Há dias em que acordamos e o mundo parece ter regredido décadas. Dias em que a violência contra a terra e a violência contra as mulheres se revelam como duas faces da mesma moeda, a moeda de um sistema que nos quer caladas, submissas e destituídas.

Nesta semana, fui atravessada por duas notícias que, à primeira vista, não têm nada a ver uma com a outra. A primeira: o Senado Federal acabou de aprovar, em votação relâmpago e sem passar por comissões temáticas, o projeto que reduz em quase 486 mil hectares da Floresta Nacional do Jamanxim no Pará. A segunda: no Afeganistão, o Talibã aprofundou seu regime de terror contra as mulheres, com execuções públicas, proibições de estudo e trabalho, e um sistema que a ONU já classifica como apartheid de gênero.

Pode parecer que nada conecta a Amazônia ao Afeganistão. Mas, como mulher, eu vejo a conexão com

clareza dolorosa: em ambos os cenários, corpos, da terra e de mulheres, são tratados como propriedade a ser usurpada, reduzida, explorada.

A Floresta Nacional do Jamanxim foi criada em 2006 como compensação ambiental pelo asfaltamento da BR-163. Desde então, sofre com problemas fundiários e especulação imobiliária por grileiros. É a maior flona do Brasil e a terceira unidade de conservação da Amazônia mais desmatada.