Há uma ironia histórica em curso na economia mundial que merece ser contada com calma. Durante três décadas, o mundo em desenvolvimento foi catequizado por uma cartilha batizada com o nome da capital norte-americana: o Consenso de Washington. Privatize, abra, desregule, deixe o mercado escolher os vencedores – e o desenvolvimento virá como consequência natural. Pois bem, em 2026, quem menos acredita nessa cartilha é justamente Washington. Os Estados Unidos tarifaram, subsidiaram, bloquearam exportações de tecnologia, compraram participações em empresas estratégicas e agora discutem abertamente a criação de um fundo soberano de investimento industrial. A Europa, tradicional guardiã das regras de livre concorrência, aprovou pacotes bilionários de subsídios verdes e digitais e impôs tarifas sobre carros elétricos chineses. O que emerge dessa grande reviravolta não é um novo Consenso de Washington, como muitos têm chamado. É, na prática, a vitória intelectual do Consenso de Pequim, a constatação de que estrutura produtiva importa, que o Estado precisa investir e coordenar, e que nenhuma potência sobrevive terceirizando sua indústria.
O velho consenso
Vale recuperar o ponto de partida. O termo “Consenso de Washington” foi cunhado por John Williamson, em 1989, para sistematizar o receituário que o Fundo Monetário Internacional, o Banco Mundial e o Tesouro dos EUA recomendavam às nações em desenvolvimento: disciplina fiscal, liberalização comercial e financeira, privatizações, desregulamentação, proteção fraca à indústria nascente e a crença de que a melhor política industrial é não ter política industrial. A tese de fundo era ricardiana. Cada país deveria especializar-se em suas vantagens comparativas estáticas. Se a vocação da periferia era exportar soja, minério e petróleo, que assim fosse – o mercado mundial cuidaria do resto.







