O espectador que entra no teatro para assistir a "Inter Alia" perde de imediato a posição de mero observador. Sob a condução primorosa de Rodrigo Portella, a montagem brasileira da dramaturgia da australiana Suzie Miller elimina o distanciamento analítico e constrói um ambiente de intensa carga psíquica, no qual a plateia é arrastada para o centro de um julgamento sem veredito simples.
Portella opera na chave do essencial. A cenografia de linhas retas, cadeiras e grades de madeira, idealizada por Mina Quental e pelo próprio diretor, funde a solenidade de um tribunal de justiça com a claustrofobia de um lar em processo de ruína moral.
A luz de Ana Luzia de Simoni, articulada em focos brancos e penumbras sufocantes, acompanha a perda da clareza institucional, enquanto o desenho de som de Federico Puppi, injeta uma tensão contínua que acelera o pulso da cena. Toda essa arquitetura cênica funciona como extensão do colapso interno dos personagens.
É no desempenho do trio de atores, contudo, que a montagem ganha sua expressão mais penetrante. Drica Moraes constrói uma Jessica Parks de precisão milimétrica. A atriz vivencia o desastre sem histrionismo, revelando ao público o terror de uma mente analítica que vê suas estruturas ruírem.






