Em anos eleitorais, a saúde ocupa, como sempre, lugar central nos discursos. Não é difícil entender por quê. Poucas experiências são tão concretas para a população quanto precisar de atendimento e não o encontrar; esperar meses por uma consulta, um exame ou uma cirurgia; peregrinar entre serviços; ou descobrir que um tratamento existe, mas não está acessível. Por isso, ao olhar para os programas dos candidatos à Presidência da República e aos governos estaduais, eu gostaria de encontrar menos promessas genéricas e mais respostas para uma pergunta objetiva: como fazer o brasileiro chegar ao cuidado de que precisa, com qualidade e no tempo certo? O SUS é uma das maiores conquistas sociais do país. Defendê-lo, porém, não significa sustentar que tudo funciona bem. Ao contrário: preservar um sistema universal exige reconhecer seus problemas, corrigir suas falhas e ter coragem para transformá-lo. O primeiro compromisso deveria ser com o acesso. O Brasil precisa enfrentar seriamente suas filas. Mas reduzi-las não significa apenas contratar mais consultas, exames e cirurgias. Precisamos saber quem está esperando, por quê, há quanto tempo e com qual risco. Uma pessoa com suspeita de câncer, um quadro cardiovascular grave ou uma doença com rápida progressão não pode ocupar exatamente a mesma posição de quem pode aguardar com segurança. A fila precisa ser organizada pela necessidade clínica, e não apenas pela ordem de chegada. É nesse ponto que tecnologia, integração de dados e inteligência artificial podem ter enorme valor, não para substituir médicos ou decisões humanas, mas para fazer o sistema funcionar melhor. Um SUS moderno deve ser capaz de acompanhar o percurso do paciente, identificar atrasos perigosos, conectar atenção primária, especialistas, hospitais e emergências e usar seus dados para antecipar necessidades. Também espero encontrar nos programas eleitorais uma mudança profunda de perspectiva: precisamos deixar de ter um sistema predominantemente preparado para encontrar a doença quando ela já aconteceu e construir um sistema capaz de procurá-la antes que se agrave. A atenção primária precisa conhecer sua população. Saber quem tem hipertensão e não está controlado, quem abandonou o tratamento do diabetes, quem deveria estar vacinado, quem precisa realizar rastreamento para câncer, quem apresenta maior risco cardiovascular, qual idoso começou a perder funcionalidade. A tecnologia já permite que a saúde procure o cidadão que precisa dela, em vez de esperar que ele adoeça e procure uma emergência. Isso é particularmente urgente em um país que envelhece. O Brasil precisa preparar agora sua rede para uma população com maior prevalência de câncer, doenças cardiovasculares, demências, fragilidade e múltiplas doenças crônicas. Quero também saber o que os candidatos pretendem fazer quando alguém infarta de madrugada em uma pequena cidade, sofre um AVC distante de um centro especializado ou necessita de uma UTI que não existe naquela região. Emergência e terapia intensiva são parte essencial da equidade. Em algumas doenças, distância e tempo não são inconvenientes administrativos: modificam a chance de sobreviver. Por isso, precisamos de redes regionais de emergência efetivamente integradas, telemedicina, transporte adequado, hospitais de referência, diagnóstico rápido e centrais capazes de enxergar leitos, ambulâncias e capacidade assistencial em tempo real. Outro capítulo indispensável é a saúde mental. Não basta construir uma política que comece quando a crise já aconteceu. Saúde mental deve atravessar atenção primária, assistência especializada, serviços comunitários, emergências, hospitais e proteção social, com atenção especial às crianças, aos adolescentes e aos idosos. Há ainda uma questão que o Brasil não pode mais tratar como secundária: soberania em saúde. A pandemia mostrou com clareza o risco de um país depender excessivamente do exterior para medicamentos, vacinas, equipamentos e insumos essenciais. Um projeto nacional de saúde precisa fortalecer universidades, institutos de pesquisa, Fiocruz, Butantan, hospitais universitários e a indústria brasileira, criando capacidade para produzir tecnologias estratégicas e negociar melhor aquilo que continuaremos importando. Isso inclui medicamentos de alto custo. Inovação deve chegar ao paciente, mas incorporação tecnológica exige evidência, avaliação de benefício real, negociação de preços e, quando adequado, modelos de compartilhamento de risco. O poder público não pode assumir sozinho o risco financeiro de tecnologias caríssimas cujo benefício ainda seja incerto. E há uma exigência elementar que não pode ser tratada como detalhe: dinheiro da saúde não pode ser roubado, desviado nem desperdiçado. Cada recurso retirado da assistência representa, no mundo real, uma consulta que não acontece, um exame que atrasa, um medicamento que falta, um equipamento que deixa de ser comprado ou um leito que não abre. Combater corrupção, fraudes, superfaturamento e desperdícios precisa fazer parte de qualquer programa sério de saúde. Isso exige transparência dos gastos, rastreabilidade dos recursos, auditoria permanente, controle de contratos, divulgação de resultados e responsabilização de quem utilizar indevidamente o dinheiro público. Na saúde, corrupção não é apenas um crime contra o Estado. Pode se transformar concretamente em sofrimento, doença e vidas perdidas. Por isso, há uma última exigência que deveria atravessar todas as anteriores: metas. Quantos dias um paciente com suspeita de câncer poderá esperar pelo diagnóstico? Quanto pretendemos reduzir a mortalidade cardiovascular? Qual será a cobertura vacinal? Quanto tempo deverá transcorrer entre um AVC e o tratamento adequado? Quanto será reduzido das filas? Qual será o prazo para uma consulta especializada? Que resultados serão publicados anualmente? Política pública sem indicador corre o risco de transformar intenção em propaganda. Também precisamos falar de gestão. O Brasil não pode continuar aceitando sistemas que não conversam entre si, duplicação de exames, compras mal planejadas, hospitais trabalhando isoladamente, ausência de avaliação de desempenho e decisões tomadas sem dados. Eficiência não significa gastar menos a qualquer custo. Significa usar melhor cada real disponível para produzir mais saúde. E talvez devêssemos fazer uma pergunta muito simples a cada candidato: como estará a saúde brasileira ao final de seu mandato e quais números permitirão à população saber se essa promessa foi cumprida? A eleição de 2026 deveria ser também uma oportunidade para discutir que sistema de saúde queremos construir para a próxima década. O Brasil não precisa escolher entre defender o SUS e transformá-lo. Precisamos transformá-lo justamente para que continue sendo possível defendê-lo.
O que a saúde deve exigir dos candidatos
O que a saúde deve exigir dos candidatos








