Quase 500 pessoas foram detidas na França desde o início do verão sob suspeita de provocar incêndios florestais, enquanto outras 281 foram presas na Grécia neste ano por crimes relacionados ao fogo. Os números expõem uma das faces menos visíveis da temporada de incêndios que castiga a Europa: em meio ao calor extremo e à seca, autoridades também tentam identificar quem está por trás das chamas — seja por ação deliberada ou por negligência. Na França, 474 pessoas foram detidas, segundo o Ministério do Interior. Cerca de 70% são suspeitas de terem provocado incêndios deliberadamente, enquanto as demais teriam causado as chamas de forma acidental. Entre os detidos, estão 183 menores de idade. Das 281 prisões realizadas na Grécia, 252 foram por incêndios provocados por negligência e 29 por incêndio criminoso intencional. A dimensão das prisões, porém, não significa que os incêndios sejam, em sua maioria, criminosos. Na França, registros indicam que nove em cada dez incêndios florestais têm origem humana, mas especialistas apontam que grande parte deles é acidental. Obras, equipamentos elétricos defeituosos, cigarros e churrasqueiras podem provocar faíscas capazes de iniciar um incêndio em áreas extremamente secas. Em períodos de seca como o atual, as condições necessárias para que uma chama se espalhe são ainda mais favoráveis. Segundo Eric Dufayet, investigador francês especializado em incêndios ouvido pela BBC, basta um simples isqueiro para iniciar um fogo em determinadas condições. O especialista explica que, no caso de cigarros, uma combinação de temperatura de pelo menos 30°C, umidade de no máximo 30%, vento inferior a 30 km/h e parte do cigarro ainda acesa pode ser suficiente para desencadear um incêndio. Dessa forma, a mesma ação que em condições normais poderia não passar de um pequeno foco, pode rapidamente ganhar grandes proporções em uma Europa atingida por temperaturas excepcionais e seca. Três em cada cinco europeus enfrentam nesta sexta-feira temperaturas de pelo menos 30°C, enquanto cerca de 150 milhões de pessoas estão submetidas a 35°C ou mais. Na Europa Ocidental, a máxima média prevista era de 31,2°C — 8°C acima da média registrada entre 1961 e 1990, segundo dados do Reuters Climate Monitor. O Serviço de Mudanças Climáticas Copernicus, da União Europeia, alertou para condições “muito extremas” em uma extensa área da Europa Central e Oriental, além de regiões do sul do Reino Unido, Irlanda, norte da França e sul da Suécia. É nesse ambiente que França, Espanha, Croácia, Alemanha, Grécia e Reino Unido enfrentam incêndios que já destruíram áreas extensas, atingiram casas e obrigaram milhares de pessoas a deixar suas residências. França investiga origem das chamas As prisões ocorrem em um ano particularmente grave para a França. Segundo dados do sistema europeu de vigilância de incêndios Effis, quase 100 mil hectares foram queimados no país desde janeiro — e outro levantamento citado pela BBC aponta que a área atingida neste verão já supera cerca de 121 mil hectares. A quantidade de detenções, porém, provocou questionamentos na própria França. A advogada Muriel Gestas, que representa pessoas acusadas de provocar incêndios, disse à BBC considerar o número de prisões excessivo e questionou quantos dos casos efetivamente resultarão em condenações. O jornal Le Monde também levantou dúvidas sobre a velocidade das investigações e a falta de informações detalhadas sobre as acusações. Enquanto autoridades investigam as causas dos incêndios, as equipes de emergência continuam enfrentando novos focos. Nesta sexta-feira, mais de 500 pessoas foram retiradas de Luglon, na região de Landes, no sudoeste do país, depois que um incêndio consumiu cerca de 1.100 hectares de uma floresta de pinheiros extremamente seca em menos de 24 horas. Europa enfrenta incêndios em meio à onda de calor 1 de 10 Bombeiros tentam apagar chamas em floresta em Guadalajara, 100km ao Norte de Madri — Foto: HANDOUT / UME / AFP 2 de 10 Bombeiro tenta apagar chamas em floresta em Guadalajara, 100km ao Norte de Madri — Foto: HANDOUT / UME / AFP X de 10 Publicidade 10 fotos 3 de 10 Incêndio consome região da França e atinge outros pontos da Europa — Foto: Romain Perrocheau/AFP 4 de 10 Bombeiros espanhóis tentam controlar incêndio florestal na região de La Mierla, ao norte de Madri — Foto: Unidad Militar de Emergencias de España/AFP/divulgação X de 10 Publicidade 5 de 10 Na Espanha, um novo incêndio declarado nesta quarta-feira perto da cidade central de Toledo provocou a evacuação de vários municípios da comunidade de Madri — Foto: Pierre-Philippe Marcou/AFP 6 de 10 Bombeiros tentam combater incêndios que atingem a França — Foto: Julien de Rosa/AFP X de 10 Publicidade 7 de 10 Área residencial na França é atingida por incêndios em meio à forte onda de calor na Europa — Foto: Julien de Rosa/AFP 8 de 10 Aeronave ajuda no combate a incêndios que atingem a França — Foto: Thibaud Moritz/AFP X de 10 Publicidade 9 de 10 Helicópteros são usados na tentativa de tentar controlar incêndio que atinge o sudoeste da França — Foto: Thibaud Moritz/AFP 10 de 10 Floresta próxima à área residencial no sudoeste da França sofre incêndio em meio à onda de calor na Europa — Foto: Thibaud Moritz/AFP X de 10 Publicidade Em área queimada pelo fogo na União Europeia, 2026 já é segundo pior ano Cerca de 500 bombeiros foram mobilizados para combater as chamas, com apoio de seis aeronaves de combate a incêndios. As estradas que levam à localidade foram fechadas. — A situação é desfavorável e o incêndio continua intenso — diz Gilles Clavreul, autoridade regional. A França enfrenta sua quarta onda de calor do ano, e 2026 já se tornou um ano particularmente grave em relação à área atingida por incêndios. Segundo dados do sistema europeu de vigilância de incêndios Effis, quase 100 mil hectares foram queimados no país desde janeiro. No fim de julho, dois grandes incêndios na região de Bordeaux, incluindo áreas próximas à Baía de Arcachon e à península de Lège-Cap-Ferret, destruíram mais de 50 mil hectares e provocaram a retirada de até 220 mil pessoas. Grécia endurece combate aos incêndios Em meio às prisões e a investigação sobre a origem dos incêndios, várias regiões da Grécia — incluindo a Ática, onde fica Atenas — estão sob alerta máximo, de nível 5, para novos focos. Dias atrás, um incêndio destruiu mais de 11 mil hectares de florestas de pinheiros, vegetação rasteira e terras agrícolas perto de um balneário ao noroeste de Atenas. O fogo levou cinco dias para ser controlado devido aos fortes ventos. Na península de Halkidiki, no norte do país, um incêndio ameaçou os destinos turísticos de Siviri e Fourka. Cerca de 500 turistas foram retirados das praias por pequenas embarcações enquanto as chamas avançavam pela vegetação. A frente de fogo chegou a cerca de 3,2 quilômetros, com chamas de até 30 metros de altura. O incêndio foi posteriormente controlado, mas equipes permaneceram mobilizadas devido ao risco de novos focos. Dois bombeiros ficaram feridos e foram levados ao hospital. Autoridades locais proibiram o acesso às densas florestas de pinheiros da região diante do risco elevado. Ventos fortes, de até 100 km/h, eram esperados nesta sexta-feira. — As condições difíceis exigem máxima cautela de todos — alerta uma fonte do corpo de bombeiros grego. Fogo ameaça mosteiro milenar na Espanha No nordeste da Espanha, o avanço das chamas chegou a ameaçar um dos símbolos históricos de Aragão. Um incêndio que começou na segunda-feira avançou por uma área montanhosa e atingiu as proximidades do mosteiro de San Juan de la Peña, cuja construção mais antiga remonta ao século 10. Diante do risco de o fogo alcançar o complexo, uma equipe da Unidade Militar de Emergências entrou no mosteiro para retirar objetos e patrimônios históricos. Em uma segunda incursão, acompanhada por policiais e funcionários responsáveis pelo patrimônio, os militares retiraram os restos mortais dos três primeiros reis de Aragão, que governaram entre 1035 e 1104. Os restos foram levados para o Museu Provincial de Huesca até que as condições permitam seu retorno. Pinturas históricas também foram retiradas do local. O incêndio foi alimentado pelas altas temperaturas e pelos ventos fortes e já atingiu mais de 10 mil hectares, segundo o balanço mais recente das autoridades. O fogo provocou a evacuação de moradores de 16 localidades, totalizando cerca de 850 pessoas. Mais ao sul, outro incêndio de grandes proporções atinge a província de Huelva, na Andaluzia. As chamas já afetaram mais de 25 mil hectares, segundo autoridades locais, e cerca de 650 pessoas precisaram deixar a região. Cerca de 300 bombeiros continuam mobilizados. Na Croácia, mais de 2 mil deslocados Na costa da Croácia, um incêndio impulsionado por ventos fortes atingiu durante a noite a região turística de Lokva Rogoznica e avançou em direção a Omiš, no litoral do Adriático. As chamas consumiram entre 900 e mil hectares e atingiram áreas residenciais, provocando a retirada de mais de 2 mil moradores e turistas. Segundo autoridades croatas, ao menos uma pessoa morreu e cerca de 40 ficaram feridas, dez delas em estado grave. — É um dos piores incêndios da história da Croácia — afirma Slavko Tucaković, comandante regional dos bombeiros. Uma área arborizada tomada pelas chamas durante um incêndio florestal intenso perto da cidade de Omiš, a cerca de 30 quilômetros ao sul de Split, na Croácia, em 14 de agosto de 2026 — Foto: Foto por MIROSLAV LELAS / AFP Em Split, 36 pessoas foram atendidas por serviços de emergência. Quatorze precisaram ser internadas e sete apresentavam ferimentos com risco de vida, segundo autoridades de saúde. Entre os evacuados estavam turistas estrangeiros. O Ministério das Relações Exteriores da Hungria informou que um grupo de cidadãos do país precisou deixar a região; quatro húngaros ficaram feridos e dois foram hospitalizados. O incêndio também provocou a interdição de um trecho da principal rodovia costeira da região. — Tudo pegou fogo em um segundo — conta Goran Lović, proprietário de um café próximo ao local onde as chamas começaram, ao jornal Jutarnji List. — Aconteceu de repente, havia uma chama aberta. Chamas se aproximam de casas na Alemanha Na Alemanha, mais de 1.800 pessoas deixaram suas casas devido a um incêndio na região da floresta de Hürtgen, no oeste do país. As chamas destruíram cerca de 300 hectares e chegaram a aproximadamente 200 metros de uma área residencial de Hürtgenwald, próxima à fronteira com a Bélgica. Moradores foram levados para abrigos, incluindo uma escola primária. Cerca de 300 pessoas foram mobilizadas para combater o incêndio, com apoio do Exército alemão. A operação, porém, enfrenta um risco adicional: munições não detonadas da Segunda Guerra Mundial estão espalhadas pela região. Explosões de artefatos atingidos pelas chamas foram registradas, obrigando bombeiros a manter distância de determinadas áreas. — A situação é dinâmica e depende da direção do vento — afirmaram as autoridades locais. Mona Neubaur, vice-governadora da Renânia do Norte-Vestfália, alertou para o risco à população. "Este incêndio florestal ameaça atingir duramente a comunidade local”, escreveu nas redes sociais. Reino Unido: 'barril de pólvora' O Reino Unido também enfrenta uma temporada de incêndios sem precedentes. Inglaterra e País de Gales já registraram mais incêndios florestais neste ano do que em qualquer ano anterior, segundo o Conselho Nacional de Chefes dos Bombeiros. O número de ocorrências já ultrapassou as 1.017 registradas em 2025 — até então, o recorde anual. E a temporada de incêndios ainda está apenas na metade. — Estamos apenas em meados de agosto, e a temporada de incêndios florestais deve se estender até novembro. Portanto, esperamos que este não seja apenas um ano recorde, mas também que haja um aumento considerável no número de incêndios florestais em relação ao que já foi registrado anteriormente — observa Phil Garrigan, presidente do Conselho Nacional de Chefes dos Bombeiros. Em Stourbridge, no centro da Inglaterra, incêndios avançaram por campos secos e atingiram casas. Três bombeiros foram hospitalizados. Durante uma visita à cidade, o primeiro-ministro britânico, Andy Burnham, descreveu a situação grave em que o país se encontra e alertou que ela ainda está "longe de terminar". — O Reino Unido é um barril de pólvora neste momento — afirmou. — Temos 37 incêndios ainda ativos em diferentes partes do país, então esse número pode aumentar. Burnham disse ainda que o governo precisa reconhecer os efeitos das mudanças climáticas e acelerar a adaptação do país. — Precisamos de mais energia limpa — ressaltou. O premier também anunciou que militares serão enviados para apoiar os serviços de bombeiros e resgate e afirmou que pretende convocar uma reunião com as corporações para discutir recursos e suporte aéreo permanente. Risco de novos incêndios Diante do risco de novos focos, o governo britânico também determinou uma proibição temporária da venda de churrasqueiras descartáveis. Segundo a orientação oficial, as condições atuais de seca e onda de calor fazem com que esses produtos representem um “risco significativo” para a população e o meio ambiente. "Não podem ser considerados um produto seguro", afirmou o governo, que determinou que as churrasqueiras descartáveis não sejam disponibilizadas para venda em lojas físicas ou pela internet enquanto persistirem as condições atuais. A origem de cada incêndio, portanto, pode ser diferente — de uma ação deliberada a uma ponta de cigarro ou uma faísca acidental. Mas, em uma Europa cada vez mais quente e seca, as condições para que esses focos se transformem rapidamente em grandes incêndios estão se tornando mais favoráveis. Na França, o presidente Emmanuel Macron afirmou que o país precisará “replantar e reconstruir um tipo diferente de floresta” para se adaptar às condições impostas pelas mudanças climáticas. “Chegará o momento de analisar as lições aprendidas”. — Enquanto isso, o país precisa permanecer unido — concluiu. (Com AFP)
França e Grécia prendem centenas de pessoas por incêndios florestais em meio a onda de calor na Europa
Detenções expõem disputa sobre causas das chamas enquanto calor e seca favorecem novos focos; Espanha, Croácia, Alemanha e Reino Unido também enfrentam chamas de grandes proporções, com deslocamentos e danos em áreas residenciais










