O país precisa urgentemente de uma nova força política a vir do âmago da sociedade civil inconformada 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Jovens na universidade — Foto: Brenno Carvalho / Agência O Globo/30/04/2026 A democracia, em sua vertente civilizatória, firma pacto político intergeracional: aos mais velhos cumpre o trabalho diário pelo aprimoramento qualitativo das instituições, de forma a viabilizar um futuro melhor aos mais jovens. Tal ciclo virtuoso — selado entre vínculos de consciência e responsabilidade cívica — eleva a democracia como instrumento de realização do bem comum, do crescimento econômico, do desenvolvimento humano, da evolução social e cultural do povo. Em sua dinâmica estrutural, o sucesso de uma geração política é medido por sua herança institucional ao país. Nossos pais cumpriram com seu dever, entregando um Brasil melhor. A imagem de Ulysses Guimarães empunhando a Constituição é o símbolo de uma geração que acreditou na retomada institucional e no restabelecimento do regime das liberdades constitucionais como vias de construção de um país mais justo, próspero e com oportunidades a todos os brasileiros. Apesar dos trancos e solavancos naturais de processos políticos complexos, os artífices da redemocratização conseguiram colocar o país em nível institucional mais alto, especialmente após debelarem a inflação galopante com o sucesso do Plano Real. Em homenagem às conquistas do passado, a estabilidade econômica deveria ser marco inegociável diante do populismo demagógico da irresponsabilidade fiscal. Infelizmente, entre sinuosidades da vida política, divergimos do caminho da prosperidade. A governança pequena e mesquinha retomou as rédeas de condução da República, vilipendiando-a. Em vez da riqueza coletiva, elegemos a pobreza individual. Em vez da razão de pensar o país, optamos por erro e estupidez. Em vez da decência, ganhou a corrupção. Em vez do império da lei, erigimos a injustiça ostensiva. Em vez do ensino, entregamos ignorância. Em vez da segurança pública, decaímos na violência urbana. Os fatos estão aí; bastam olhos de ver. É triste admitir, mas a geração atual (de que faço parte) não tem assumido sua responsabilidade política com o país. A dualidade eleitoral tacanha entre Lula e Bolsonaro é sintoma do brete em que nos metemos. Iremos às urnas com a certeza de que o voto não resolverá nossos problemas. Tal situação é absolutamente frustrante, fragilizando o ideal democrático e sua força transformadora no imaginário popular. A retomada do crescimento e da prosperidade não acontecerá por milagres. Política séria é trabalho diário, é capacidade de decisão, é habilidade de construção de consensos, é autoridade, sem rabo preso, para agir com independência e espírito público. Portanto, o país precisa urgentemente de uma nova força política a vir do âmago da sociedade civil inconformada, pressionando a política de fora para dentro. Não há outra solução possível. O dever é nosso. Chega de fazer de conta que não é conosco. Chega de querer o bônus da democracia sem o ônus da responsabilidade. Objetivamente, o Brasil é frágil e vulnerável porque não temos projeto de inserção geopolítica nem agenda de desenvolvimento nacional. O país é uma bagunça. O improviso nos governa. O povo sofre. Assim é porque temos um poder econômico pacato e subalterno. Não exerce sua liderança. Aceita o desmando. Cala quando deveria falar. Elege a inércia, e não a ousadia transformadora. Por tudo, a tendência é que nossos filhos recebam um país institucionalmente mais baixo, com a democracia em descrédito e a economia gravemente avariada. Tal cenário desolador não é uma condenação perpétua. Democracia é possibilidade de mudanças. Para tanto, o caminho é um só: a elite econômica assumir sua responsabilidade com o país, vindo a ocupar o vácuo de poder atual e, ato contínuo, substituir o insustentável modelo socialista estatizante por um vigoroso capitalismo de oportunidades a todos os brasileiros. *Sebastião Ventura Pereira da Paixão Jr., advogado, é presidente do Instituto Millenium