Para estrategistas do banco americano, medida trata apenas dos sintomas e não da causa do problema 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Estrategistas do J.P. Morgan Chase & Co. alertaram que os mercados podem considerar carente de credibilidade a iniciativa surpresa do Tesouro dos EUA de conter os custos de financiamento de longo prazo, o que poderia elevar os prêmios de risco e os rendimentos (yields) no decorrer do tempo. O Departamento do Tesouro dos EUA anunciou nesta quarta-feira (19) que pelo menos dobraria o volume de suas recompras de títulos como forma de oferecer "maior suporte à liquidez", fazendo com que os rendimentos de longo prazo dos títulos dos EUA caíssem - movimento que se reverte nesta quinta-feira (20) e pressiona os mercados globais. No entanto, o J.P. Morgan afirmou que a medida tratava apenas dos sintomas e não da causa raiz: os EUA registram um déficit de 6% em uma economia próxima do pleno emprego. "Na ausência de uma consolidação fiscal real, tememos que os mercados vejam essa ação como carente de credibilidade", escreveram estrategistas, incluindo Jay Barry, em um relatório. "Isso poderia contribuir para um prêmio a termo e rendimentos mais elevados ao longo do tempo, caso o Tesouro adote uma postura mais oportunista na gestão da dívida e se afaste ainda mais de seu princípio de atuação 'regular e previsível'." A dívida nacional dos EUA ultrapassou US$ 40 trilhões, aumentando a pressão sobre os formuladores de políticas que tentam manter os custos de financiamento sob controle, mesmo enquanto Washington continua a emitir cada vez mais títulos. Cerca de 60% dos participantes de uma pesquisa da Bloomberg afirmaram que a situação da dívida dos EUA continuará a se deteriorar até desencadear uma crise grave. As implicações vão muito além do orçamento federal, pois os rendimentos dos títulos do Tesouro servem como referência para os custos de financiamento em todo o mundo. Rendimentos mais altos podem impactar as taxas de hipotecas e a dívida corporativa nos EUA, bem como moedas e títulos soberanos ao redor do globo. A medida mais recente segue uma série de decisões do Tesouro nas últimas semanas que sinalizaram uma preocupação crescente com a alta dos rendimentos de longo prazo — que, segundo uma métrica, atingiram recentemente o nível mais alto desde 2001. O anúncio fez o rendimento do título de 30 anos cair nove pontos-base, para 5,19%, enquanto um índice de títulos do Tesouro de longo prazo saltou 1,7%, registrando seu melhor desempenho diário desde fevereiro de 2025. O Citigroup Inc. recomendou que clientes comprassem títulos do Tesouro de 20 anos, argumentando que a medida parecia visar o controle dos rendimentos da ponta longa da curva de juros. Somado ao arrefecimento da inflação, o Citi vê espaço para uma forte valorização dos títulos nos próximos meses. 'Regular e previsível' O que torna a medida mais recente do Tesouro particularmente sensível é o fato de o órgão seguir, há muito tempo, o princípio de ser "regular e previsível" e de não surpreender os investidores. O próprio secretário do Tesouro, Scott Bessent, endossou essa abordagem em um discurso principal durante uma conferência em novembro passado. O departamento reintroduziu seu programa de recompra em 2023, uma iniciativa concebida há mais de duas décadas, quando o governo registrava superávits orçamentários e recomprava e cancelava dívidas de custo mais elevado. Desta vez, um objetivo fundamental era aumentar a liquidez do mercado, uma vez que os operadores geralmente preferem manter os títulos de referência atuais para determinados prazos, tornando os títulos mais antigos menos fáceis — e mais caros — de negociar. Ainda assim, o J.P. Morgan afirmou que o momento do anúncio do Tesouro foi "altamente incomum", ocorrendo apenas duas semanas após o departamento divulgar seu cronograma de recompra de títulos mais antigos. A medida aumenta a probabilidade de o Tesouro reduzir o volume dos leilões de títulos de longo prazo caso os rendimentos continuem subindo. No entanto, Washington ainda precisa captar grandes volumes de recursos. O J.P. Morgan projeta um déficit de financiamento superior a US$ 3,5 trilhões nos próximos anos fiscais, o que provavelmente exigirá uma maior — e não menor — oferta de títulos de longo prazo. “Embora consideremos mais provável uma redução no volume dos leilões, não acreditamos que isso teria um impacto duradouro na queda dos rendimentos de longo prazo”, escreveram os estrategistas. “Acreditamos que as medidas de hoje provavelmente terão um impacto passageiro sobre os rendimentos dos títulos de longo prazo, a menos que sejam tomadas providências para reduzir o déficit.” Scott Bessent, secretário do Tesouro dos EUA — Foto: Aaron Schwartz/Bloomberg