A violência política de gênero não é um mero efeito colateral da disputa eleitoral, é a estratégia deliberada para impedir que quem vive na pele a opressão tenha poder para desmontá-la. Ter mulheres no Legislativo e no Executivo não é uma pauta identitária vazia, é a diferença entre leis que protegem as mulheres e leis que as criminalizam, entre orçamentos que financiam creches e políticas de combate ao feminicídio e aqueles que os ignoram.
Num momento em que os direitos reprodutivos são cerceados, a licença-maternidade é desidratada e o feminicídio bate recordes históricos, ocupar esses cargos é um ato de soberania e luta sobre a própria vida. Manter mulheres, especialmente indígenas, negras e periféricas, fora das mesas de negociação não é um acaso do jogo político. É delineado para que os retrocessos avancem sem freio, porque, como Marina e Neidinha comprovam, o sistema prefere agredir e anular a voz feminina a ter que encará-la frente a frente no poder.
Os casos de Neidinha Suruí e Marina Silva não são exceções. São o diagnóstico de um sistema político que trata a mulher como corpo estranho. Uma foi anulada pela burocracia partidária, a outra, agarrada fisicamente em plena via pública. É a mesma engrenagem: uma violência institucional, outra explícita, mas ambas com o mesmo objetivo de silenciar, constranger e excluir.






