025 tornou os debates obrigatórios nas emissoras públicas. Na França, não há lei que obrigue o debate apenas uma tradição que remonta a 1974: o confronto televisivo entre os dois finalistas do segundo turno. Pessoalmente foi marcante a experiência de testemunhar presencialmente debates nacionais na Espanha e França. Os países literalmente param nesses eventos. Nos Estados Unidos, desde 1976, é praticamente impensável que um candidato indicado pelos dois grandes partidos simplesmente não debata, mesmo quando as regras mudam a cada ciclo, como em 2024, quando as campanhas negociaram diretamente com as emissoras fora da tradicional Comissão de Debates. O padrão que emerge desses locais não é sutil: onde existe um pool de emissoras ou uma autoridade eleitoral, ou uma instituição neutra como a Academia espanhola (ou Comissão de Debates Americana) concentrando o debate em poucos eventos de alto peso simbólico, faltar sai caro. Quando a cobertura se fragmenta em disputas concorrentes entre Band, Globo, Record e SBT, cada uma organizando o seu próprio evento, o candidato ganha exatamente o que não deveria ter: a opção de escolher a plateia, descartar a audiência incômoda e ainda assim chegar inteiro ao primeiro turno. O pool não é um detalhe técnico de produção televisiva. Além dos pools nesses países produzirem obviamente mais audiência, ou seja, mais eleitores assistindo. Essa dinâmica é ainda o que transforma um debate de evento dispensável em compromisso público que nenhum candidato competitivo pode se dar ao luxo de ignorar. O Brasil tem duas rotas possíveis, e não são excludentes. Uma é a via argentina: lei que obriga e pune com a moeda que mais importa em campanha, o tempo de TV. Se você acredita que criar lei é algo excessivo, a outra é a via mexicana e espanhola: um organismo único, técnico e sem interesse comercial na audiência, substituindo a atual competição entre emissoras por um punhado de debates que realmente contam. O que não se sustenta é o modelo atual, em que cada candidato líder (ou líderes) aprenderam que podem escolher a própria plateia e o eleitor brasileiro, ao contrário do argentino, do mexicano, do espanhol ou do americano, segue sem o direito básico de ver, ao vivo e sem cadeira vazia, quem pretende governá-lo. Há ainda quem acredite que, no Brasil, os candidatos não vão ao debate pelo contexto (polarização maior, perda de relevância da TV tradicional para as redes e outros motivos contextuais). Como economista aprendi que diante de qualquer contexto o desenho de incentivos faz toda a diferença para minimizar (ou potencializar) os efeitos desse contexto. Em resumo, o modelo brasileiro de debates organizados por cada emissora é conveniente para as campanhas e mais fácil para os organizadores. Todos ganham, menos os eleitores.
O debate que o Brasil não quer ter
Nenhum dos quatro candidatos presentes no encontro promovido pela Band, no domingo, tinha 10% das intenções de voto nas principais pesquisas












