No momento em que surgem novos detalhes sobre a complexa operação para debelar uma ameaça atribuída ao Irã contra o presidente dos EUA, Donald Trump, que envolveu uma troca de aeronaves e o uso de jornalistas como “isca”, algo parece cada vez mais nítido: o republicano é um alvo preferencial da República Islâmica, talvez como nenhum de seus antecessores nas últimas cinco décadas. E embora faça piada diante das câmeras, é um cenário que preocupa sua equipe de segurança. Inicialmente, a Casa Branca criou um roteiro peculiar para explicar por que o presidente não retornaria da Turquia, onde em julho participou da cúpula da Otan, no jato presenteado pelo governo do Catar — uma “oportunidade” para que as tropas americanas no Reino Unido conhecessem a nova aeronave, e também um voo “pelos velhos tempos” no avião antigo, disse Trump, se referindo a um equipamento que desprezava publicamente. Mas a imprensa dos EUA relatou que a história real era bem diferente. Segundo o Wall Street Journal, antes de Trump embarcar para a Turquia, Israel alertou os americanos sobre um plano do Irã contra o presidente. Com o passar do tempo, novas informações foram relatadas especialmente sobre o potencial uso de um lançador portátil de mísseis contra o Air Force One. Uma pessoa foi avistada com o que parecia ser esse armamento nos arredores do encontro. Os iranianos, conta o New York Times, sabiam em qual hotel e em qual andar estava hospedado o americano em Ancara. Elementos suficientes para dar início ao plano cinematográfico de fuga. Aos olhos do mundo, Trump entrou na versão antiga do avião presidencial, assim como assessores, secretários de governo e o pool de jornalistas que acompanhou a Ancara. Contudo, o presidente foi retirado da aeronave em um caminhão pantográfico, o mesmo usado para levar alimentos a bordo, e transportado para um avião de apoio, onde seguiu viagem para o Reino Unido com alguns assessores e o secretário de Defesa, Pete Hegseth. — A gente pode dizer que a Casa Branca mentiu para o público e os jornalistas sobre o que estava passando, e eles não disseram a verdade mesmo em retrospectiva — disse o jornalista da agência Reuters Gram Slattery, que estava à bordo, em entrevista à correspondente da TV Globo em Washington, Raquel Krähenbühl. No Reino Unido, Trump surgiu do Air Force One antigo como se tivesse viajado ali, e todos embarcaram (de verdade) para Washington a bordo do avião doado pelo Catar. Em conversa com os jornalistas, disse que as persianas ficaram fechadas porque aquele era “um voo perigoso por causa dos canalhas com quem temos que lidar", antes de compartilhar os riscos de seu trabalho com a imprensa. — Mas se eu for, você vai, certo? — disse ele, em uma aparente referência às ameaças contra sua vida. — Talvez um dia você queira mudar de profissão. Na terça-feira, ele confirmou a história, mas amenizou o grau do perigo. — Eles queriam que eu fosse em um voo diferente, em outra aeronave, com o mesmo nível de segurança, mas queriam que eu fizesse isso. Então eu faço. Eu faço o que eles dizem — declarou. — Na verdade, acho que o avião em que voei corria um risco maior, porque acredito que esse seria o avião que eles provavelmente escolheriam como alvo. Trump não é o primeiro, e provavelmente não será o último presidente americano a sofrer ameaças contra sua vida. Mas em seu caso, a permanência de seu nome no topo da lista da República Islâmica do Irã acrescenta uma camada a mais de alerta. No primeiro mandato, o republicano rasgou um acordo internacional sobre o programa nuclear iraniano, em 2018, e dois anos depois autorizou o assassinato do general Qassem Soleimani, chefe da divisão exterior da Guarda Revolucionária, em Bagdá. A ação foi respondida com mísseis contra uma base usada pelos americanos no Iraque, mas um ataque direto contra Trump parecia questão de honra em um regime onde a linha dura, menos afável ao diálogo com o Ocidente, ganhava protagonismo. Dois anos depois, o Departamento de Justiça revelou um plano para assassinar Trump, à época candidato à Presidência, envolvendo um cidadão paquistanês com laços com a Guarda Revolucionária, Asif Merchant. Naquele processo eleitoral, ele foi baleado em um comício na Pensilvânia, mas o atirador, Thomas Crooke, parecia ter motivações políticas próprias, não relacionadas com Teerã. Também em 2024, as autoridades americanas acusaram Farhad Shakeri, um cidadão afegão residente nos EUA, de agir a serviço da Guarda Revolucionária para elaborar outro plano de assassinato contra Trump. Em depoimentos, Shakeri disse que a ordem era para que esperasse até depois das eleições de novembro: a Guarda Revolucionária acreditava que o republicano seria derrotado por Kamala Harris e, por isso, sua segurança seria afrouxada. Um dos assassinos recrutados por Shakeri também foi condenado por planejar a morte da ativista Masih Alinejad, outra desafeta de Teerã. De volta à Casa Branca, o presidente chegou a dizer, em fevereiro do ano passado, que iria “obliterar” o Irã se fosse morto, e que havia deixado ordens de ataque para seu vice, JD Vance. O envolvimento na guerra de 12 dias entre Teerã e Israel, em junho de 2025, e a ofensiva iniciada em fevereiro, que contou com o assassinato do líder supremo Ali Khamenei, elevou a temperatura e o tom dos discursos. Em julho, quando a trégua no Golfo parecia ter chegado ao fim, os comentários de Trump sobre os riscos à sua vida ficaram mais recorrentes. Ele relembrou, em ao menos duas ocasiões, as ordens para Vance, repetia aos jornalistas e assessores que era o “alvo número um” do regime, e dizia que não levava as ameaças a sério. Em paralelo, serviços de segurança passaram a lidar com mais detalhes sobre planos para eliminá-lo: um vídeo narrado em persa e intitulado "Onde Matar Trump?", obtido pelo Serviço Secreto, no mês passado, mostrava rotas usadas por ele na Flórida e em Nova York. — Ele afirmou que “ninguém me disse quão perigoso é ser presidente e, se tivessem dito, provavelmente eu não teria concorrido” — relatou um funcionário da Casa Branca, em condição de anonimato, à rede BBC.