Este conteúdo faz parte da newsletter Meus Filhos, Minhas Regras?, que responde a perguntas de pais, mães e cuidadores todas as semanas. Inscreva-se gratuitamente para receber toda quarta-feira no seu e-mail. A suspensão temporária da transmissão ao vivo do Discord no Brasil, determinada na semana passada após um caso de suicídio, reacendeu o debate sobre os riscos da plataforma para crianças e adolescentes. Enquanto muitos pais ainda associam o Discord a jogos online, o caso que veio à tona mostrou que, por trás das telas, há ambientes privados onde conteúdos violentos e situações de risco podem passar longe dos olhos dos adultos. Conversei com três especialistas de áreas diferentes — uma psicóloga, uma pesquisadora e uma delegada — para entender quais são, de fato, os riscos do Discord para crianças e adolescentes e o que os pais podem fazer para protegê-los. Palavra das especialistas 👩🏫👨🏫 Regina Nicolosi Psicóloga, fonoaudióloga e doutora em Comunicação. Autora do livro 'Imersão digital e suicídio: a mortificação do corpo na sociedade midiática' Quando pais e mães chegam ao consultório aflitos perguntando por que uma plataforma como o Discord se tornou um ambiente tão hostil e amedrontador para os adolescentes, a minha primeira resposta é: o problema raramente é apenas a tecnologia em si, mas o modo como o cérebro em desenvolvimento interage com os mecanismos daquela rede. E como e por quanto tempo os jovens, ou mesmo nós, ficamos presos às telas. O Discord nasceu para a comunidade gamer, com servidores focados em áudio, chats de texto e chamadas de vídeo. No entanto, para além dos jogos, ele criou um ecossistema digital que reúne a tempestade perfeita para o psiquismo adolescente. Para entender o perigo, precisamos olhar para a psicologia do comportamento e o desenvolvimento neurológico nessa fase da vida. 1. A busca pelo vínculo fraterno e a necessidade visceral de pertencimento Na adolescência, ocorre o deslocamento do eixo de vinculação: o jovem migra do núcleo familiar para o grupo de pares. A busca pelo vínculo fraterno e a necessidade de pertencimento tornam-se forças psíquicas avassaladoras. Para ser aceito pelo grupo, o adolescente é capaz de flexibilizar limites morais e assumir riscos que sozinho jamais assumiria. As redes sociais funcionam como um "quarto de porta fechada global": pequenos grupos se fecham em servidores onde a validação dos pares se torna a única moeda de valor social. 2. O efeito de desinibição online e a sensação de impunidade Quando o ambiente reduz a percepção de consequência, a avaliação de risco do cérebro falha. No meio digital, temos o chamado Efeito de Desinibição Online (Online Disinhibition Effect). Pela possibilidade de usar pseudônimos, avatares e a ilusão de “não ser descoberto”, o adolescente experimenta uma falsa sensação de impunidade . O cérebro adolescente, cujo córtex pré-frontal (responsável pelo controle de impulsos e previsão de consequências) ainda está em formação, interpreta o ambiente anônimo como um espaço sem regras reais. Sem a presença física do outro e sem o olhar regulador dos adultos, as travas inibitórias simplesmente desaparecem. 3. A dessensibilização sistemática e a perda gradual da empatia Um dos fenômenos mais graves que observamos nesses ambientes é a dessensibilização. É uma técnica usada para expor alguém gradualmente a um medo até que ele pare de reagir. Nas redes sociais, ocorre o inverso de forma nociva: a exposição contínua de conteúdos nem sempre saudáveis ou recomendáveis. Em casos mais graves, com repetição de piadas de ódio, violência verbal, automutilação e conteúdos ilícitos, o cérebro normaliza o absurdo. O que chocava na primeira semana torna-se banal no primeiro mês. A interação é intermediada por telas, textos rápidos e memes, ocorre a desumanização do interlocutor. Sem o feedback emocional da face do outro, o circuito da empatia “desliga”. O sofrimento do colega do outro lado da tela vira apenas um conteúdo de entretenimento para o grupo. 4. A perda de fronteiras na imersão digital Em estudos sobre imersão digital e suicídio, percebe-se como o isolamento no mundo físico combinado à hiperconexão no ambiente virtual cria uma bolha cognitiva. Quando um adolescente passa horas dentro de servidores radicais, a realidade dele passa a ser aquela. A influência do grupo torna-se absoluta. Sem repertório emocional para filtrar o que recebe, o jovem passa a sofrer uma erosão dos seus valores base, ficando vulnerável a dinâmicas de chantagem, desafios perigosos e coação psicológica. Evânia Reichert Autora de 'Adolescência, a Idade da Potência' (Summus Editorial), em lançamento no Brasil. Escritora, analista psicocorporal, professora e pesquisadora sobre infâncias e adolescências É evidente que a funcionalidade de transmissão ao vivo em sala fechada, do Discord ou de qualquer outra plataforma, acabou se tornando extremamente perigosa para crianças e adolescentes, mas também para pessoas com vulnerabilidade psíquica. Até porque esse público não deveria nem mesmo ter acesso livre às redes sociais ou a qualquer plataforma durante a infância e a adolescência inicial, devido aos riscos de adição digital e acesso a conteúdos perversos. Já sabemos que desde 2012 - quando se iniciou a interatividade nas redes sociais - os números de transtornos de ansiedade e de depressão das novas gerações escalaram abruptamente, fruto da exposição precoce à hiperconectividade virtual, associada à redução de conexão humana. Na infância e na adolescência o cérebro ainda está em formação, época em que o desenvolvimento pode ser gravemente afetado pelo acesso aditivo às telas, às redes sociais e aos conteúdos violentos que circulam nas plataformas. O pico de dopamina que aparece no organismo de adolescentes - devido ao câmbio neuro-hormonal da idade - torna a adolescência um momento suscetível à dependência digital, já que as telas, a interatividade, os mecanismos de autoplay e de rolagem infinita são altamente dopaminérgicos e, portanto, viciantes. Somado a isso, está o nível de crueldade de certos ambientes virtuais que ainda não estão suficientemente blindados ao público infantil e adolescente. Tanto que crimes sórdidos têm atingido crianças, adolescentes e jovens, muitas vezes praticados por menores de idade, até mesmo por colegas de escola, incitados ou praticados no ambiente digital. Por tudo isso, precisamos da implementação urgente dos mecanismos de regulação digital contra o crime, com aferição efetiva de idade, que evite que crianças e adolescentes transitem precocemente pelas plataformas e se tornem vítimas e/ou criminosos. Se o espaço de transmissão ao vivo - tal como são as salas privadas e criptografadas do Discord - ainda não tem mecanismos suficientes para proteger crianças e adolescentes da incitação à autolesão, aos estupros coletivos e a suicídios ao vivo, é porque ainda não está habilitado para receber adolescentes. Muitas destas plataformas têm se tornado uma terra sem leis, uma espécie de coliseu de tortura e morte, por onde crianças e adolescentes circulam ao lado de extremistas, abusadores e assassinos. O importante Eca Digital (Estatuto da Criança e Adolescente Digital), implantado em março deste ano, recém está começando a operar e a fiscalizar, em busca de uma proteção digital mais efetiva do mundo infanto-juvenil. A suspensão temporária de apenas uma das ferramentas do Discord (a transmissão ao vivo), feita pela Agência Nacional de Dados do Brasil, marca uma fronteira para todas as plataformas: cabe a elas criar mecanismos eficazes de proteção às crianças e adolescentes, sob pena de serem multadas e bloqueadas. As salas do Discord, por exemplo, são espaços privadíssimos, com pouca visibilidade externa, até mesmo dentro da própria plataforma. Nelas, toda a comunicação é criptograda. Ou seja, são mais difíceis de serem vistoriadas de forma preventiva, mesmo pelos mecanismos de Inteligência Artificial implantados. Este é o ponto cego, de difícil regulação, até mesmo pela própria plataforma, segundo a Agência Nacional de Proteção de dados. Tanto que o próprio Discord reconheceu, em 12 de agosto, que o sistema protetivo falhou e não aconteceu a tempo. Evidente que o problema não é o Discord em si mesmo. Aliás, é uma plataforma que reúne uma série de diferentes ferramentas. Serve para jogos online, conversas privadas (tipo whatApp), transmissões ao vivo (tipo youtube) e ainda têm salas privadas para reuniões online. O Discord atualmente é usado especialmente por jovens, uma população extremamente ativa no mundo digital. No entanto, enquanto qualquer das plataformas não desenvolver mecanismos de efetiva aferição de idade e controle da violência em seu ambiente digital, não é um lugar seguro à infância e à adolescência. E, portanto, necessita ser fiscalizado, multado e inclusive parcialmente bloqueado, até que cumpra a lei. NO RADAR 👀 O que fazer como mãe e pai? - Por Regina Nicolosi, psicóloga, fonoaudióloga e doutora em Comunicação Não se trata de criar pânico moral ou simplesmente proibir o uso da internet, mas de exercer a presença. Coloque limite de tempo de tela: lembrando que, de acordo com a OMS, mais de 3 horas de tela já configura dependência. Monitore o invisível: esteja atento às mudanças de humor, ao isolamento excessivo e ao vocabulário do seu filho. Fortaleça a vida offline: quanto mais laços reais e de pertencimento o adolescente tiver no mundo físico (esportes, família, amigos da escola), menor será a dependência da validação virtual em servidores anônimos.Conversa aberta sobre limites morais: o cérebro digital precisa ser educado. Relembre que o tom, o respeito e a responsabilidade com o outro na tela devem ser exatamente os mesmos do mundo presencial. Procurar ajuda profissional de um psicólogo pode ser uma ótima iniciativa quando o medo ou a insegurança chegar. Você, mãe ou pai, não precisa passar por nada disso sozinho. Busque apoio profissional.
Discord: entenda a plataforma, os riscos para os adolescentes e como protegê-los
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