Com o início de um novo episódio de El Niño, potencialmente recordista, pesquisadores debatem intensamente se as mudanças climáticas estão impulsionando a intensidade do fenômeno 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Onda de calor — Foto: AFP O próximo episódio de El Niño pode ser o mais intenso desde o início dos registros, em 1950, e contribuir para que 2027 se torne o ano mais quente já registrado. Previsões do Met Office, o serviço meteorológico britânico, e de outros especialistas apontam para um forte aquecimento das águas do Pacífico, com reflexos nas temperaturas globais, nos padrões de chuva e na ocorrência de eventos extremos. — Eu nunca vi um fenômeno como esse se desenhar em nossas previsões — afirmou à BBC Adam Scaife, responsável pelas previsões de longo prazo do Met Office. Os modelos indicam a possibilidade de um aumento superior a 3°C na temperatura da superfície do mar na região de referência do Pacífico. Dados reunidos pelo painel Climate Brink, com base em informações da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos, a NOAA, mostram que a temperatura da superfície do mar na região Niño 3.4 já está 2,6°C acima da média dos últimos 30 anos. As previsões apontam para a possibilidade de um pico de 3,9°C em novembro, acima dos cerca de 3°C registrados em 2015, durante o episódio que até agora detinha o recorde de intensidade. A Noaa calcula em 69% a probabilidade de que o próximo El Niño seja o mais intenso desde 1950. A estimativa utiliza uma nova metodologia de acompanhamento chamada Relative Oceanic Niño Index ou Índice Relativo de Niño Oceânico (Roni). Como o El Niño se desenvolve El Niño é um fenômeno natural e temporário que, em geral, ocorre em intervalos de dois a sete anos. Ele se caracteriza pelo aquecimento anormal das águas superficiais das regiões central e leste do Pacífico equatorial. O processo começa quando os ventos de leste, que normalmente mantêm as águas quentes concentradas no oeste do Pacífico, enfraquecem. Com isso, a água quente se desloca em direção ao leste e chega à superfície. O aquecimento altera a circulação atmosférica e modifica os padrões de chuva e temperatura em diferentes regiões. Como consequência, algumas áreas podem registrar mais calor e seca, enquanto outras podem ter mais chuva e temperaturas mais baixas. O fenômeno também pode favorecer a ocorrência de eventos extremos. Segundo Scaife, os efeitos mais fortes são esperados principalmente nas regiões tropicais. O fenômeno poderá provocar secas severas na América do Sul e no oeste do Pacífico, embora seus impactos também possam atingir áreas localizadas muito além dessas regiões. O Met Office já identifica sinais de uma possível intensificação das chuvas e das tempestades a partir de novembro no Reino Unido, com impactos que também podem alcançar o noroeste da Europa. Michelle L'Heureux, do Centro de Previsão Climática da NOAA, alerta, porém, que episódios mais fortes aumentam a possibilidade de determinadas consequências, mas não garantem que elas ocorrerão em todas as regiões. Alguns impactos já estão sendo observados. Na Indonésia, um período prolongado e intenso de seca contribuiu para a propagação de incêndios que queimaram centenas de milhares de hectares. Por que 2027 pode bater recorde de temperatura O efeito do El Niño sobre a temperatura global costuma ser mais intenso no ano seguinte ao desenvolvimento do fenômeno. Por isso, os climatologistas Zeke Hausfather e Andrew Dessler estimam que o próximo episódio poderá acrescentar aproximadamente 0,3°C à temperatura média global em 2027. Dessler, professor da Universidade Texas A&M, compara o fenômeno a uma antecipação do futuro climático. Segundo seus cálculos, um aumento dessa magnitude nas temperaturas médias globais só seria naturalmente esperado por volta de 2037. O pesquisador ressalta, porém, que o aquecimento adicional provocado pelo fenômeno estará concentrado principalmente no Pacífico equatorial. Mike McPhaden, pesquisador do Laboratório Ambiental Marinho do Pacífico da NOAA, considera possível que a temperatura média global em 2027 fique 1,7°C acima dos níveis pré-industriais. El Niño ocorre em planeta já aquecido Embora seja um fenômeno natural, o El Niño ocorre em um planeta que já está mais quente em razão das emissões humanas de gases de efeito estufa. Os cientistas concordam que o aquecimento global pode ampliar seus efeitos. Uma atmosfera mais quente contém mais umidade, o que pode intensificar as chuvas nas regiões onde o El Niño já favorece precipitações. Nas áreas em que o fenômeno está associado a secas, o aquecimento pode contribuir para que o solo fique ainda mais seco. Ainda não existe consenso científico sobre se o aquecimento global também torna o próprio El Niño mais intenso. Há, no entanto, indícios nessa direção. Segundo McPhaden, o aquecimento dos mares tropicais pode tornar mais sensíveis os ventos que alimentam o fenômeno e, por meio da convecção atmosférica, acelerar seu desenvolvimento. Com base em indicadores naturais de climas passados, registros meteorológicos que remontam ao século XIX e modelos climáticos, McPhaden estima que a amplitude dos episódios de El Niño tenha aumentado cerca de 10% ao longo do último século. A possibilidade de um El Niño excepcionalmente intenso não significa que todas as regiões do planeta enfrentarão condições climáticas extremas. Os efeitos variam de acordo com a localização e as características de cada episódio. Ainda assim, a combinação entre um fenômeno potencialmente excepcional e um planeta já aquecido pelo efeito estufa aumenta o risco de temperaturas recordes e eventos extremos em diferentes partes do mundo. Se as projeções atuais se confirmarem, 2027 poderá estabelecer um novo recorde de temperatura global. Nesse cenário, o El Niño também poderá antecipar condições climáticas que, sem a influência de um episódio excepcional, só seriam esperadas mais de uma década depois.