Números mostram que governo manteve avanço das deportações em massa, apesar de trocas de operações de grande repercussão por prisões mais discretas 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Uma faixa do Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE) em Nova York, 10 de junho de 2025 — Foto: AP/Yuki Iwamura O Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE, na sigla em inglês) prendeu quase 50 mil pessoas em julho, o maior número mensal durante o segundo governo do presidente Donald Trump, de acordo com novos dados. Os números mostram que o governo continuou avançando com sua agenda de deportações em massa apesar de uma mudança de estratégia no início deste ano: deixou de priorizar operações de grande repercussão nas principais cidades americanas, que provocaram indignação pública, e passou a realizar prisões que atraíram menos atenção, mas que ainda assim têm causado transtornos. As 49.571 prisões registradas em julho representam um salto de 15% em relação às 43.021 do mês anterior e um aumento de 70% na comparação com as 29.241 de fevereiro, após as operações em Minnesota, segundo dados do governo fornecidos pelo ICE ao Deportation Data Project, da Universidade da Califórnia em Berkeley, e analisados pela Associated Press. Como parte do aumento das prisões nas últimas semanas, agentes do ICE realizaram detenções durante abordagens de trânsito. O órgão também passou a depender cada vez mais de parceiros das forças de segurança estaduais e locais, que estão assumindo funções de fiscalização migratória, e começou a prender pessoas do Haiti cujas proteções contra deportação foram retiradas. Os novos números mostram que o governo “não interrompeu a aplicação da lei”, afirmou Mark Krikorian, do Center for Immigration Studies, que defende maiores restrições à imigração. “Eles mudaram as táticas e, no fim das contas, estão sendo mais eficazes.” Manifestantes anti-ICE se dispersam durante confrontos com policiais em frente ao centro de detenção Delaney Hall, no sábado, 30 de maio de 2026, em Newark, Nova Jersey — Foto: AP/Angelina Katsanis No mês anterior à posse de Trump, o número de prisões relacionadas à imigração estava pouco acima de 8 mil, composto em grande parte por imigrantes transferidos de cadeias e prisões municipais ou estaduais e entregues ao ICE para serem retirados do país. Durante o primeiro ano de Trump no cargo, os números começaram a subir à medida que o governo flexibilizou as regras sobre onde e quem o ICE poderia prender e destinou bilhões de dólares à agência. O número de prisões saltou para mais de 40.177 em dezembro, conforme os dados, que foram obtidos por meio de uma ação judicial baseada na Lei de Liberdade de Informação. Após protestos e denúncias envolvendo dois tiroteios fatais em Minnesota em janeiro, que provocaram manifestações e forte reação de parlamentares democratas, as prisões começaram a cair em fevereiro. Depois de permanecerem praticamente estagnadas durante meses, voltaram a disparar em junho. Texas e Flórida concentraram quase 20 mil das prisões realizadas em julho, sinal de como esses Estados se tornaram importantes para a agenda de deportações em massa do governo Trump. Os dois Estados têm recorrido intensamente a acordos de cooperação com o ICE conhecidos como “acordos 287(g)”, que permitem que forças de segurança estaduais e locais atuem, na prática, como braços da fiscalização federal de imigração. O secretário de Segurança Nacional, Markwayne Mullin, prometeu no início deste ano, durante sua audiência de confirmação, manter o ICE longe das manchetes, indicando que a ofensiva poderia adotar uma abordagem mais discreta. Sua gestão, porém, foi marcada por vários casos de imigrantes mortos a tiros em confrontos com agentes do ICE. Os números também mostram que Mullin não se afastou da visão do presidente Trump de promover deportações em massa. Sob Kristi Noem, antecessora de Mullin, as operações frequentemente tinham grande repercussão e se concentravam em cidades governadas por democratas, entre elas Chicago, Los Angeles e Minneapolis. Operações muitas vezes lideradas pelo ex-agente da Patrulha de Fronteira Greg Bovino eram divulgadas nas redes sociais em vídeos que mostravam agentes saltando de vans em movimento para perseguir pessoas ou descendo de helicópteros por cordas até os telhados de prédios residenciais. Gregory Bovino, comandante da repressão à imigração, ao lado de agentes de imigração — Foto: Tom Baker/ASSOCIATED PRESS Krikorian, porém, afirmou que essas táticas estavam “provocando muitas pessoas comuns e afastando-as, mesmo que elas gostassem da ideia de que as leis de imigração fossem aplicadas”. O aumento das prisões ocorre enquanto o ICE, que recebeu bilhões de dólares adicionais do Congresso no inverno passado, também contratou 12 mil novos agentes de deportação e investigadores. Patricia Quiñonez, jornalista do Utahlozanos, que cobre a comunidade de imigrantes venezuelanos em Utah, afirmou que as prisões relacionadas à imigração durante abordagens de trânsito aumentaram drasticamente nos últimos meses. “Eles param você por qualquer motivo: por exemplo, você não tem carteira de motorista, a documentação do veículo está vencida ou os vidros estão mais escuros do que o permitido. A partir daí, aproveitam a situação e começam a fazer perguntas sobre imigração.” Entre os detidos estão pessoas com autorizações de trabalho válidas e pedidos de asilo ainda em análise, afirmou Quiñonez, que acredita que elas estejam sendo alvo por causa de sua raça.