Este conteúdo faz parte da newsletter Meus Filhos, Minhas Regras?, que responde a perguntas de pais, mães e cuidadores todas as semanas. Inscreva-se gratuitamente para receber toda quarta-feira no seu e-mail. A pergunta ganhou urgência entre pais e responsáveis após a suspensão temporária da transmissão ao vivo da plataforma no Brasil, determinada depois de um caso de suicídio. Para a delegada Lisandréa Salvariego, coordenadora do Núcleo de Observação e Análise Digital (Noad) da Polícia Civil de São Paulo, o problema vai muito além do contato com estranhos: crianças e adolescentes podem ser expostos a violência extrema, pornografia, golpes, discursos de ódio e aliciadores que identificam rapidamente usuários em situação de vulnerabilidade. Por isso, Salvariego defende que ferramentas de controle parental não bastam: é preciso acompanhar o que os filhos fazem no ambiente digital e, sobretudo, reconstruir o diálogo dentro de casa. Palavra da especialista 👩🏫👨🏫 Lisandréa Salvariego, delegada da Polícia Civil de São Paulo e coordenadora do Núcleo de Observação e Análise Digital (Noad) Por mais que tentemos combater os efeitos da tecnologia com a própria tecnologia, por meio da instalação de controles parentais adequados, isso, por si só, não é suficiente. É preciso que pais e mães estejam atentos aos relatórios gerados por essas ferramentas e acompanhem efetivamente o que os filhos estão acessando e consumindo no ambiente digital. O que precisamos compreender é que somos uma geração de pais analógica — ou, no máximo, parcialmente analógica — lidando com uma geração que já nasceu digital. Aquilo que para nós pode parecer complexo é, para eles, simples e intuitivo. Nesse contexto, acabamos expondo nossos filhos a uma série de riscos que, muitas vezes, eles próprios sequer reconhecem como ameaças, justamente porque não receberam um letramento digital adequado. Costumo fazer uma comparação com algo muito simples: quando uma criança vai atravessar uma rua, alguém segura sua mão e ensina a olhar para um lado, depois para o outro, antes de atravessar. Não fizemos esse mesmo processo no ambiente digital. Não fomos introduzindo as telas e a tecnologia de maneira gradual, como fazemos, por exemplo, com a introdução alimentar. As crianças foram inseridas nesse universo e passaram a ter contato com ele, muitas vezes, sem a orientação necessária. Como consequência, ficam expostas a uma variedade de riscos, que vão desde golpes até crimes efetivos e de extrema gravidade. Por isso, é importante deixar claro que não podemos deixar nossos filhos online sem supervisão, sem qualquer tipo de controle e, sobretudo, sem diálogo. Há ainda a questão do vício digital. Costumo dizer que, infelizmente, o algoritmo conhece melhor os filhos das pessoas do que os próprios pais. E isso é muito preocupante. Temos percebido que crianças e adolescentes estão sendo expostos e alimentados por conteúdos inadequados para sua idade. Sem sombra de dúvida, estamos diante de uma geração que vem sendo exposta, de maneira cada vez mais intensa, à violência extrema e à pornografia. Isso fica muito claro durante as investigações. Sou delegada de polícia há 19 anos e costumo dizer que já trabalhei em setores muito sensíveis da Polícia Civil. Fui titular da Delegacia de Defesa da Mulher durante seis anos, trabalhei na Delegacia de Proteção à Pessoa, no Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), além de ter atuado em plantões. No entanto, nunca vi nada parecido com o que tenho encontrado em relação aos crimes virtuais. Celular para crianças: quando devo dar? É importante destacar que o crime virtual que vitima crianças e adolescentes — tenho acompanhado casos de meninas de 6 anos até adolescentes de 14, 15 anos — é um dos mais cruéis e, ao mesmo tempo, mais democráticos. Ele não escolhe família, classe social ou nível cultural. Basta que a criança tenha acesso irrestrito, ilimitado e sem supervisão às telas e apresente alguma vulnerabilidade para que o predador ou agressor online consiga identificá-la em poucos minutos de conversa. É evidente que precisamos combater a tecnologia com tecnologia, mas é imprescindível que as famílias também se reconectem. Hoje, vemos famílias estruturadas, com pai e mãe presentes — ou diferentes configurações familiares, como duas mães ou dois pais —, mas que, muitas vezes, não conversam entre si nem estabelecem uma relação de proximidade com os filhos. Não olham nos olhos, não perguntam como foi o dia, não sabem o que está acontecendo na vida daquela criança. E é muito triste, porque é justamente nesse espaço de ausência, nesse vazio de comunicação e de vínculo, que os crimes estão acontecendo. A misoginia e a violência, em si, são preditores de violência. Elas estão envolvidas em um discurso de ódio. Todos os crimes digitais que vitimam crianças e adolescentes começam, de alguma forma, nesse discurso: na violência extrema e no consumo desse tipo de conteúdo. E a misoginia faz parte desse processo. É importante alertar os pais de que isso não começa de maneira explícita. Ninguém começa dizendo: “Eu odeio mulheres”. O processo se inicia com conteúdos muito mais sutis. Um exemplo é o culto ao corpo masculino. O adolescente começa consumindo conteúdos sobre academia, alimentação, exercícios. Aos poucos, migra para outro tipo de conteúdo, que afirma, por exemplo, que as mulheres jamais serão capazes de alcançar aquele padrão físico. E esse discurso vai escalando. É preciso também se colocar no lugar de um adolescente de 13 anos. Ele pode ser rejeitado por uma menina, que não quer namorá-lo ou sequer ter contato com ele. Nesse momento, ele pode encontrar nas redes sociais um sentimento de pertencimento, à medida que passa a ouvir que a culpa não é dele, mas da menina. Ele é apresentado como um ser humano perfeito, sem defeitos, maravilhoso; a menina, por outro lado, é responsabilizada por não ter sido capaz de reconhecer essas qualidades. NO RADAR 👀 O que fazer como mãe e pai? - Por Regina Nicolosi, psicóloga, fonoaudióloga e doutora em Comunicação Não se trata de criar pânico moral ou simplesmente proibir o uso da internet, mas de exercer a presença. Coloque limite de tempo de tela: lembrando que, de acordo com a OMS, mais de 3 horas de tela já configura dependência. Monitore o invisível: esteja atento às mudanças de humor, ao isolamento excessivo e ao vocabulário do seu filho. Fortaleça a vida offline: quanto mais laços reais e de pertencimento o adolescente tiver no mundo físico (esportes, família, amigos da escola), menor será a dependência da validação virtual em servidores anônimos.Conversa aberta sobre limites morais: o cérebro digital precisa ser educado. Relembre que o tom, o respeito e a responsabilidade com o outro na tela devem ser exatamente os mesmos do mundo presencial. Procurar ajuda profissional de um psicólogo pode ser uma ótima iniciativa quando o medo ou a insegurança chegar. Você, mãe ou pai, não precisa passar por nada disso sozinho. Busque apoio profissional.
‘O algoritmo conhece melhor os filhos do que os próprios pais’, diz delegada sobre riscos digitais em plataformas como o Discord
Para Lisandréa Salvariego, coordenadora do Núcleo de Observação e Análise Digital da Polícia Civil de São Paulo, o problema vai muito além do contato com estranhos: crianças e adolescentes podem ser expostos a violência extrema, pornografia, golpes, discursos de ódio e aliciadores









