Relato de Isabelle Nogueira ajuda a colocar em pauta uma decisão que envolve planos pessoais, idade, reserva ovariana e as incertezas sobre uma gravidez no futuro 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Congelamento de óvulos: até que ponto é possível adiar a maternidade? — Foto: Magnific O congelamento de óvulos deixou de ser um assunto restrito aos consultórios de reprodução assistida. Nos últimos anos, celebridades e influenciadoras passaram a compartilhar nas redes sociais não apenas a decisão de preservar os óvulos, mas também as etapas do processo, dos exames às aplicações hormonais. O movimento ajuda a tornar mais conhecida uma possibilidade que, para algumas mulheres, entra no planejamento reprodutivo diante do adiamento da maternidade. A ex-BBB Isabelle Nogueira, de 33 anos, foi uma das personalidades que recentemente falaram sobre o assunto. Ao mostrar parte do processo nas redes, contou que sua reserva ovariana é baixa e que poderia precisar repetir o procedimento. A exposição de uma experiência tão particular também chama atenção para uma questão que ganhou espaço na vida de muitas mulheres: até que ponto é possível preservar hoje uma possibilidade de gravidez para o futuro? Para o especialista em reprodução humana Rodrigo Rosa, o aumento da procura acompanha mudanças na própria trajetória feminina. A maternidade pode ser adiada por diferentes razões, como projetos profissionais, questões financeiras, relacionamentos ou simplesmente por não haver naquele momento o desejo de ter filhos. "Nos últimos anos, o congelamento de óvulos deixou de ser um assunto restrito e passou a ocupar espaço nas redes sociais e na mídia. Esse movimento acompanha uma mudança de comportamento entre as mulheres, que têm adiado a maternidade por questões profissionais, pessoais ou pela ausência de um parceiro. Além disso, a normalização do tema por figuras públicas contribui para reduzir o tabu e estimular cada vez mais pessoas a se informarem e buscarem o procedimento", explica. O que significa congelar os óvulos? A criopreservação de óvulos consiste em retirar as células dos ovários depois de uma etapa de estimulação hormonal e armazená-las para uma possível utilização futura. Quando a mulher decide tentar engravidar com esse material, os óvulos são descongelados e podem ser fertilizados em laboratório por meio da fertilização in vitro. "Basicamente, o congelamento de óvulos consiste na criopreservação dessas células em nitrogênio líquido na temperatura de -196°C, mantendo o metabolismo completamente inativado, mas preservando o potencial de desenvolvimento e a viabilidade", detalha. A técnica também pode ser indicada por razões médicas. Mulheres que passarão por determinados tratamentos contra o câncer, por exemplo, podem receber a recomendação de preservar a fertilidade antes de terapias que tenham potencial de comprometer a função dos ovários. Há ainda situações relacionadas a doenças que podem levar à perda precoce da função ovariana. Por que a idade importa? A idade é um dos fatores mais importantes quando se fala em preservação da fertilidade. Isso acontece porque, com o passar dos anos, há redução tanto da quantidade quanto da qualidade dos óvulos. Congelar as células em uma idade mais jovem pode melhorar as perspectivas de uso futuro, embora não seja possível estabelecer uma garantia de gravidez. "O que chamamos de congelamento social de óvulos é a preservação feita por mulheres que desejam adiar a maternidade e manter uma possibilidade reprodutiva para mais tarde. Quanto mais jovem a mulher realizar o congelamento, maior tende a ser a chance de que os óvulos armazenados possam resultar em uma gestação no futuro", afirma o médico. Sociedades médicas, no entanto, ressaltam que não existe uma idade única que determine quando o procedimento deve ser feito. Os resultados dependem de fatores como a idade no momento da coleta e a quantidade de óvulos armazenados, e as evidências ainda são insuficientes para estabelecer um número universal de células capaz de assegurar uma determinada probabilidade de nascimento. A avaliação da reserva ovariana pode ajudar o médico a estimar a resposta aos medicamentos e a quantidade de óvulos que poderá ser obtida em um ciclo, mas também não funciona como uma previsão exata da capacidade de engravidar no futuro. A própria American Society for Reproductive Medicine destaca que os testes de reserva ovariana não devem ser usados isoladamente para prever a chance de nascimento após o congelamento planejado. Ex-BBB Isabelle Nogueira inicia congelamento de óvulos — Foto: Reprodução Instagram Como é o processo? O tratamento costuma começar com exames e uma avaliação da função ovariana. Depois, são aplicados medicamentos hormonais durante alguns dias para estimular o desenvolvimento de vários folículos ao mesmo tempo. O acompanhamento é feito com exames de imagem e, quando os óvulos atingem o estágio adequado, é realizada a coleta. A retirada é feita por via vaginal, com auxílio de ultrassom e sedação. Em seguida, os óvulos maduros são vitrificados e armazenados. "Além de uma bateria de exames para verificar a qualidade dos óvulos, a mulher, inicialmente, deve fazer uso de pílulas anticoncepcionais por uma a duas semanas para desativar temporariamente os hormônios naturais. Mas, em casos de urgência, como antes da terapia contra o câncer, essa etapa pode ser ignorada. Em seguida, realizamos injeções de hormônios por cerca de 10 dias para estimular os ovários e amadurecer vários óvulos. É só após amadurecerem adequadamente que os óvulos são coletados, o que é realizado sob efeito de sedação por meio de uma pequena agulha que é inserida na vagina e é guiada por um transdutor até os ovários para que os óvulos sejam aspirados e congelados imediatamente", esclarece. Durante a estimulação hormonal, podem surgir efeitos como inchaço, dor de cabeça, náusea e alterações de humor. A intensidade varia de acordo com cada organismo e deve ser acompanhada pela equipe responsável. Congelar os óvulos garante uma gravidez no futuro? Não. Essa talvez seja uma das informações mais importantes para quem considera o procedimento. O congelamento preserva os óvulos naquele momento da vida, mas não assegura que eles resultarão em uma gestação anos depois. Quando chega a hora de utilizá-los, ainda há outras etapas: os óvulos precisam sobreviver ao descongelamento, ser fertilizados e dar origem a embriões que possam ser transferidos para o útero. A idade da mulher no momento da coleta e o número de células armazenadas estão entre os fatores que influenciam as chances futuras. "O congelamento de óvulos não é uma garantia definitiva de gestação no futuro. Alguns podem não sobreviver ao degelo, enquanto outros podem não ser fertilizados com sucesso. A idade também é importante, visto que, apesar dos óvulos estarem congelados, a mulher continua a envelhecer e, consequentemente, terá que enfrentar as realidades da gravidez na idade que possui", destaca o médico. A ressalva é importante porque o procedimento pode ampliar as possibilidades reprodutivas, mas não interrompe o envelhecimento do organismo. A preservação acontece com as células obtidas naquele momento; outras questões relacionadas à gravidez continuam ligadas à idade em que ela ocorrerá. Uma decisão que envolve planejamento A popularização do congelamento também mudou a conversa sobre o procedimento. Ao aparecer nas redes sociais, a prática pode parecer uma espécie de seguro contra a infertilidade relacionada à idade. Mas especialistas e entidades médicas ressaltam que existem incertezas sobre as chances de sucesso e que a decisão deve levar em conta expectativas, idade, reserva ovariana, condições de saúde e planos reprodutivos. "Existem ainda outros motivos que levam as mulheres a congelarem óvulos, principalmente questões médicas, como antes de tratamentos oncológicos, que podem causar danos aos ovários, ou em casos de doenças que podem provocar falência ovariana prematura", acrescenta. No caso de quem opta pelo congelamento para adiar a maternidade, a decisão também envolve uma dimensão pessoal que não pode ser reduzida a uma conta de idade ou quantidade de óvulos. O procedimento pode fazer sentido para algumas mulheres e não ser a escolha de outras. É justamente por isso que a popularização do tema nas redes pode ter um efeito ambíguo: ajuda a tirar a discussão do silêncio, mas também pode criar a impressão de que existe uma estratégia capaz de garantir a maternidade em qualquer momento. Na prática, o congelamento é uma possibilidade de preservação da fertilidade, não uma promessa de gravidez futura.