Um relatório da Berkeley Earth, organização independente que monitora a temperatura do planeta (sediada na Califórnia), mostra que o novo El Niño está se fortalecendo num ritmo muito acima do normal.PUBLICIDADEO El Niño acontece quando as águas do Pacífico tropical ficam anormalmente quentes. Isso muda os padrões de vento e chuva ao redor do globo, geralmente deixando a temperatura média da Terra mais alta nos meses seguintes.Segundo os cientistas da Berkeley Earth, esse El Niño começou oficialmente em junho de 2026, mas avançou de forma muito rápida desde então. Já em meados de julho, a temperatura na região central do Pacífico havia atingido níveis considerados "fortes a muito fortes".Medições diárias via satélite do Pacífico Central revelam que este El Niño vem registrando um aquecimento recorde para esta época do ano (sem ajuste para o aquecimento global dos oceanos) e já ultrapassou o limite de 2,0 °C que classicamente denota um evento muito forte ou 'super'. Ajustado para o aquecimento global dos oceanos, a progressão deste El Nino ainda está perto do topo do intervalo histórico, mas seria mais similar a outros supereventos de El Niño recentes.As previsões dos principais modelos climáticos indicam que este El Niño pode chegar a um pico de aquecimento de até +3,6ºC, cerca de 0,8°C acima do recorde anterior, registrado em 2015-2016 -- que, até hoje, era o mais forte já medido. Cerca de 91% das simulações analisadas (feitas por 14 modelos diferentes) preveem que o recorde de 2015-2016 será superado. Segundo Zeke Hausfather, cientista climático da Berkeley Earth, "[o El Niño recorde] não é de forma alguma algo garantido de acontecer, mas as chances estão crescendo de mês a mês".PublicidadeOs cientistas estimam que o evento deve atingir seu auge entre outubro de 2026 e janeiro de 2027, provavelmente por volta de novembro ou dezembro.O El Niño costuma empurrar a temperatura média do planeta para cima, mas com atraso: os efeitos mais fortes tendem a aparecer meses depois do pico registrado no oceano. Por isso, os cientistas explicam que grande parte do impacto desse fenômeno provavelmente será sentido não em 2026, mas em 2027, que pode se tornar forte candidato a ano mais quente já registrado.Mesmo sem o El Niño ainda no seu auge, junho de 2026 já foi o segundo junho mais quente da história, atrás apenas de junho de 2024. Os oceanos, aliás, tiveram o junho mais quente já registrado. Pelo menos 24 países bateram recordes de temperatura média para o mês, incluindo Canadá, França, Indonésia e Nova Zelândia. Na Europa, uma onda de calor no fim de junho bateu recordes históricos de temperatura em várias cidades - a França, onde apenas 27% das residências têm ar-condicionado, teve cerca de 5.700 mortes associadas ao calor extremo.Para 2026 como um todo, a Berkeley Earth estima que há cerca de 12% de chance de este ano se tornar o mais quente já registrado, com 67% de chance de terminar em segundo lugar (atrás de 2023 ou 2024). Já a probabilidade de a média anual ultrapassar o limite simbólico do Acordo de Paris de 1,5°C acima dos níveis pré-industriais é estimada em cerca de 72%. Hausfather acrescenta que uma temperatura 1,7ºC acima do nível pré-industrial em 2027 "não está fora do intervalo das possibilidades".Fernando Dantas é colunista do Broadcast e escreve às terças, quartas e sextas-feiras (fojdantas@gmail.com)PublicidadeEsta coluna foi publicada pelo Broadcast em 29/7/2026, quarta-feira.