A crise é de imaginação. A direita propõe um regresso ao passado, e a esquerda deixou-se cair no catastrofismo e propõe apocalipses 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Ivan Krastev, membro permanente do Instituto de Ciências Humanas de Viena — Foto: Klaus Ranger A edição do último dia 10 de agosto do New York Times inclui uma entrevista com Ivan Krastev, cientista político búlgaro que se tornou conhecido pelos seus ensaios sobre os regimes que emergiram das cinzas do Bloco do Leste. Na entrevista, Krastev fala sobre a vertigem dos dias que atravessamos, citando o romancista Milan Kundera: “A vertigem, mais do que o medo da queda, é o desejo da queda, contra o qual, aterrorizados, tentamos nos defender.” As revoluções costumavam ser obcecadas com o futuro. Não é mais assim. Uma das características distintivas da atual direita revolucionária é a negação do futuro. Assim se explicaria o movimento Maga, nos EUA, ou o bolsonarismo, no Brasil, com o seu saudosismo da ditadura militar. Durante muito tempo, conclui Krastev, a esquerda revolucionária queria destruir o presente para chegar ao futuro. Agora, certos movimentos revolucionários pretendem destruir o presente para regressar a um passado imaginário: “A nostalgia se transformou na forma popular de sonhar sobre o futuro.” Ou seja, muita gente sente saudade de um futuro que o passado prometeu e não entregou. Suponho que nem todos os bolsonaristas gostassem mesmo, mesmo, de regressar aos anos 1960 e à ditadura militar. Imagino que nem todos os trumpistas pretendam realmente retornar a uma América anterior aos direitos civis, ou, pior ainda, à América da escravatura. O que os bolsonaristas querem, o que os trumpistas querem, é um mundo que consigam compreender. Um mundo mais simples, sem a vertigem da dúvida e das fronteiras fluidas, e um pouco menos exigente. O passado tem sobre o futuro uma vantagem incontestável — já aconteceu. Todos nós somos sobreviventes do passado. O passado, mesmo o mais cruel, e quase todo o passado é cruel, tem algo de reconfortante, como aqueles sapatos muito gastos, que se adaptam aos nossos pés. O futuro é o inverso disso. O futuro não é para os fracos. Cresci cercado de futuros, de promessas de homens novos, numa época em que os amanhãs cantavam. Os meus filhos, pelo contrário, crescem hoje ameaçados por uma extraordinária variedade de apocalipses (basta ver os filmes com esse título ou títulos semelhantes nas plataformas de streaming). Lembro-me da minha filha Kianda, há alguns anos, me perguntando: — Papai, você já alguma vez viu um apocalipse? Ela queria dizer, claro, um eclipse. Hoje, parece-me um desses erros que acabam se revelando acertos. Quando eu tinha a idade dela os eclipses eram o espetáculo da moda. Agora são mais os apocalipses. Resumindo — já não se fazem futuros como antigamente. A crise, portanto, é sobretudo de imaginação. A direita propõe um regresso ao passado; no melhor dos casos uma espécie de futuro arcaico. A esquerda deixou-se cair na armadilha do catastrofismo — propõe apocalipses! A melhor maneira de contrariar a arcaização do futuro é voltar a criar utopias generosas. Precisamos imaginar futuros que não sejam nem versões do passado, nem variações assustadoras sobre o fim do mundo. Futuros que os nossos filhos queiram conhecer.
Contra a arcaização do futuro
A crise é de imaginação. A direita propõe um regresso ao passado, e a esquerda deixou-se cair no catastrofismo e propõe apocalipses









