Artigo de opinião aponta que as eleições brasileiras são marcadas pela disputa ideológica de quem estaria "entregando a naçãoa interesses estrangeiros" 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Donald Trump — Foto: AP Photo/Julia Demaree Nikhinson A tentativa de Donald Trump de ser um personagem influente nas eleições para Presidência no Brasil é uma "nova munição para uma disputa ideológica de longa data" no país, na qual políticos de esquerda e direita disputam a narrativa sobre quem seria o verdadeiro nacionalista, escreve Andre Pagliarini em um artigo de opinião publicado no New York Times nesta quinta-feira (20). Para pesquisador associado do Washington Brazil Office, a disputa entre o atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), principais nomes da corrida eleitoral atual, deve repetir padrão histórico, no qual "a acusação de ambos os lados é a de que o adversário está entregando a nação a interesses estrangeiros e que apenas o seu próprio grupo é digno de confiança." Na visão de Pagliarini, o Brasil "é assombrado" pela diferença entre o seu potencial de se tornar uma potência global com prosperidade compartilhada e a sua capacidade de concretizar esse sonho. "Essa distância frustrante e persistente entre a promessa e a realidade é o que transformou o nacionalismo na linguagem dominante da política brasileira. Quem conseguisse responder à pergunta sobre por que o Brasil não havia alcançado seu pleno potencial — e o que fazer a respeito — detinha a chave para o sucesso político." Assim, a partir da década de 1920, o grupo progressista da política adotou o discurso de que a falha do Brasil em concretizar seu potencial era causada pela desigualdade e pelo uso do Estado por elites que se beneficiavam da exploração estrangeira. Essa narrativa gerou uma ampla agenda reformista que se consolidou durante o governo de João Goulart, no começo dos anos de 1960, por meio das chamadas "reformas de base", um conjunto de políticas que incluía a reforma agrária, o direito de voto para analfabetos, limites à remessa de lucros por empresas estrangeiras e maior controle estatal sobre os recursos naturais. Com o golpe militar apoiado pelos EUA em 1964, o regime autoritário que se instalou passou a rejeitar essa agenda reformista e adotou a disciplina de mercado e o alinhamento com Washington como "o verdadeiro interessa nacional". "O patriotismo da ditadura — que atingiu seu auge em 1970, quando o Brasil conquistou o tricampeonato mundial de futebol — esperava que os cidadãos se orgulhassem do país sem levantar questões incômodas sobre a quem ele servia. Aqueles que o faziam eram retratados como obstáculos ao desenvolvimento da nação." Décadas depois, quando Jair Bolsonaro se elegeu em 2018 sob o discurso de "construir uma nova nação", Pagliarini argumenta que ele não estaria copiando a cartilha de Trump, mas sim recorrendo à herança política do Brasil. "Conservadores haviam feito declarações semelhantes ao longo da Guerra Fria, ao denunciarem nacionalistas progressistas como subversivos insidiosos. [Jair] Bolsonaro atualizou o conteúdo, mas a forma permaneceu a mesma: reivindicar a nação para si, deslegitimar a esquerda como antibrasileira e insistir que o que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil." Enquanto Flávio Bolsonaro tenta, agora, repetir o discurso de seu pai, Lula usa a proximidade deles com Trump para fortalecer o seu papel como "defensor da soberania brasileira" e acusar o político de direita de "colocar os interesses de outro país em primeiro lugar". "Esse é o dilema que a direita brasileira sempre enfrentou ao se alinhar de forma muito visível a Washington: a esquerda transforma esse alinhamento em prova de que não se pode confiar na direita para zelar pelo interesse nacional."