Vergonha alheia. Um dos meus sentimentos preferidos pela sua paradoxalidade. Sentir vergonha pelas ações de outrem é uma espécie de empatia antipática. Ao sentir vergonha alheia nos colocamos ao mesmo tempo, no lugar do julgador e do julgado, ridicularizamos e somos ridicularizados, incongruência fascinante que nos faz sentir um misto de emoções igualmente contraditórias nos faz sentir um misto de emoções igualmente contraditórias, uma dor prazerosa, ou prazer dolorido.

Busco e evito na mesma medida situações que sei que me causarão esse constrangimento alheio. A título de exemplo, confesso que tenho uma grande resistência a apresentações de stand up comedy, aquelas em que um comediante —muito corajosamente diga-se de passagem— sobe ao palco e ali conta histórias na tentativa de fazer a plateia rir da plateia. E eu, que não caio na gargalhada com facilidade, fico ali sentada em cima do meu incômodo diante daquela tentativa que não se cumpre.

Por outro lado, cultivo um vício em assistir a programas de televisão —"Casamento às Cegas", estou falando de você— em que, do conforto do meu sofá, me delicio dolorosamente com as atuações de boa parte dos participantes.

Você provavelmente terá seus próprios gatilhos de vergonha alheia. Talvez uma dança específica lhe desperte constrangimento, talvez um certo discurso político, talvez uma maneira de se vestir que lhe pareça absurda.