Estímulo à economia atingiu 1,1% do PIB no primeiro semestre, agravando endividamento público 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 O presidente Lula e o ministro Dario Durigan no anúncio do novo Desenrola — Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil As “bondades” eleitoreiras que o governo anunciou desde o ano passado já resultaram, só no primeiro semestre, em estímulo à economia de R$ 149 bilhões (ou 1,1% do PIB) na forma de empréstimos ou linhas de crédito. O valor, calculado pela consultoria BRCG a pedido da reportagem do GLOBO, representa quase tudo que o governo concedeu em medidas dessa natureza no ano passado. Como o dinheiro é emprestado a taxas mais baixas do que as pagas pelo Tesouro ao captar recursos no mercado, a generosidade resulta em prejuízo aos cofres públicos. Além disso, o estímulo exerce pressão sobre a inflação, obrigando o Banco Central a manter os juros mais altos do que seria necessário em condições de equilíbrio — e forçando o governo a pagar ainda mais pelo dinheiro que toma emprestado. Tudo somado, a má gestão financeira deverá aumentar a dívida pública em 10 pontos percentuais do PIB ao longo dos quatro anos do atual mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O cálculo da BRCG leva em conta novas linhas de crédito, ampliação de existentes, aportes a fundos garantidores e programas emergenciais. São medidas classificadas como parafiscais, pois não entram no cálculo das metas previstas no arcabouço fiscal, que consideram receitas do governo menos despesas, sem contar despesas financeiras. É verdade que nem todo o crédito anunciado pelo governo acaba contratado. O Move Brasil, destinado à compra de carros novos por taxistas e motoristas de aplicativos, até agora só concedeu pequena parte do dinheiro disponível. Mas, quando os créditos são concedidos, representam perda para a União. A frequência irresponsável com que o presidente Lula tem recorrido a tal instrumento revela seu descaso com a dívida pública. Em março, o governo retomou o programa de crédito barato do BNDES para empresas exportadoras. Em abril, ampliou o Minha Casa, Minha Vida, criou financiamento para empresas aéreas, anunciou crédito para máquinas e implementos agrícolas e aumentou o programa para compra de ônibus e caminhões. Começou maio com renegociação de dívidas para famílias, estudantes com débitos no Fies, agricultores e empresários de micro e pequenas empresas e seguiu com corte de juros para reformas habitacionais e crédito para segurança pública. De lá para cá, lançou o Move Brasil e o programa de renegociação de dívidas para quem está em dia com as prestações. Programas que não puderam ser executados no primeiro semestre, como esta última renegociação de dívidas em dia, não entraram na estimativa. Também ficaram fora o fim da “taxa das blusinhas” e “bondades” concedidas por outro meio que não empréstimos. O custo total da incúria fiscal de Lula é, portanto, ainda maior. Ainda que algumas medidas possam se justificar — nenhum governo ficaria inerte depois do tarifaço americano contra exportações brasileiras —, a resposta de emergência deveria ser calculada para evitar danos maiores à economia. Um governo responsável adotaria as medidas cabíveis, cortando verbas de outros programas ou cancelando lançamentos previstos. Não foi o que aconteceu. Pelo contrário. Lula pisou fundo no acelerador. As “bondades” eleitoreiras agravam a crise fiscal que o próximo presidente, seja quem for, herdará. A saúde dos cofres públicos deveria ser assunto central na campanha eleitoral.