Os drones estão transformando rapidamente a forma como nos matamos uns aos outros, e olha que disso temos experiência há milênios 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Drone sendo lançado a alvos dos EUA no Bahrein e no Kuwait — Foto: Foto: SEPAHNEWS.COM / AFP Gente, eu acho que ninguém está prestando a devida atenção ao que está acontecendo com os drones ao redor do mundo (alerta a velhinha da Lagoa, sentada entre os seus gatos e livros). Sério. Antigamente se dizia que os otimistas eram apenas pessoas mal-informadas; hoje pessimismo é pouco. Era para estarmos todos correndo pelados pela rua, gritando e arrancando os cabelos. Eles são o terror de bolso, o pavor de camelô, a arma improvável que faz troça de exércitos inteiros. Os drones estão transformando rapidamente a forma como nos matamos uns aos outros, e olha que disso temos experiência há milênios. São dezenas de vídeos em que perseguem veículos ou pessoas até acertá-los — imagens mais ou menos fora de foco, feitas à distância, saídas de um videogame. Elas têm um quê de surreal e de performático, e um quase nada de assustador, mas o detalhe a não esquecer é que o videogame é real. As personagens caçadas ainda são na maioria russos e ucranianos, mas o mundo que se prepare, porque a tecnologia já saiu do teatro de guerra e está solta. Há duas semanas os funcionários do aeroporto alemão de Leipzig/Halle encontraram um drone equipado com explosivo profissional e detonador na área restrita de cargas. Vocês já tentaram entrar na área restrita de um aeroporto? Na Alemanha, ainda por cima? Pois o aparelho estava lá, ao lado de um avião cargueiro ucraniano. O aeroporto de Leipzig/Halle não é um aeroportinho qualquer. É um dos maiores centros europeus de carga, abriga operações da Antonov desde a invasão da Ucrânia e movimenta toda espécie de equipamento. É parte primordial do sistema de transporte estratégico da Otan. A Procuradoria Federal alemã concluiu que o engenho havia sido preparado para explodir; a imprensa alemã, citando investigadores, diz que só não explodiu por falha técnica. Um dia não haverá mais falha técnica. A Ucrânia virou o maior laboratório militar de guerra barata. Russos e ucranianos estão aprendendo, em condições reais, a combinar aparelhos de vários tipos, a usar IA para localizar e escolher alvos, a usar impressão 3D e componentes civis montados em pequenas oficinas quase invisíveis. Nenhum curso no mundo oferece esse tipo de prática — e é claro que o know-how já circula por outros exércitos, serviços de inteligência, guerrilhas e organizações criminosas. Ninguém precisa mais inventar um caça de US$ 100 milhões para causar estrago; com pouco dinheiro e algum jeito, os modelos comuns podem ser modificados em questão de dias. E nós com isso? Nós com isso: a infraestrutura civil ficou absurdamente vulnerável. Portos, usinas de energia, antenas, reservatórios, data centers, galpões e centros de distribuição do comércio eletrônico: tudo é alvo. No Sudão, drones já atingiram mercados, escolas, abrigos e até um funeral, onde, segundo testemunhas ouvidas pela Reuters, morreram 65 mulheres e crianças. Em Mianmar, os assassinos no poder os utilizam para bombardear aldeias e atacar quem aparece para socorrer as vítimas. Na Colômbia, dissidentes das Farc já mataram soldados com modelos comerciais modificados. No México, cartéis usam a mesma tecnologia para bombardear povoados e ajudar a expulsar populações inteiras, expondo cada vez menos os próprios homens. Os houthis, no Iêmen, que começaram como uma milícia local, ameaçam uma das principais rotas marítimas do planeta. A guerra enfim se democratizou: agora qualquer um pode ter sua própria força aérea. Olha pro céu, olha.
Olha pro céu, meu amor
Os drones estão transformando rapidamente a forma como nos matamos uns aos outros, e olha que disso temos experiência há milênios








