As primárias na Flórida nos oferecem lições valiosas sobre como as campanhas eleitorais funcionam atualmente e, de quebra, sobre como podemos avaliar a sociedade moderna e seus desafios. O pleito, ainda no estágio das primárias estaduais, registrou uma esmagadora vitória de Angie Nixon, do lado do Partido Democrata, sobre um adversário apoiado por um orçamento publicitário de US$ 2,2 milhões, enquanto ela contava com apenas US$ 60 mil, além de sua habilidade de articulação junto à comunidade. Primeira lição: o dinheiro não reina acima da mobilização social de base.

O resultado mostra que a engrenagem do engajamento orgânico superou o marketing tradicional ao mostrar que a quantidade de propostas e a identificação com as necessidades do eleitorado ainda são capazes de romper a hegemonia do dinheiro. “O poder do engajamento popular e da mensagem direta é capaz de superar assimetrias financeiras gritantes no ambiente democrático“, disse David Jones, pesquisador sênior em ciência política do Center for American Progress, com sede em Washington/EUA.

Por outro lado, a consolidação de Byron Donalds como candidato ao governo pelo Partido Republicano, que pode ser o primeiro político negro a dirigir o Estado, expôs um comportamento eleitoral que mostra algo sobre a realidade humana em sua forma mais obscura. A forte abstenção dos eleitores brancos em vários condados-chave, em um sistema de votação opcional, parece ter sido uma indicação clara de que o preconceito racial ainda desempenha um papel crucial nas urnas, aqui disfarçado de apatia política.