Réptil ganha representações de renovação e sabedoria em tradições como a de povos indígenas e de religiões de matriz africana 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 De Jaider Esbell, a série “Entidades”, lançada em 2020,é destaque na FGV Arte, em Botafogo, e no Sesc Quitandinha, em Petrópolis — Foto: Gabi Carrera/Divulgação RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você Na cosmovisão de povos amazônicos e no trabalho de Jaider Esbell, a serpente simboliza a proteção ambiental e o movimento das águas. Ela afasta a ideia bíblica de maldade. Em religiões de matriz africana, o réptil representa renovação e sabedoria. O artista carioca Omep recria esses conceitos de forma intuitiva através de padrões geométricos em suas telas. A tela 'Urutu', de Tarsila do Amaral, exemplifica a ambiguidade do animal na história nacional. A obra questiona se o réptil resguarda ou põe em risco o ovo retratado. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Ao saber que Eva havia comido do fruto proibido, enganada pela serpente, Deus disse: “Você é maldita entre todos os animais domésticos e entre todas as feras. Você se arrastará sobre o ventre e comerá pó todos os dias de sua vida”. A passagem bíblica, no livro do Gênesis, termina com a expulsão do homem do paraíso. Antes disso, a cobra já era descrita como o mais astuto dos bichos do campo — de corpo comprido, pele escamada, traiçoeira, pronta para dar o bote, capaz de levar o ser humano pelo caminho do mal. Mas nem todas as mitologias seguem a cartilha judaico-cristã: em algumas tradições, o animal está ligado justamente à criação do mundo. E a diversidade de simbologias em torno da cobra pode ser vista na produção de artistas em evidência na cena artística ou em exposições atualmente em cartaz no país. Ela surge às vezes de forma figurativa; outras, mais abstrata. Sendo protagonista ou coadjuvante, a serpente entremeia trabalhos que revisitam referências e histórias de vida de artistas visuais tanto contemporâneos — que trabalham sob a perspectiva de tradições indígenas e de matriz africana — quanto clássicos, a exemplo de Tarsila do Amaral (1886-1973), ganhando vários significados. Proteção da natureza Povos indígenas costumam ligar o réptil à proteção da natureza. Destaque na FGV Arte, em Botafogo, na Zona Sul do Rio, e no Sesc Quitandinha, em Petrópolis, Região Serrana do estado, a obra “Entidades”, de Jaider Esbell (1979-2021), causou rebuliço quando foi apresentada pela primeira vez em Belo Horizonte, seis anos atrás. Na ocasião, o artista explicou que a cobra — representada por meio de esculturas infláveis, em que se veem desenhos de escamas, formas geométricas e outros símbolos — não estava associada ao mal, mas ao movimento da água, pulsando para manter vivas as fontes, segundo tradições do povo Macuxi. Conselheiro da galeria que leva o nome de Esbell, Parmênio Citó destaca que, mesmo entre indígenas, há “cosmovisões diferenciadas” sobre a simbologia da cobra, mas que, para o artista, ela tinha o sentido de “abrir portais”. — O trabalho dele trazia elementos nessa perspectiva de acesso a outros mundos. Diria até que era o acesso dele próprio a outros mundos, assim como das pessoas que fruíam com a arte dele — diz. Vista na exposição 'Cipó', com obras de artistas do povo obras Huni Kuin, no Museu de Arte do Rio — Foto: Cris Lucena/Divulgação Entre alguns povos amazônicos, a criação da Humanidade tem a ver justamente com uma cobra: no caso, uma anaconda (ou boiúna, melhor dizendo) carregou em seu ventre os primeiros seres humanos pelos rios. Em cada parada que fazia pelo leito, deixou um grupo de pessoas, dando origem a diferentes sociedades. A partir da importância do animal para a cultura das comunidades da região, pode-se explicar a centralidade que as serpentes ganharam em suas produções artísticas. Elas aparecem, por exemplo, envolvendo vários outros seres viventes — como se pudessem circundar toda uma existência terrestre — em obras de artistas huni kuin, povo localizado na fronteira entre o Brasil e o Peru. Esses trabalhos estão hoje em exposição no Museu de Arte do Rio (MAR), no Centro da capital fluminense. 'Mundo acuático en el Amazonas' (2023), do artista peruano Santiago Yahuarcani, foi adqurida pelo Guggenheim de Nova York em 2026 — Foto: Juan Pablo Murrugarra/Divulgação O artista peruano Santiago Yahuarcani, do povo Uitoto (que também vive na região amazônica), traz seres humanos navegando junto com botos-cor-de-rosa sobre uma grande cobra numa obra adquirida pelo museu nova-iorquino Guggenheim no início deste ano. Guardiã das águas profundas para vários povos, a boiúna (que também é chamada simplesmente de cobra grande) serviu de inspiração para a famosa instalação “Vertebral”, do artista maranhense Marcone Moreira, composta por 300 hélices de alumínio e cabo de aço, que se estende por nove metros e reproduz o movimento sinuoso de uma serpente. O trabalho integra uma videoarte que o artista apresentará no dia 22 em Marabá (PA), onde ele vive atualmente. 'Está tudo interligado' Em meio à sua fase mais celebrada, no mesmo ano de “Abaporu” (1928), e envolta pelo sentimento de estar “cada vez mais brasileira”, Tarsila do Amaral (1886-1973) possivelmente também se voltou ao mito da cobra grande para a produção da tela “Urutu” — nome de uma espécie peçonhenta do Sudeste. O quadro, que está na exposição “Entre o moderno e o contemporâneo: arte nas coleções do MAM Rio”, no Aterro do Flamengo, apresenta o bicho envolvendo um ovo. O que significaria: o réptil protege ou ameaça aquela vida ainda em surgimento?, perguntam pessoas que o veem. — Será que é uma ameaça? — indaga Phelipe Rezende, curador-assistente do MAM-Rio. — Oxumaré (no candomblé) é um orixá que tem como um dos seus símbolos a cobra. Quando se fala da cobra como ameaça, eu, invariavelmente, não consigo entender dessa forma. Minha leitura vem de outra experiência. 'Urutu' (ou 'O ovo'), célebre pintura de Tarsila do Amaral, de 1928 — Foto: Jaime Acioli/Divulgação Em religiões de matriz africana, as cobras ganham significados de renovação, sabedoria e continuidade, de acordo com o artista carioca Omep. Ele, que expõe na Casa de Cultura do Parque, na Zona Oeste de São Paulo, não costuma representar diretamente o réptil, mas seu trabalho ganha essa interpretação a partir dos padrões que cria, muito semelhantes aos desenhos na pele escamada do animal. — As formas surgem de maneira intuitiva, sem desenho prévio, e, durante o processo, passam a sugerir presenças e organismos — aponta Omep. — O trabalho fala também com uma forma elemental da natureza. Está tudo interligado. Obra de Omep, da série 'Indumentária', de 2026 — Foto: Renan Nascimento/Divulgação Todo mundo que toma ayahuasca, em algum momento, vai ver serpentes coloridas Professora do Instituto Federal do Rio de Janeiro e historiadora da arte, Marcela Tavares passou a ser acompanhada pela figura da cobra desde que foi picada por uma jararaca há cerca de 20 anos. Tatuou uma serpente no local do ferimento, desenvolvendo quase uma “obsessão por imagens de serpentes”, em suas palavras. Um dos estudos que desenvolveu em doutorado na UFRJ foi justamente sobre a serpente como símbolo do tempo da arte latino-americana, relacionando o animal às transformações ao longo da história da produção artística. — Não precisamos olhá-la como um animal que causa medo, mas que dá conhecimento e dialoga com uma temporalidade não linear, uma temporalidade serpentínea — afirma Marcela. — Em cosmovisões tradicionais, a serpente está na origem do conhecimento, ensinando a fazer a ayahuasca, usada em rituais religiosos. Todo mundo que toma ayahuasca, em algum momento, vai ver serpentes coloridas. 'Apuntes para una declaration de fe' (2020), de Juliana Lapa — Foto: Divulgação É justamente como insígnia de conhecimento que a artista Juliana Lapa passou a trabalhar com a representação de cobras, inserindo imagens diretas ou percebidas por meio de um olhar atento, como no trabalho em exibição no Paço Imperial, no Centro do Rio. No sítio em que morava com a família, na Zona da Mata Norte, em Pernambuco, sua mãe fazia gestos com os dedos apontados para os seus pés, como “pequenos feitiços de proteção” contra picadas, ela conta, lembrando de quando tal réptil passou a povoar seu pensamento. — A cobra aparece para mim de maneira transcendental, sobretudo nos sonhos, trazendo mensagens. Jiboias enormes e coloridas se apresentam como entidades de grande sabedoria — afirma ela. — Quando criança, escrevia meus sonhos e pequenos poemas e, em um deles, eu renascia de uma jiboia: ela me devolvia ao mundo dentro de um rio, adulta. Uma galeria, duas mostras Ao longo da história, diferentes mitologias também relacionaram a cobra à ideia de conhecimento. Na grega, além do saber, a serpente aparece ligada também à cura e às profecias, como no bastão de Asclépio, deus da Medicina. No Egito Antigo, vinha como símbolo de proteção, soberania e poder. Entre nórdicos, a Serpente de Midgard é uma criatura gigantesca que circunda o mundo e morde a própria cauda. Ela está relacionada a ideias de circularidade, mas também de destruição. 'Tu és muito mais bonita' (2026), de André Ricardo — Foto: Divulgação Na galeria Almeida & Dale, em São Paulo, duas mostras em cartaz trazem imagens de serpentes. Com André Ricardo, elas aparecem muitas vezes geometrizadas, em cores pastéis, enquanto Thiago Martins de Melo as representa de formas monstruosas, com tons sempre muito carregados e cenários hiperfantásticos. — É um dos seres mais universais que existem. A serpente está em toda parte. Seu próprio desenho biológico possui algo de primordial. É um ser conhecido pela esperteza e pelo mistério, capaz de circundar obstáculos em vez de seguir uma trajetória reta — aponta Thiago, que é seguidor da quimbanda, religião em que a cobra tem papel importante. 'Povo do rio nº 3' (2026), de Thiago Martins de Melo — Foto: Divulgação