A perspectiva de intensificação do El Niño — quando as águas do Pacífico se aquecem mais que o normal — nos próximos meses e a chegada de seus efeitos mudaram o planejamento da indústria brasileira. De um lado, a previsão de ondas de calor intenso em alguns pontos do país faz empresas de diferentes segmentos, do ventilador ao sorvete, anteciparem a produção e reforçarem estoques para atender à possível alta demanda. Em outra ponta, o risco de chuvas abaixo da média acende um alerta para o setor de ar-condicionado em Manaus. Na Zona Franca, fabricantes temem dificuldades para escoar a produção caso o nível dos rios seja reduzido pela estiagem. Operação adiantada em 1 mês Na Mondial, líder de mercado em ventiladores, a produção para atender à demanda de verão — e também as compras de Black Friday, Natal e liquidações de início de ano — tradicionalmente começa entre o fim de julho e o início de agosto, mas este ano a operação foi adiantada em um mês. Giovanni Cardoso, do grupo MK , dono da Mondial, licenciou a marca Aiwa e vai fabricar tevês no Brasil — Foto: Divulgação grupo MK Para isso, a companhia investiu cerca de R$ 250 milhões na compra de matéria-prima, equipamentos, contratação de mil funcionários extras e ampliação das áreas adicionais de estoque. A capacidade produtiva da fábrica de Conceição do Jacuípe (BA) foi ampliada em 80% na comparação ao cenário de 2024, quando o último El Niño foi registrado. — Ou produzimos antecipadamente, ou não conseguimos abastecer o mercado lá na frente — afirma Giovanni M. Cardoso, cofundador do Grupo MK, dono das marcas Mondial e Aiwa Brasil. El Niño é acompanhado de perto por fabricantes de sorvete No setor de sorvetes, o El Niño virou uma das variáveis nos cálculos anuais da The Magnum Ice Cream Company para o verão. Dona de marcas como Kibon, Ben & Jerry’s e Cornetto, a companhia aumentou investimentos em equipamentos em 50% neste ano e contratou temporários para atuar na fábrica de Valinhos, no interior de São Paulo. A Bacio di Latte espera um aumento nas vendas acima de 20% neste verão potencializado pelo El Niño. Para isso, a sorveteria antecipou em um mês a produção de estoque para a alta temporada na fábrica de Cotia (SP). O volume diário de produção na unidade aumentou em 40% por causa da perspectiva de demanda aquecida nos próximos meses. É de lá que saem sorvetes e picolés da marca vendidos em padarias e supermercados. Já a produção destinada às sorveterias é feita dentro de cada unidade. Teo Figueiredo, CEO da Magnum Ice Cream Company no Brasil: incremento na operação — Foto: Edilson Dantas Para garantir os estoques, a empresa antecipou a compra de insumos e aumentou em até 30% as encomendas de ingredientes importados, como pasta e grãos de pistache, avelãs e cerejas amarena, que levam até três meses para chegar ao Brasil, detalha Fábio Medeiros, diretor de Marketing da empresa. — O El Niño força muito mais a cadeia produtiva e os estoques. Monitoramos as temperaturas diariamente para não termos rupturas em um pico de demanda — afirma o executivo. Fábricas de ar-condicionado investem para produzir mais Fabricantes de ar-condicionado também esperam faturar mais com a previsão de ondas de calor. A Electrolux prevê aumento na demanda na casa de dois dígitos percentuais. Já a Midea Springer aposta em um crescimento de até 15% nas vendas para o varejo. Parte da demanda, porém, deve ser atendida por aparelhos que estão no estoque das lojas. As temperaturas mais baixas no inverno deste ano frearam as vendas do segmento em 12% na comparação com igual período do ano passado, segundo dados da Eletros, associação de fabricantes. Midea investiu R$ 85 milhões e contratou 1,2 mil para elevar produção de ar-condicionado em 10% — Foto: Divulgação/Midea Mesmo levando esse aspecto em conta, as varejistas anteciparam encomendas. Os pedidos são tradicionalmente feitos em setembro, mas neste ano a Midea recebeu as solicitações em julho. A empresa investiu R$ 85 milhões para, entre outros pontos, expandir a capacidade produtiva de ar-condicionado em 10% e construir novos armazéns para estoque. Além disso, 1,2 mil funcionários foram contratados para atuar na fábrica de Manaus (AM), que também produz micro-ondas. Corrida antes da seca Antecipar a produção é uma estratégia que busca não só fazer frente ao aumento da demanda como ajudar a escoar a produção o quanto antes. Todos os aparelhos são produzidos na Zona Franca de Manaus, e a estiagem que pode atingir os rios da região impacta desde a chegada de matéria-prima até o escoamento da produção. — A indústria está correndo para entregar antes que a seca dificulte a logística — diz Simone Camargo, diretora de Marketing da Midea. Em 2023 e 2024, a baixa sazonal dos rios, que sempre ocorre entre agosto e novembro, atingiu mínimas históricas. O escoamento da produção de produtos como motos e eletrodomésticos, que segue duas linhas principais, como mostrado no mapa abaixo, também ficou prejudicado. Rotas para escoamento de mercadorias da Zona Franca — Foto: Arte No ano passado, a seca foi menos severa, e os rios, artérias logísticas na Amazônia, não baixaram tanto. — O nível dos rios está um pouco acima do que estava, nesta época, em 2023 e 2024, mas com uma velocidade de baixa muito rápida. O Rio Amazonas está baixando dez centímetros por dia, é muita coisa — diz Luís Fernando Resano, diretor executivo da Abac, entidade que representa o setor de cabotagem, o transporte marítimo dentro de um mesmo país. Segundo o meteorologista Francis Wagner Silva Correia, coordenador do Laboratório de Modelagem do Sistema Climático Terrestre (Labclim) da Universidade do Estado do Amazonas, o El Niño “já está deixando marcas na Amazônia”, com vazante “bem acelerada” no alto e médio Rio Negro e no alto e médio Solimões e chuvas “abaixo da média em boa parte da região”. — Manaus tende a enfrentar uma seca severa, podendo entrar entre as dez maiores da série histórica — alerta Wagner. — Mesmo com El Niño muito forte, as condições hidrológicas que a gente observa hoje ainda não apontam para um cenário tão crítico quanto o que vivemos em 2023 e 2024. Mas essa é uma leitura do momento. Resano cobra investimentos da União na dragagem dos pontos críticos dos rios. O governo federal informou que os trabalhos começarão neste mês, segundo o Ministério de Portos e Aeroportos (MPor) e o Dnit, órgão do Ministério dos Transportes responsável por dragar os rios do país. Cais temporários podem ser retomados Os cais ficam no meio do rio, antes de chegar a Manaus para quem navega subindo contra a correnteza, num ponto onde a profundidade, mesmo na seca, permite a navegação dos cargueiros. Nesses cais, os contêineres são transferidos para balsas, que conseguem navegar em profundidades menores. O percurso até Manaus leva de 12 a 18 horas. Terminal de transbordo em cais temporário instalado no Rio Amazonas, na altura de Itacoatiara, pelo Grupo Chibatão, em 2024 — Foto: Divulgação/Grupo Chibatão O Super Terminais informou ao GLOBO que já se prepara para instalar cais temporários neste ano, se for necessário. O investimento previsto é de R$ 60 milhões. — Já iniciamos todos os trâmites operacionais e burocráticos juntos às autoridades e órgãos competentes — afirma Marcello Di Gregorio, diretor-geral do Super Terminais, frisando que a instalação ainda não está definida nem tem data marcada. — A definição da data exata dependerá do ritmo de vazante do rio e da evolução das condições de navegabilidade. Procurado, o Grupo Chibatão não respondeu .
Efeito El Niño: calor deve aquecer vendas de ar-condicionado a picolé. Veja como empresas se preparam
Clima interfere no planejamento da indústria, que enfrenta desafios na logística para atender demanda








