Foi quando alguém sem rosto, só máscara, surgiu cantando seus mortos, seus caminhos tortos, sua alma cativa 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 O cantor no Rock in Rio em 2024 — Foto: Fabiano Rocha / Agência O Globo Foi há 53 anos, num agosto como este. Num tempo em que 53 anos levavam mais de meio século para passar. (Era cedo para o garoto de 14 anos, que amava Chico e Elton John, descobrir que há segundos que não acabam nunca e décadas que somem sem que se saiba aonde foram parar.) Ele estava naquele estágio — depois do gibi e antes do jornal, já com o beijo e ainda sem o orgasmo — que, por falta de um CID apropriado, chamam de adolescência. E tudo à sua volta — casa, pai, desejo, Deus, escola, comida, paisagem — atendia pelo nome de “interior de Minas”, que era, a um tempo, geografia e metáfora. Foi quando alguém sem rosto, só máscara, surgiu cantando seus mortos, seus caminhos tortos, sua alma cativa. Uma cabeça anônima, servida em prato de papel-alumínio, entre pão e vinho, feijão e cebolas. E lá no fundo azul, na noite mineira, uma voz lhe iluminou a mente e ali fez uma dança, uma festa. Era um o que chegava do colégio das Irmãs Sacramentinas, de uma longínqua 8ª série do extinto Primeiro Grau; outro o que, fechado no quarto e diante do toca-discos, tomava a até então desconhecida mescalina de si mesmo e se abria a sinestesias de rock rondó vira toada balada folk blues. “O patrão nosso de cada dia” lhe deu uma senha — a etimologia — para infinitas conexões: pai e patrão, frutos da mesma árvore. “As andorinhas” sinalizaram que a poesia estava por um fio — qualquer fio. A “Rosa de Hiroshima” ardia, ferida cálida. E, acima de tudo, de todos, leve, muito leve, aquele bicho indefinível — entre o saci e a fada, o homem e o lobisomem. Seco, molhado, fazendo cena, um treco assim. Não importava que letras e músicas fossem de outros: ali eram dele, eram ele. Pelo modo como cantava, como olhava, como se movia — envolto em tempestade, a primavera entre os dentes. O menino não sabia de nada — ou quase nada. Não chegara a hora de falar — então escutava. Antecipava o instante de o vinho quente do coração lhe subir à cabeça. De ter consciência para ter coragem. De crescer, assumir pecados, romper tratados, trair os ritos. Com 14 anos e o peso de quatrocentas mortes, soltava o ar no fim de cada faixa: Eu só sei de mim, só sei de mim, só sei de mim. Aquele disco, aquela voz — aquela ousadia — deram ao menino mudo, inexato, uma aérea esperança, uma clave de sol. Mas nada o faria imaginar-se, cinco décadas depois, num agosto como aquele, ainda ouvindo, com igual assombro, essas canções. Não mais girando em torno de si mesmas na vitrola; vindas de uma nuvem, num fluxo contínuo, a voz voando através de palavras ainda por inventar: wireless, streaming, bluetooth. Ventos de outro Norte, movendo novos moinhos. O breve hiato que separa o garoto, em 1973, depositando a agulha no vinil e este homem de 2026 com fones sem fio é exatamente a mesma imensa distância que havia entre ele e seus avós, em 1920, a ouvir foxtrotes e maxixes no gramofone, em discos de goma-laca, 78 rotações. Nesses 53 anos, perdeu pai, mãe, Minas; jurou mentiras, seguiu sozinho. No centro da própria engrenagem, inventou a contramola que resiste. Enquanto escrevo, ele retorna à casa azul, no Rosário, à direita de quem atravessa a ponte. Fecha a porta do quarto. Abre o encarte. Leva o cabeçote até a penúltima faixa do lado A. E Ney — leve pluma, muito leve, leve — pousa. O Ney que lhe segredou, há meio século (ou há um segundo?) que o que importa é não estar vencido.
O que devo a Ney Matogrosso
Foi quando alguém sem rosto, só máscara, surgiu cantando seus mortos, seus caminhos tortos, sua alma cativa
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