Eleitores começam a rejeitar data centers e a pressionar políticos diante dos temores sobre os efeitos 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Datacenter em Vernon, na Califórnia, nos Estados Unidos — Foto: MARIO TAMA / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / Getty Images via AFP A inteligência artificial (IA) já se tornou um dos temas mais importantes das eleições de meio de mandato nos EUA e, diferentemente de outras questões, gera pouca polarização entre democratas e republicanos. Ambos são majoritariamente anti-IA, independentemente de serem de esquerda ou de direita. Não falo aqui apenas dos vídeos criados por inteligência artificial, que também dominam os debates na campanha brasileira. Na verdade, os eleitores americanos, em sua imensa maioria, são contrários à construção de data centers das gigantes de tecnologia em suas regiões e temem o futuro da IA como um todo, em uma espécie de fobia. Vamos aos números: sete em cada dez americanos não querem os data centers perto de suas casas e apenas um em cada dez avalia que a IA faz mais bem do que mal, segundo pesquisa da Gallup. Como muitos pais da minha geração, vivo uma incerteza enorme e até um certo pavor sobre como será a vida dos nossos filhos com os agentes de IA cada vez mais avançados. Não sou especialista no tema, mas mesmo quem é não sabe o que vem pela frente em alguns anos. Em entrevista ao sempre brilhante podcast de Ezra Klein, no New York Times, Helen Toner, diretora do Centro de Segurança para Tecnologias Emergentes, da Universidade de Georgetown, afirma que os agentes de “IA já estão fora de controle”. Isso é o presente, não o futuro. Em alguns experimentos em empresas, como a OpenAI e a Anthropic, “usam estratégias não desejadas que não queremos para resolver problemas que, em teoria, queremos que sejam resolvidos”. O problema é que esses “meios” para atingir os “fins” podem ser extremamente prejudiciais para a Humanidade. Imaginem como será em algumas décadas. Obviamente, é uma ferramenta que pode contribuir bastante em uma série de profissões, como a medicina. Mas o pavor vem mais de, por mais que leia sobre o assunto, não conseguir saber até que ponto chegarão os agentes de IA — e se há algum limite para eles. Agirão apenas de forma positiva, agora que estão fora de controle? Quando chegará o momento em que não saberemos mais o que é realidade ou ficção nos vídeos gerados por IA? E o uso de inteligência artificial em armamentos, que já ocorre? Tem ainda o impacto das crianças, como meus filhos, que já crescem neste universo em que agentes escrevem textos, fazem vídeos. Como será a criatividade deles? Em relação aos data centers, tanto candidatos democratas quanto republicanos já começam se opor às construções nos EUA, em uma guinada aguda e rápida nos últimos meses. Cada vez mais, tenham certeza, eleitores com fobia de IA e asco de figuras como Sam Altman, da OpenAI, Elon Musk e Mark Zuckerberg, entre outros, adotarão uma postura maior de pressão sobre os políticos. Podem aparecer movimentos de defesa de “humanos” contra os agentes. Pode parecer distópico hoje, mas não será em poucos anos. Talvez seja inútil, já que as gigantes de tecnologia possuem trilhões de dólares para este combate, além de poderem usar os próprios agentes a seu favor. Já vimos, aqui nos EUA, como essas empresas evitam regulamentações nas redes sociais — ao menos, até o fim do julgamento da Meta na Califórnia, acusada por 29 estados de viciar crianças e adolescentes no Facebook e no Instagram. Deixo aberto aqui o espaço para alguém mais otimista sobre IA tentar me convencer de que meu pavor não faz sentido. Eu me comprometo a publicar as respostas na minha newsletter diária no Globo.