Os gigantescos complexos necessários para dar continuidade ao boom da inteligência artificial (IA) nos Estados Unidos se tornaram inusitados personagens das eleições de novembro e uma dor de cabeça a mais para Donald Trump no pleito que decidirá o controle do Congresso — com os democratas favoritos para comandar a Câmara e ligeiramente à frente nas pesquisas ao Senado. O novo revés se dá em meio à desaprovação recorde do governo do republicano, com narizes torcidos especialmente para o atoleiro na guerra contra o Irã e o aumento do custo de vida. Menina dos olhos da Casa Branca, a IA tem sido o principal motor do crescimento do PIB e dos investimentos no Trump 2.0, centrais para atenuar as pressões inflacionárias da guerra no Oriente Médio e das sequelas dos tarifaços. É saudada pelos governistas como modelo de desregulamentação, exemplo vitorioso da parceria com as big tech, crucial no tabuleiro geopolítico global, em detrimento da rival China, sem arriscar a segurança nacional com os data centers erguidos no próprio país. Mas a moratória na construção de novas unidades anunciadas por estados após a grita dos eleitores e as penalizações contra autoridades locais, após a revelação de facilidades dadas às corporações em contratos firmados com cláusulas de confidencialidade, deixaram no passado a celebração com os empregos na construção civil e o aumento na arrecadação de impostos municipais. De trunfo, os centros de dados viraram a Geni do momento. Uma pesquisa atesta que 70% dos americanos são contrários à construção dos galpões. — É que os cidadãos não têm sido consultados — explicou Joanie Flanagan, de 62 anos, ao New York Times. Ela vive em Independence, município de 120 mil habitantes no Missouri. O estado do Meio-Oeste deu a Trump 58% dos votos em 2024, dois pontos percentuais a mais do que ele obteve em 2016 e 2020. Ainda assim, moradores indignados, como a corretora de imóveis aposentada, coletaram milhares de assinaturas e decidirão no voto, em duas semanas, o destino político do vereador que liderou na Câmara a defesa da construção de um data center, projeto de US$ 150 bilhões (R$ 778 bilhões) da holandesa Neibus. Processos similares ocorrem em outras cidades do estado e em Indiana, Oklahoma e Michigan, igualmente vencidos pelo republicano há dois anos. Em Independence, uma usina hidrelétrica será reativada para atender a demanda do centro de dados, e o complexo empregará 150 pessoas em tempo integral, além de mais de mil postos temporários para a construção civil. De acordo com o Censo, 16% dos moradores da cidade vivem na pobreza, acima da média estadual, e os vereadores estimam que o projeto engorde em até 65% os cofres municipais, incrementando a educação local. Moradores como Flanagan, no entanto, criticam a contrapartida de US$ 6 bilhões (R$ 31 bilhões) em incentivos fiscais por duas décadas. O acordo inclui uma cláusula para proteger a população contra aumento abusivo nas contas de luz e, se a empresa não cumprir sua parte no trato, inclusive o “uso restrito de água”, a cidade pode cancelar os incentivos. Não bastou para evitar o processo de impeachment. Os galpões que consomem quantidade imensa de energia e água para garantir o avanço de uma tecnologia com eficácia real ainda especulativa para muitos eleitores da América Profunda se tornaram o inevitável contraponto visual, com estética igualmente criticada, ao deserto de iniciativas de Washington para o combate das mazelas de fato urgentes, como o alto custo de alimentos, aluguéis, saúde, educação e gasolina. Razões do ódio O guru eleitoral Nate Silver publicou um texto em sua newsletter que mostra a conversa reveladora com a repórter Jasmine Sun, especialista no tema. O texto é intitulado “Por que todo mundo odeia os data centers” e parte da constatação do estatístico de que “passamos por um ponto de inflexão em que a IA desempenha papel bem mais proeminente na política”. Silver argumenta que grande parte da incerteza dos americanos em relação à IA foi canalizada neste momento “para uma variedade de preocupações e ansiedades em torno dos data centers”. As buscas no Google pelas duas palavras em 2026, sublinha, são 3,5 vezes mais altas do que em 2025 e 10 vezes mais do que em 2024. Radicada em São Francisco, Sun viajou este mês ao Wisconsin e ao Michigan, estados decisivos na disputa presidencial em 2028, para compreender a oposição local aos centros de dados em meio às prévias estaduais dos dois partidos. Conversou com moradores e políticos, entre eles o esquerdista Abdul El-Sayed, que venceu por pouco as primárias democratas para o Senado no Michigan. Seu desempenho contra o adversário republicano em novembro pode decidir o controle da Casa. Sun indica riscos que devem afetar mais os republicanos pela associação da Casa Branca com as big tech. Entre as perguntas que a jornalista mais ouviu na viagem estavam “Por que os capitães das big tech não erguem os data centers no quintal deles?” e “Por que os riscos são exportados para nós, enquanto eles colhem os benefícios antecipadamente?”. A fúria contra os centros de dados revela “o quanto o Vale do Silício se desconectou da vida dos americanos”. Se não será um dos tópicos centrais da disputa, o custo do avanço da IA terá a capacidade única, crê a jornalista, “de jogar combustível no fogo” das preocupações que os eleitores já têm, para além de uma eventual cruzada antitecnologia: — Se o custo de vida é central para o voto e o data center aumentar a conta de luz, a fúria crescerá. O mesmo se a preocupação é com corrupção e os contratos sigilosos evidenciarem má-fé dos governistas. Mas Sun também aponta desafios para os democratas. Um deles é o de resolver o quebra-cabeças de se comungar a defesa ambiental com a dos empregos com remuneração alta gerados na construção civil, em locais marcados pela desindustrialização. No Michigan, coração da indústria automobilística americana, os sindicatos, cruciais para a estratégia democrata em novembro, por exemplo, criticaram publicamente a defesa da moratória estadual aos galpões por El-Sayed. Suspensão no Texas A discussão sobre a definição de regras para a instalação dos centros de dados ganhou mais fôlego após o anúncio, no último dia 3, pelo governador Greg Abbott, aliado de Trump, da suspensão temporária da construção de novas unidades no Texas, onde os democratas não conquistam cargo executivo majoritário federal há 30 anos. O candidato democrata ao Senado, James Talarico, à frente nas pesquisas, apresentara pouco antes um plano de regulamentação rigorosa que inclui o fim de isenções fiscais para as big tech. Ele criticou o boom dos galpões no Texas por encarecer as contas de luz, esgotar recursos hídricos e firmar contratos pouco transparentes. As primeiras pistas sobre a impopularidade dos data centers apareceram no ano passado. Na Geórgia, outro estado decisivo em 2028, dois servidores estaduais perderam os cargos em meio à ira dos eleitores com o aumento das contas de luz. E na Virgínia, que concentra o maior número de unidades no país, o deputado estadual republicano Geary Higgins, favorito à reeleição, viu seu adversário democrata cunhar nele um apelido por conta de sua defesa dos galpões — “Data Center Geary”. Perdeu por 2%.
Data Centers de IA viram pedra no sapato de Trump
De olho nas eleições, democratas abraçam críticas aos galpões por risco ambiental, conta de luz gorda e contratos sigilosos







