Definido como 'terrorismo econômico' por Teerã, projeto do presidente americano é fechar todos os canais comerciais do inimigo e forçar a queda do regime 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Mulheres caminham em frente a um cartaz político na Praça Valiasr, no centro de Teerã, em 8 de agosto — Foto: Atta Kenare/AFP Em maio, o líder supremo do Irã, Mojtaba Khamenei, fez um apelo aos parlamentares do país para que se concentrassem em medidas destinadas a apoiar a "economia da resistência" e reduzir as pressões trazidas pela guerra com os EUA sobre as famílias iranianas. A preocupação com o fator econômico remonta estratégias de longo prazo de Teerã, que o presidente dos EUA, Donald Trump, parece disposto a tentar superar por meio de um recém-anunciado cerco aos parceiros comerciais da nação persa, ameaçando punir "qualquer tipo de apoio" ao país — uma decisão que mostra a dificuldade de Washington de vencer o Irã por meios militares, quase seis meses do início do conflito, em um contexto agravado pela falta de munições de defesa e ataque. A expressão "economia da resistência", usada por Mojtaba, é uma herança de seu pai, Ali Khamenei, que cunhou o termo em 2010 para se referir a uma estratégia que visava ampliar a independência do país em termos econômicos, tornando-o menos suscetível a sanções internacionais — como as que os EUA já aplicam diretamente a Teerã e que Trump promete estender a parceiros que se oponham ao isolamento objetivado por Washington. Analistas apontam que os países parecem preparados para travar uma disputa centrada no desgaste econômico, com cada lado observado vantagens a partir de suas posições. O plano de Trump visa fechar todos os canais econômicos iranianos, aumentando uma pressão interna que, em dezembro, levou a uma onda de manifestações populares que confrontaram o regime teocrático. Em seu anúncio público, Trump prometeu "tremendas consequências econômicas" para "qualquer país" que mantenha relações com Irã, citando "contrabando de petróleo, transferências de dinheiro, casas de câmbio, registros de navios e empresas de fachada", sugerindo que os países aos quais a mensagem se destina "sabem quem são". O secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, foi mais explícito nesta quinta-feira. Em entrevista à rede CNBC, o representante do governo republicano afirmou que o plano traçado pelo presidente tinha como objetivo fazer com que o regime entrasse "em colapso", prometendo que a campanha teria um resultado na prática. — Será a maior operação coordenada de isolamento econômico da História mundial — disse Bessent, que ao ser questionado sobre a intenção de Washington em pressionar Pequim, parceiro econômico do Irã, ressalvou que "muitas conversas são melhores manter em reservado", antes de instar a China a "somar-se ao plano". O presidente dos EUA, Donald Trump, e o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent — Foto: Al Drago/Bloomberg Canais de trocas comerciais As linhas de sobrevivência não evitaram completamente um cenário econômico desolador. Em julho, a inflação dos últimos 12 meses bateu 66%. O rial iraniano, moeda do país, segue em queda livre, sendo o câmbio de 1,88 milhão por dólar — antes da guerra, a taxa de conversão era de 1,65 milhão. Apesar disso, ex-funcionários e funcionários da diplomacia americana duvidam que as táticas convencionais de sanção sejam suficientes para levar a um ponto de ruptura. — Acredito que a pressão econômica precisaria atingi-los de maneiras novas, que não vimos até agora, para mudar a mentalidade do regime — disse um ex-funcionário do governo Trump, ouvido pelo site americano Politico, sob condição de anonimato. Cálculos incertos A última ameaça de Trump foi rebatida em tom de desafio por autoridades iranianas. O ministro das Relações Exteriores, Abbas Araghchi, afirmou na quarta-feira que o plano americano era uma "distração em relação à própria crise dos EUA", acrescentando que "dobrar a aposta" resultaria apenas em "uma nova derrota e a inimizade dos iranianos". Em um comunicado emitido pela pasta nesta quinta-feira, a manifestação era de denúncia contra Washington. "Sem dúvidas, as sanções econômicas dos Estados Unidos contra o Irã, que atacam os direitos humanos fundamentais de cada cidadão iraniano, constituem um caso de 'terrorismo econômico' e de 'crimes contra a Humanidade", afirma a nota, acrescentando ainda que os responsáveis pela política "merecem ser julgados e castigados por cometer crimes tão atrozes". Durante a semana, analistas apontaram que o regime teocrático mantém-se apoiado em uma estratégia dividida em três pilares: o fechamento do Estreito de Ormuz — principal ferramenta de dissuasão contra os EUA, provocando desgaste com o impacto do mercado global de petróleo —, a reestruturação das capacidades ofensivas por meio de aliados do "Eixo da Resistência" e da reposição dos estoques de mísseis e drones; e um controle interno cada vez mais forte, eliminando todo sinal de dissidência. Foto de arquivo mostra o então líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, ao lado de comandantes iranianos passando por membros da milícia Basij durante uma reunião em Teerã, em 26 de novembro de 2007 — Foto: ISNA/AFP O último pilar oferece uma camada extra de resiliência ao governo em face dos possíveis percalços da economia. Mojtaba nomeou recentemente o clérigo e ex-chefe de inteligência Hossein Taeb, integrante de uma velha guarda linha-dura da política iraniana, para comandar a Basij, poderosa rede de forças paramilitares frequentemente usada para reprimir protestos. O líder supremo vem se cercando por representantes da Revolução Islâmica para manter a estabilidade do governo. Com a estratégia de dissuasão iraniana se mostrando eficaz até agora, o esforço do presidente Trump para derrotar o país pela pressão econômica depende da aderência de outros países. Após pressão americana, os Emirados Árabes Unidos anunciaram na terça-feira a suspensão de transações financeiras e econômicas com o Irã, ameaçando potencialmente seu acesso a uma importante fonte de importações e a uma via financeira alternativa para o mundo. Os Emirados foram responsáveis por cerca de um terço das importações do Irã em 2024, de acordo com dados da Organização Mundial do Comércio (OMC), incluindo importantes componentes tecnológicos que o país não consegue acessar via Ocidente. O país também é um dos principais destinos das exportações iranianas. — Os Emirados Árabes Unidos foram descritos como o pulmão do Irã, o meio pelo qual a economia iraniana consegue acessar a economia global — afirmou ao New York Times Andrew Leber, especialista em Oriente Médio do Carnegie Endowment for International Peace, acrescentando que a decisão, quando implementada, representaria uma "ruptura importante". Se efetivada em larga escala, a medida poderia restringir significativamente o acesso de Teerã à moeda estrangeira e a redes de comércio global. Mas, de acordo com o jornal Wall Street Journal, romper esses vínculos será difícil. Grande parte da atividade é deliberadamente ocultada. Ordens de sanções dos EUA nos últimos anos mostram que receitas do petróleo, operações de câmbio e pagamentos a entidades iranianas têm transitado há muito tempo por empresas de fachada e casas de câmbio em Dubai, muitas vezes sem que um nome iraniano apareça na transação. Ainda segundo o jornal, cortar laços com o Irã também exigiria que as autoridades dos Emirados reprimissem com muito mais agressividade as atividades financeiras e comerciais opacas, o que poderia prejudicar o papel de Dubai como um polo global dinâmico e pouco restritivo para o comércio, o capital e as reexportações. — É improvável que essa medida seja a gota d’água geoeconômica que fará a economia iraniana desmoronar — disse Robert Mogielnicki, especialista em economia do Golfo do Arab Gulf States Institute, destacando os esforços iranianos por "autossuficiência", que fez com que o país não dependa "excessivamente" dos parceiros regionais. (Com NYT, AFP e Bloomberg)