Coluna se despede de um país com a autoconfiança em alta, mas com inseguranças latentes 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Fortaleza de Jiayuguan, ponto final da Grande Muralha da China — Foto: Marcelo Ninio Do alto da fortaleza de Jiayuguan, no extremo oeste da China, abre-se uma paisagem desértica que convida o visitante a meditar sobre os limites do poder. Entreposto da antiga Rota da Seda, o local servia de passagem para mercadores, soldados, monges e aventureiros em geral, na batida entre Oriente e Ocidente. Era o ponto final da Grande Muralha da China, que delimitava os domínios imperiais da Dinastia Ming (1368-1644). O cenário serve de inspiração para esta coluna de despedida da China, após seis anos de relatos sobre o país. Vivi de dentro o isolamento na pandemia, passei por incontáveis testes de Covid e vi de perto o sucesso e posterior fadiga da política de tolerância zero do governo chinês. Algumas marcas daquele tempo permaneceram, como o aumento dos controles oficiais e a desconfiança com os excessos do governo. Fortaleza de Jiayuguan, ponto final da Grande Muralha da China — Foto: Marcelo Ninio Em todo esse tempo, como faz há séculos, a China manteve a capacidade de surpreender. O momento inicial da pandemia levou alguns incautos a antever o colapso do país. Mas a previsão teve vida curta. O governo não apenas superou rapidamente a crise inicial, como a usou a seu favor para promover a superioridade de seu modelo de governança, enquanto em outros países a pandemia saía do controle. Encontrar a receita para transformar crise em oportunidade também explica o sucesso da China no que é hoje um dos motores da economia. Além de reduzir de forma dramática a poluição do ar, o governo investiu pesado na indústria de energia renovável. O resultado é que a população ganhou em qualidade de vida e o país passou a dominar a cadeia de produção, de painéis solares a veículos elétricos, deixando os competidores a ver navios. Desde a estreia da coluna no GLOBO, em outubro de 2020, foram centenas de textos, abordando diversos aspectos da China e sua relação com o mundo. Das oscilações da economia às mudanças no topo da liderança comunista; do acirramento da disputa com os Estados Unidos à obsessão do país pelo desenvolvimento tecnológico; de grandes eventos na Praça da Paz Celestial às trincheiras do rock underground. Na observação de um país que desafia rótulos, os paradoxos sempre saltaram aos olhos. Alguns contribuem para explicar o país, outros ajudam a confundir. Enquanto a autoconfiança do governo e da população aumentou, também brotaram incertezas, com expurgos no alto escalão. Se por um lado a China ampliou a presença no mundo, internamente ficou mais fechada, com menos espaço para questionamentos. Na relação com o Brasil, os ruídos com o governo Bolsonaro deram lugar à sintonia do presidente Lula com Pequim. A mudança incentivou a aproximação econômica, mas aumentou o risco do excesso de dependência do Brasil com a China. Acima de tudo, o que passou a pautar a estratégia de Pequim foi a competição com os EUA. Se antes a prioridade era o crescimento econômico, agora o foco é a corrida tecnológica, para moldar o futuro. No período da Dinastia Ming, quando foi construída a fortaleza de Jiayuguan, a economia chinesa era a maior do planeta, 30% do total. Hoje o país tem a mesma fatia da produção industrial do mundo, com domínio absoluto em alguns setores. Mesmo com o protecionismo em alta, é um poder sem fronteiras. Fortaleza de Jiayuguan, ponto final da Grande Muralha da China — Foto: Marcelo Ninio Aqui me despeço da China, com um agradecimento especial aos leitores que me acompanharam. Até breve, de outro ponto estratégico do planeta.
As novas fronteiras do domínio chinês, seis anos depois
Coluna se despede de um país com a autoconfiança em alta, mas com inseguranças latentes
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