Carro voador da Eve faz voo experimentalConfira imagens do teste do protótipo na unidade da empresa da Embraer em Gavião Peixoto (SP). Crédito: Eve Air Mobility/DivulgaçãoGerando resumoO uso do espaço aéreo para deslocamentos urbanos vai ganhar em breve nova densidade. Pelas mãos da Eve Air Mobility, empresa criada pela Embraer em 2020, cidades como São Paulo terão táxis aéreos que lembram o desenho dos Jetsons e que permitirão escalar a mobilidade “dos céus” muito além da frota de helicópteros. PUBLICIDADEPelo andar dos testes, a companhia não tem mais dúvidas de que o novo veículo é viável, tanto como produto de engenharia, como modelo de negócio, e começa a colocar em andamento um plano de fabricação da aeronave para dar conta da intenção de pedidos que já chega a US$ 13,5 bilhões.A força da Embraer foi um diferencial para diminuir o risco de a empresa evitar o destino de concorrentes pelo mundo, que acabaram sem recursos à espera de dois caminhos incertos até a chegada dos táxis voadores ao mercado: a segurança do produto para voos e a certificação. Com os engenheiros e recursos da empresa-mãe, mais o apoio do BNDES, a Eve diz ter caixa para aguardar a certificação “sem pressa”, processo previsto para 2028, e vislumbra que o negócio comece a sair do vermelho até três anos depois dessa data.PublicidadeA aeronave elétrica de decolagem e pouso vertical (eVTOL), conhecida como “táxi voador”, lembra um grande drone. No modelo da Eve, o voo se dá de duas maneiras: como um helicóptero na decolagem, verticalmente, e depois como um avião, horizontalmente, quando nos céus. Uma das vantagens é que o custo chegará a ser 25% mais baixo do que o de um helicóptero e, por ser elétrico, evitará ruídos que hoje limitam o concorrente. Cada modelo custará em torno de US$ 5 milhões.Leia tambémEve, da Embraer, realiza primeiro voo de transição de seu ‘carro voador’Eve Air, da Embraer, assina carta de intenções com Moov para fornecer até 30 ‘carros voadores’Uma unidade de apoio fabril da Embraer, localizada em Taubaté, no interior de São Paulo, deve começar a dar lugar, nos próximos meses, à primeira linha de produção do veículo. O projeto executivo da unidade, que receberá investimentos de US$ 88 milhões, já está pronto e agora está em fase de validação, segundo o CEO da empresa, o francês naturalizado brasileiro, Johann Bordais.O executivo, que recebeu o Estadão/Broadcast no escritório da empresa em São Paulo, explica que o projeto prevê, inicialmente, a construção de um módulo de produção com capacidade para até 120 aeronaves ao ano. O local poderá abrigar quatro módulos ao todo, para a produção anual de até 480 aeronaves. A empresa não tem previsão, no entanto, de quando deve alcançar essa marca. “Não sabemos o quão rápido vamos chegar nesse patamar. Vai depender da demanda”, afirma.PublicidadeO cronograma da empresa prevê o primeiro voo com piloto humano para o segundo semestre de 2027 e certificação completa da aeronave pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) e pela Federal Aviation Administration (FAA) em 2028. Certificada, a primeira entrega deverá ser feita no prazo de uma semana para a empresa brasileira Revo, que tem um pedido firme para a compra de até 50 unidades, além de serviços pós-venda, e será pioneira no uso da nova aeronave.CEO da Eve, Johann Bordais Foto: Werther Santana/EstadãoA Eve já tem atualmente uma carteira de aproximadamente 2,7 mil eVTOLs, distribuída entre 28 clientes de dez países, com valor potencial estimado em cerca de US$ 500 milhões. Considerando o livro de pré-vendas, o valor sobe para US$ 13,5 bilhões. A previsão é alcançar o breakeven (ponto de equilíbrio) do negócio quando o nível de produção chegar a 90 a 100 aeronaves por ano, o que Bordais estima acontecer no prazo de dois a três anos a partir da certificação.Caixa suficiente até a certificaçãoA Eve tem atualmente uma queima de caixa anual entre US$ 225 milhões e US$ 275 milhões, mas conta com liquidez de US$ 531 milhões. “Temos caixa suficiente para chegar à certificação. A disciplina de gastos é uma prioridade”, afirmou, descartando novas captações no mercado, pelo menos no curto prazo.PublicidadeO executivo lembra que a empresa teve várias fontes de financiamento. A primeira é a própria Embraer, que detém 72% da empresa. Outra veio do BNDES, com pouco mais de R$ 1 bilhão. E a terceira, por conta da abertura de capital da empresa no exterior, em 2022. A empresa é listada na Bolsa de Nova York, com um valor de mercado de cerca de US$ 900 milhões (cerca de R$ 4,6 bilhões) — como comparação, a Embraer hoje vale mais de R$ 70 bilhões na Bolsa.Ele lembra que, a partir da certificação, a empresa entra em uma nova fase, passando a ser financiada pela receita de venda das aeronaves. O executivo destaca que a empresa revê o processo constantemente em busca de oportunidades adicionais de sinergias tanto com a Embraer quanto com os 22 fornecedores atuais. Entre eles está a empresa britânica de defesa aeroespacial BAE Systems, para baterias; a gigante multinacional japonesa, fabricante de motores elétricos, Nidec Aerospace; e a americana Beta Technologies, que fabrica sistemas de propulsão.A essa altura do campeonato, Bordais rejeita a hipótese de inviabilidade do projeto e disse que a discussão principal deixou de ser “se vai dar certo” para se concentrar em “quando e quanto”, condicionada à escala do ecossistema e da infraestrutura.PublicidadeTáxi voador da Eve, da Embraer Foto: EmbraerPUBLICIDADE“O eVTOl nasceu da necessidade do cliente. E a Eve tem o mesmo DNA da Embraer, que é uma referência mundial na área de aeronáutica, com know-how de 57 anos, completados nesta semana”, diz. Outro ponto, destaca ele, é o pós-venda, que contará com a estrutura que a Embraer já tem no mundo todo. “Nossos contratos já incluem a venda, garantia do fornecedor de serviço, de atendimento pelo resto da vida da aeronave. Isso aí traz muita confiança para nossos clientes”, avalia.Atualmente, a empresa conta com 176 funcionários próprios e outras 800 pessoas da Embraer dedicadas 100% ao desenvolvimento do eVTOL, em contrato de prestação de serviços. Nesse grupo estão profissionais de engenharia, suprimentos, finanças, compliance e pós-venda. Isso dá uma força e flexibilidade para a companhia, que coloca um diferencial a outros concorrentes.Mercado de US$ 280 bilhõesA Eve prevê que a frota global de “táxis voadores” poderá atingir 30 mil unidades até 2045, necessária para atender à estimativa de 3 bilhões de passageiros transportados nesse período. Segundo a Eve, isso deverá gerar uma receita potencial de US$ 280 bilhões.PublicidadeOs números levam em conta tendências de crescimento e demanda no segmento de mobilidade aérea urbana, além de analisar fatores sociais, regionais e aplicações que impulsionam esse mercado em desenvolvimento, conforme um estudo de Perspectivas de Mercado Global de eVTOLs publicado pela companhia. A análise considerou dados de 1.800 cidades presentes no banco World Urbanization Prospects das Nações Unidas, informações de cerca de 1 mil aeroportos e mais de 27 mil helicópteros civis atualmente em operação.A chegada da Eve ao mercado também deve ter um impacto positivo para a Embraer. Em relatório divulgado na última semana, analistas do Citi destacaram o avanço da companhia no processo de regulação e lembraram que “pouco ou nada” do valor da Eve está refletido na avaliação de mercado da Embraer. Os analistas também citaram concorrentes da Eve que hoje estão mais bem avaliadas na Bolsa, como as americanas Joby Aviantion, com valor de mercado de US$ 7,3 bilhões, e Achr (cerca de US$ 4 bilhões). Ambas são listadas na Bolsa de Nova York.Na última teleconferência de resultados, o presidente da Embraer, Francisco Gomes Neto, destacou que a Eve terá um papel fundamental nos planos de longo prazo do grupo. “Estamos muito confiantes com relação à contribuição da Eve com o crescimento da Embraer, principalmente em 2029 e 2030, para complementar a nossa estratégia de crescimento no início da próxima década”, disse. O CEO afirmou que a companhia pretende acompanhar a evolução da demanda antes de decidir sobre eventuais novas unidades de produção do eVTOL.Em fase de testes, táxi voador acumula 66 voos e já alcança 55 km/h de velocidade no arComo parte da fase de testes do táxi aéreo, a Eve opera atualmente com um protótipo de engenharia em Gavião Peixoto (SP), que já acumula 66 voos realizados, em um total de 2 horas e 46 minutos. O primeiro ocorreu em dezembro, com um teste de decolagem vertical (hover) de um minuto, pilotado remotamente por uma equipe de pilotos de teste da Embraer.Recentemente, o processo entrou na fase de transição — quando, além dos motores de sustentação vertical (lifters), passa a usar o motor de cauda (pusher) para avançar e ganhar velocidade. A meta é concluir até o fim de 2026 a transição completa, em que a aeronave passa a voar como um avião, sustentada pela asa, e volta a pousar verticalmente, como um helicóptero. Hoje, a velocidade máxima atingida nos testes é de 55 km/h, com expectativa de chegar a 100 km/h já nas próximas semanas.O próximo passo é a produção de seis aeronaves de conformidade (protótipos de certificação), que serão fabricadas pela Embraer e montadas pela Eve em Gavião Peixoto ao longo de 2027. O modelo final deverá levar quatro passageiros e um piloto e contará com um bagageiro de 500 litros. O alcance máximo estimado é de 85 a 90 quilômetros, embora as rotas típicas devam ficar em torno de 30 quilômetros, segundo o CEO da Eve, Johann Bordais.Publicidade“Uma vantagem do nosso veículo é que ele decola e aterrissa como um helicóptero e voa em cruzeiro como um avião. Ele se encaixa em uma nova categoria que as autoridades chamam de powerlift”, diz ele. A previsão é de que a nova aeronave tenha custo operacional até 25% menor do que um helicóptero.Apesar de já serem conhecidos como carros voadores, o CEO da Eve rejeita a definição. Para o executivo, táxi voador define melhor o veículo, já que ele será operado por um “motorista” com treinamento específico, como outras aeronaves. Não será, portanto, um veículo privado que o consumidor poderá comprar em uma loja. Apenas empresas vão operar a aeronave.Parceria com empresas de energia e fornecedores Em paralelo ao processo de certificação das aeronaves junto aos órgãos reguladores, a Eve trabalha em conjunto com empresas de energia e fornecedores de equipamentos e serviços para o desenho da infraestrutura de abastecimento das aeronaves, que serão elétricas.PublicidadeSegundo Bordais, os pontos de carregamento serão semelhantes aos postos de eletromobilidade existentes hoje para os carros elétricos. “Temos várias empresas juntas em um tipo de sandbox fazendo esse trabalho agora, pensando no modelo de eletrificação de helipontos ou vertipontos”, afirma.Vale ler tambémBancos privados estudam entrar em financiamentos no Minha Casa, Minha VidaA despesa de seguro-desemprego deveria ter caído, mas saltou 188% em termos reais entre 2003 e 2014Sicredi supera R$ 500 bi em ativos e se consolida entre maiores bancos