Após terremoto de magnitude 7,4 na Colômbia, tremores foram sentidos em Manaus; sismos também são comuns no país apesar da posição tectônica 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Abalos sísmicos de pequeno porte são comuns no Brasil, apesar de posição central na placa tectônica da América do Sul — Foto: Pexels O terremoto de magnitude 7,4 desta segunda-feira na Colômbia também foi sentido no Brasil. Nas redes sociais, moradores de Manaus (AM), a cerca de 1.700 quilômetros de distância do epicentro, em San José del Palmar, relataram captar efeitos do tremor, que já causou 224 mortes, segundo a agência de notícias Reuters. Apesar de o assunto não ser tão discutido no país, abalos sísmicos acontecem no Brasil com relativa frequência. Levando em consideração a posição do país, ao centro da placa tectônica sul-americana, o Brasil fica distante das "zonas de subducção", consideradas por especialistas como as áreas mais suscetíveis a sofrer os efeitos de terremotos. No entanto, eventos sísmicos originados por outros mecanismos também podem ocorrer, como explica o geofísico do Serviço Geológico do Brasil (SGB) Marcos Ferreira. Em uma busca no Observatório Sismológico da Universidade de Brasília (UNB), é possível identificar que 416 tremores de terra aconteceram no Brasil entre o início de agosto de 2025 e esta terça-feira. Os abalos sísmicos de pequeno porte se espalham por todo o país, com epicentros em Porto Alegre, Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, Bahia, Mato Grosso, Pará e outros estados. Nenhum dos tremores, no entanto, chegou aos 4 pontos na Escala Richter, nível em que são percebidos ruídos e oscilações dos objetos. E mesmo quando os tremores não têm origem em solo brasileiro, ainda é possível sentir sismos com origem em países vizinhos, em caso de alta intensidade. Segundo o professor Francisco Dourado, do Centro de Pesquisas e Estudos sobre Desastres da Universidade estadual do Rio (Uerj), ondas sísmicas se "propagam por todo o planeta". — Toda vez que ocorre um terremoto, as ondas sísmicas se propagam por todo o planeta. Na maioria dos casos, os terremotos são tão fracos que quase ninguém os sente, mesmo estando bem próximos aos seus epicentros, e apenas sensores chamados sismômetros conseguem registrá-los. Quando um terremoto é muito forte, essas ondas podem ser sentidas a milhares de quilômetros de distância e, no caso do terremoto na Colômbia, ele foi tão forte que chegou a ser sentido em Manaus — comenta. O professor aposentado da Universidade de Brasília (UnB) e sismólogo Juraci de Carvalho reitera a importância da preparação e discussão a respeito de abalos sísmicos, mesmo sem ameaças de terremotos mais potentes no país. — Bom, no Brasil, pela cultura de achar que não tem terremoto, também não temos nenhuma educação nesse sentido. Nas escolas, ninguém fala sobre esse assunto, não fazemos exercício de forma nenhuma, então, se acontecer algum tremor de terra em qualquer lugar do país, provavelmente a população vai estar despreparada — diz o professor. Juraci destaca que, além da falta de preparo, a alta densidade populacional também é um problema em regiões que sofrem com abalos sísmicos. Citando o único caso de tremor de terra que resultou em morte no país, na comunidade de Caraíbas, zona rural de Itacarambi em Minas Gerais, em 2007, e um dos abalos sísmicos mais fortes a atingirem o país, em 1955, o professor ressalta que, hoje, tremores como esses poderiam causar ainda mais problemas. — Existem sismos históricos que, se voltarem a acontecer, podem trazer problemas. Nós temos agora uma área muito densa e mesmo um sismo de magnitude pequena pode ser problemático. Segurança em abalos sísmicos Há cerca de dois meses, em 24 de junho, a Venezuela foi atingida por dois terremotos de magnitude 7,2 e 7,5 — os mais mortais desde 1812. Segundo balanço divulgado pelo governo venezuelano nesta segunda-feira, 6.301 pessoas morreram em decorrência dos eventos sísmicos e mais de 73 mil precisaram de atendimento hospitalar. Na Colômbia, o tremor foi de 7,4 pontos na Escala Richter. Em caso de reverberações no país ou tremores internos da placa sul-americana, existem orientações claras a serem seguidas. De acordo com um guia elaborado pela Universidade de São Paulo (USP), os locais abertos são os mais seguros em situações como essas, principalmente longe de edifícios altos. Caso não haja possibilidade de deixar locais fechados, o manual indica que os locais mais seguros são embaixo de vãos de portas, debaixo de mesas ou camas. Além disso, focos de incêndio e qualquer tipo de conduta pouco planejada são considerados perigosos em situações como essas. O SGB reforça que, em caso de terremotos, a população deve se afastar de janelas, vidros e objetos que possam cair; sair de edifícios com calma, sem correr ou provocar tumulto, dirigindo-se para um local aberto e seguro. O uso de elevadores durante e logo após o tremor também não é recomendado. Engenharia atuando na prevenção de tragédias O Serviço Geológico do Brasil afirma ainda que não é possível prever quando, onde e com qual magnitude um abalo sísmico ocorrerá por ser um fenômeno natural relacionado a falhas geológicas e tensões entre placas tectônicas. Há locais mais suscetíveis à ocorrência de sismos devido às características geológicas e ao contexto tectônico, como a região Norte por sua proximidade com zonas sismicamente ativas que possuem terremotos com magnitudes elevadas, como o Peru, Colômbia e Venezuela. Na Região Sudeste, também é comum a percepção de terremotos que ocorrem no Chile, especialmente aqueles com magnitudes acima de 7.5. Em alguns países, há sistemas de alerta que detectam as primeiras ondas sísmicas logo após o início do evento e emitem avisos que podem chegar alguns segundos antes das ondas de maior vibração. Na tentativa de prevenir desastres ainda piores, o professor Francisco Dourado também lembra que as edificações podem ser aliadas para prevenir tragédias. Nos terremotos que atingiram a Venezuela em junho, mais de 58 mil edifícios foram afetados. Segundo o especialista, construções que absorvem as movimentações do solo são os mais eficientes na resistência a terremotos. — O primeiro passo é saber onde os terremotos mais fortes podem acontecer. Para isso, geólogos estudam e monitoram as áreas com algum histórico de sismos. Depois de saber que tipo de terremoto e qual a intensidade máxima que pode chegar na região, os engenheiros podem projetar edificações que absorvam os movimentos causados pelos terremotos, assim evitando que eles caiam. O objetivo desses projetos não é que o edifício resista aos movimentos, o que poderia causar a sua destruição, e sim que ele absorva os movimentos evitando que ele "quebre" em pedaços — afirma Francisco. (*Estagiário sob supervisão de Alfredo Mergulhão)