Candidatos de PT e PL apresentam visões distintas sobre o papel do Estado, mas coincidem em propostas para proteção social, cuidados, saúde digital, infraestrutura e empreendedorismo 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Flávio Bolsonaro e Lula trocam candidaturas nos estados por apoio — Foto: Maria Isabel Oliveira e Brenno Carvalho / Agência O Globo Embora estejam em lados opostos da disputa presidencial e apresentem visões bastante diferentes sobre o papel do Estado, especialmente na seara econômica, os planos de governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL-RJ) têm uma série de pontos de convergência quando deixam de lado a disputa ideológica e entram nas propostas para o cotidiano das famílias. Flávio divulgou seu plano de governo nesta quinta-feira, enquanto Lula apresentou o documento no sábado passado. Nos dois textos, aparecem propostas semelhantes para áreas como proteção social, cuidados, saúde, digitalização dos serviços públicos, infraestrutura, empreendedorismo e desenvolvimento do campo. As semelhanças convivem, porém, com diferenças importantes sobre o papel do Estado. Lula defende ampliar a capacidade de planejamento estatal, fortalecer o Estado de bem-estar social e aumentar a participação do governo na economia, inclusive por meio de investimentos públicos, políticas industriais e do poder de compra estatal. Flávio parte de outra premissa. Seu plano fala em “enxugar a máquina”, reduzir burocracias e cortar dez ministérios. Uma das aproximações mais claras está na política de cuidados. Flávio propõe ampliar a oferta de creches em período integral, com alimentação e foco no desenvolvimento infantil. Onde não houver vaga na rede pública, a família receberia um “voucher-creche” para utilizar a rede privada credenciada até que uma vaga pública seja disponibilizada. A proposta é apresentada como uma forma de evitar que mulheres deixem de trabalhar, estudar ou empreender por falta de atendimento para os filhos. O plano também prevê uma Rede Nacional de Cuidado para idosos e pessoas com deficiência, com centros-dia e atendimento domiciliar. Lula também transforma o cuidado em uma política de Estado com a previsão, em seu programa, do fortalecimento da Política Nacional de Cuidados e a ampliação de iniciativas voltadas a crianças, idosos e pessoas com maior grau de dependência. Entre as propostas estão as “Cuidotecas”, espaços de acolhimento para crianças de 3 a 12 anos, além do estímulo à construção de estruturas comunitárias de cuidado, como lavanderias públicas, cozinhas solidárias e restaurantes populares. O documento também prevê a capacitação de cuidadores para atender ao aumento da demanda. A convergência fica ainda mais evidente quando os dois planos tratam da relação entre cuidado e trabalho feminino. Flávio afirma que a ampliação das creches deve permitir que mulheres possam trabalhar, estudar e empreender, enquanto Lula sustenta que a política de cuidados é necessária diante das transformações do mercado de trabalho e das necessidades das famílias. O envelhecimento da população é outro ponto em que os candidatos chegam a propostas semelhantes. Flávio afirma que o país envelhece rapidamente, com lares menores, mais mulheres trabalhando fora e mais idosos vivendo sozinhos. Para responder a esse cenário, propõe o programa Casa Segura para Envelhecer, com subsídios para adaptações de acessibilidade em residências de famílias de menor renda, além de um aplicativo de companhia e alerta e da ampliação das instituições de longa permanência para idosos. Já Lula dedica uma seção específica ao envelhecimento e também propõe combinar autonomia e cuidado. O programa prevê a expansão dos centros-dia, de equipamentos voltados ao envelhecimento saudável e das vagas públicas em instituições de longa permanência. Também pretende ampliar o PADI Brasil, programa de atenção domiciliar multiprofissional para idosos com limitações funcionais, doenças crônicas e fragilidades clínicas. A ideia é levar o atendimento até pessoas que tenham dificuldades de locomoção ou vivam distantes da rede de proteção social. Na saúde, a convergência por meio do uso de novas tecnologias para integrar serviços e passar a usar ferramentas de Inteligência Artificial. Flávio propõe a digitalização do SUS, a criação de um prontuário eletrônico único e integrado e o uso de IA para agilizar o agendamento de consultas e exames. O plano também prevê telessaúde e atendimento por celular, além de uma base de dados capaz de conectar informações de diferentes especialidades. Lula também aposta na expansão da saúde digital. O plano prevê a ampliação de “teleconsultas, teleorientação e teleacolhimento na rede básica”, além da integração entre atenção primária, vigilância em saúde, assistência farmacêutica e atenção especializada. A proposta é acelerar a consolidação do prontuário único do cidadão por meio da Rede Nacional de Dados em Saúde. O texto também prevê o uso de inteligência artificial para triagem, priorização de casos graves, regulação por risco clínico e diagnóstico em regiões com escassez de especialistas. A digitalização do Estado é outro ponto em que os dois programas se aproximam. Flávio promete digitalizar 100% dos serviços públicos federais passíveis de digitalização e criar uma identidade digital única integrada ao Gov.br. A proposta inclui ainda assistentes automatizados para indicar ao cidadão quais serviços e benefícios estão disponíveis. No programa de Lula, a aposta está na universalização dos serviços digitais, na integração de dados e na personalização do atendimento. Em ambos, a tecnologia aparece como instrumento para reduzir a burocracia e aproximar o governo do cidadão. Na proteção social, a diferença de abordagem é mais evidente, mas o ponto de partida é semelhante. Flávio afirma que vai manter os programas sociais e os apresenta como o início de uma trajetória que deve levar à qualificação, ao trabalho, ao crédito e à formação de patrimônio. Lula, por sua vez, propõe manter, aperfeiçoar e ampliar as políticas de proteção social, colocando a transferência de renda, a valorização do salário mínimo e a inclusão produtiva entre as principais ferramentas para reduzir desigualdades. O Bolsa Família permanece no centro dessa estratégia. Flávio, por sua vez, fala em seu plano de governo de uma “mentira que a esquerda repete” de que apenas ela “cuida dos pobres”. Nessa linha, defende o Auxílio Brasil — nome dado ao Bolsa Família durante o governo de Jair Bolsonaro — e afirmou que vai “manter os programas sociais existentes, com aperfeiçoamento da gestão e combate às fraudes”. A ideia de ampliar a autonomia econômica também aparece quando os dois tratam de empreendedorismo. O plano de Flávio aposta na redução da burocracia e do crédito. No programa de Lula, o empreendedorismo é apresentado como uma ferramenta de inclusão produtiva, com atenção específica a jovens e mulheres e previsão de linhas de crédito para diferentes públicos. Na infraestrutura, os dois programas tratam o investimento como uma forma de impulsionar o desenvolvimento. Flávio prevê R$ 900 bilhões em quatro anos para rodovias, ferrovias, hidrovias, portos e aeroportos, além de projetos de mobilidade urbana, com forte participação da iniciativa privada por meio de concessões e parcerias público-privadas. Lula aposta na continuidade do Novo PAC, com obras de “infraestrutura logística”. No campo, a aproximação passa pela combinação entre produtividade, tecnologia e sustentabilidade. O plano de Flávio cita conectividade rural, rastreabilidade, seguro, irrigação, biocombustíveis e pagamento por serviços ambientais, além de defender a bioeconomia como forma de gerar renda a partir da floresta preservada. Lula também propõe modernizar a agricultura e a pecuária, ampliar pesquisa, conectividade e biotecnologia e estimular práticas sustentáveis, com destaque para agricultura familiar, agroecologia e produção orgânica.
De Bolsa Família a IA na saúde, os pontos de convergência entre os planos de Lula e Flávio
Candidatos de PT e PL apresentam visões distintas sobre o papel do Estado, mas coincidem em propostas para proteção social, cuidados, saúde digital, infraestrutura e empreendedorismo







