O Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE, na sigla em inglês) prendeu 49.571 pessoas em julho — o maior número de detenções registrado em um único mês desde o início do segundo mandato do presidente americano, Donald Trump, em janeiro de 2025. Segundo novos dados do governo, fornecidos pelo ICE ao Deportation Data Project, da Universidade da Califórnia em Berkeley, e analisados pela agência de notícias Associated Press, o aumento das detenções mostra que o republicano mantém o avanço de sua agenda de deportações em massa, embora tenha mudado a estratégia adotada nos primeiros meses após voltar à Casa Branca. Ao mesmo tempo, como parte da ofensiva migratória de Trump, o Departamento de Estado americano anunciou, nesta terça-feira, que vai revogar, de forma progressiva, vistos de negócios e turismo de milhares de estrangeiros que pediram asilo nos EUA. Segundo a imprensa americana, a medida pode afetar até 200 mil pessoas e, se concretizada, representaria a maior revogação em massa de vistos de uma só vez na História do país. Em vez de concentrar esforços em operações de enorme visibilidade em grandes cidades americanas, que provocaram forte reação pública, o governo Trump passou a realizar prisões que recebem menos atenção, mas continuam causando impactos. Entre as novas estratégias estão detenções durante abordagens de trânsito e uma dependência maior de forças de segurança estaduais e locais que assumiram funções de fiscalização migratória. Agentes do ICE também começaram a prender haitianos que perderam proteções contra a deportação. — Eles mudaram as táticas e estão, se alguma coisa, sendo mais eficazes — afirma Mark Krikorian, do Center for Immigration Studies, organização que defende restrições mais rígidas à imigração. As quase 50 mil prisões realizadas em julho representam uma alta de 15% em relação às 43.021 registradas em junho e de 70% na comparação com fevereiro deste ano, quando foram contabilizadas 29.941 detenções. Recorde de prisões: ICE detém quase 50 mil pessoas nos EUA em julho — Foto: Arte / O Globo A nova estratégia já havia sido sinalizada por Markwayne Mullin, secretário de Segurança Interna. Durante sua audiência de confirmação, no início deste ano, ele prometeu manter o ICE longe dos holofotes, sugerindo que a ofensiva migratória poderia adotar uma abordagem mais branda. Seu período à frente da pasta, porém, foi marcado por uma série de tiroteios fatais envolvendo imigrantes e agentes do ICE. Os números mostram que ele não afastou a agência da política de deportações defendida por Trump. Aumento após queda em Minnesota No mês anterior à chegada de Trump à Casa Branca, o ICE havia registrado pouco mais de 8 mil prisões. Naquele período, grande parte delas envolvia imigrantes transferidos de cadeias e prisões municipais ou estaduais para a custódia da agência, com o objetivo de removê-los do país. Durante o primeiro ano do governo Trump, no entanto, os números começaram a subir. A administração flexibilizou as restrições sobre onde e quem poderia ser preso pelo ICE e destinou bilhões de dólares à agência. Em dezembro, as detenções ultrapassaram 40.177, segundo dados obtidos por meio de uma ação judicial baseada na Lei de Liberdade de Informação dos EUA (FOIA, na sigla em inglês). O número caiu em fevereiro, porém, depois de dois tiroteios fatais em Minnesota, em janeiro, que provocaram protestos e forte reação de parlamentares democratas. As prisões permaneceram praticamente estáveis durante alguns meses antes de dispararem novamente em junho. Com o novo aumento, Texas e Flórida responderam por quase 20 mil das prisões realizadas pelo ICE em julho, uma concentração que indica a importância que esses estados adquiriram para as deportações do governo americano. Ambos os locais têm ampliado a cooperação com o ICE por meio dos chamados acordos 287(g), que permitem que forças de segurança estaduais e locais desempenhem, na prática, funções de fiscalização migratória federal. Operações de grande visibilidade Na gestão da antecessora de Mullin, Kristi Noem, a fiscalização migratória era frequentemente marcada por operações de grande visibilidade em cidades governadas por democratas, como Chicago, Los Angeles e Minneapolis. Muitas dessas ações eram lideradas pelo ex-agente da Patrulha de Fronteira Greg Bovino e apareciam em vídeos publicados nas redes sociais. As imagens mostravam agentes saindo de vans em movimento para perseguir pessoas ou descendo de helicópteros por cordas até os telhados de prédios residenciais. Segundo Krikorian, esse tipo de operação acabou provocando uma reação negativa até entre apoiadores da medida. — Estavam provocando muitas pessoas comuns, afastando-as, mesmo quando elas apoiavam a ideia de que as leis de imigração deveriam ser cumpridas — diz. O aumento das detenções ocorre enquanto o ICE amplia sua estrutura. A agência recebeu bilhões de dólares do Congresso no ano passado e contratou 12 mil novos agentes responsáveis por deportações e investigadores. Abordagens de trânsito O crescimento das prisões durante abordagens de trânsito também tem sido percebido em comunidades de imigrantes. Patricia Quiñonez, jornalista da Utahlozanos, que cobre a comunidade de venezuelanos em Utah, afirmou à AP que essas detenções aumentaram significativamente nos últimos meses. — Eles param você por qualquer motivo, por exemplo, se você não tem carteira de motorista, se o registro do veículo está vencido ou se os vidros são mais escuros do que o permitido. A partir daí, aproveitam a situação e perguntam sobre a imigração — conta. Segundo Quiñonez, pessoas com autorizações de trabalho válidas e pedidos de asilo ainda pendentes estão entre as detidas. A jornalista acredita que essas pessoas estejam sendo alvo de discriminação racial. Vistos também entram na mira O Departamento de Estado confirmou, nesta terça, que a revogação dos vistos será feita em coordenação com o Departamento de Segurança Interna (DHS, na sigla em inglês). Segundo o porta-voz da pasta, Tommy Pigott, o governo está identificando estrangeiros que entraram nos EUA com vistos de não imigrante alegando que fariam visitas de curta duração, mas depois solicitaram asilo para permanecer no país. — Obter um visto a fim de solicitar asilo constitui fraude, o que é motivo para a revogação — afirmou Pigott à AFP. A medida deve atingir principalmente titulares de vistos B1 e B2. Os primeiros são normalmente concedidos para viagens de negócios, enquanto os segundos são destinados, em geral, a turismo, visitas familiares ou tratamento médico. O Departamento de Estado não confirmou o número de 200 mil pessoas divulgado pela imprensa americana, mas tampouco o desmentiu. Segundo a AP, ainda não está claro quantos titulares desses vistos estão atualmente buscando asilo ou já obtiveram o status e, portanto, poderiam ser afetados. As revogações não significariam necessariamente a deportação imediata dos estrangeiros. De acordo com dois funcionários ouvidos pela AP sob condição de anonimato, a maioria das pessoas com pedidos de asilo pendentes teria seu status recategorizado, mas perderia a condição de visitante a negócios ou turista. As revogações ainda não são definitivas. Desde o início do segundo mandato de Trump, o governo americano vem ampliando as restrições para solicitantes de visto. Entre as medidas estão a exigência de mais informações sobre o histórico dos candidatos nas redes sociais, a cobrança de cauções elevadas para o processamento de vistos e a suspensão da emissão de vistos para cidadãos de determinados países. A nova medida amplia uma política de revogação de vistos que já atingiu cerca de 175 mil pessoas nos últimos 18 meses, segundo dados do Departamento de Estado. Entre os afetados estão pessoas condenadas ou acusadas de crimes que vão de dirigir embriagado a estupro e roubo, além de indivíduos que se manifestaram publicamente contra políticas americanas, especialmente relacionadas ao Oriente Médio. Os documentos do Departamento de Estado obtidos pela AP indicam que a análise dos atuais titulares de vistos B1 e B2 começou depois que a pasta recebeu informações sobre pedidos de asilo do Serviço de Cidadania e Imigração dos EUA (USCIS, na sigla em inglês). (Com AFP)