O Ministro das Relações Exteriores do Brasil, Mauro Vieira, estava em Cali, na Colômbia, participando da posse do Presidente Abelardo de la Espriella em nome do Presidente Lula da Silva.Ele fez uma pausa para uma longa conversa telefônica com o Clarín. Durante o diálogo, o ministro, que foi embaixador do Brasil na Argentina, abordou a crise tarifária com os EUA e, em particular, os danos à relação bilateral com a Argentina causados ​​pelos discursos agressivos do Presidente Javier Milei.Ele disse que para resolver esta crise é necessário "apenas um pequeno gesto, dada a importância das relações": "A agressão precisa parar". Ele também compartilhou sua perspectiva sobre as guinadas à direita na região, defendeu a natureza "capitalista" do modelo econômico de Lula e questionou a pressão dos EUA para limitar a influência comercial e financeira da China no subcontinente.O que está acontecendo? O Brasil e os EUA tinham restabelecido relações; houve encontros entre os dois presidentes, mas agora Washington suspendeu o visto da embaixadora brasileira?Bem, sem dúvida, isso faz parte da ofensiva para interferir nas eleições. É verdade que houve dois encontros entre os presidentes, um com duração de uma hora em Kuala Lumpur e outro de três horas em Washington. Muitos tópicos foram discutidos, incluindo questões comerciais e a resolução das tarifas impostas especificamente ao Brasil.A relação agora se deteriorou novamente, e parece que ficou mais grave…O episódio atual tem origem no fato de que eles enviaram ao Congresso americano o nome de um candidato para o cargo de embaixador no Brasil. Os Estados Unidos estavam sem embaixador no Brasil há mais de um ano e meio, e não pareciam preocupados com isso, mas, de repente, enviaram um candidato ao Senado. E trinta dias depois consultaram o governo brasileiro, de forma pública, o que, do ponto de vista diplomático e político, viola a Convenção de Viena. A consulta deve ser sigilosa, e não pública. Isso também ocorreu em meio a comentários de autoridades americanas e do Departamento de Estado sobre o sistema eleitoral brasileiro, a pedidos de visitas ao Brasil e ao ex-presidente (Bolsonaro), que está preso. Foi demais. A suspensão da embaixadora brasileira teve como objetivo pressionar a aceitação desse candidato, mas a Convenção de Viena não estabelece prazos para a concessão do placet. Nós nem sequer levamos a questão ao presidente Lula porque ele está muito ocupado a dois meses das eleições.Tudo isso é uma iniciativa do seu colega Marco Rubio ou é uma política de Estado?É todo o governo americano, incluindo Marco Rubio. Conversei com ele diversas vezes, duas delas em Washington, e discutimos essas questões que, lembremos, começaram com a tentativa de obstruir o julgamento contra o ex-presidente (Jair) Bolsonaro, que liderou uma tentativa fracassada de golpe. Esse golpe militar incluía o assassinato do presidente eleito e de um membro do Supremo Tribunal Federal. A interferência começou aí, com sanções e pedidos ao governo brasileiro exigindo que cessasse o processo judicial contra o ex-presidente, algo que não pode ser feito no Brasil porque os poderes são independentes.Vocês consideram que o presidente Milei, com seu ataque a Lula e ao Supremo Tribunal Federal, agiu a pedido de Washington?Isso eu não sei. Não sei quais são os contatos do presidente Milei com o governo dos Estados Unidos. O que eu posso dizer é que a situação bilateral entre o Brasil e a Argentina chegou ao ponto em que está, administrada por encarregados de negócios, devido aos ataques do presidente argentino não só contra indivíduos, mas também contra o Brasil, as instituições brasileiras, seus poderes e o juiz do Supremo Tribunal Federal que teve um papel fundamental para impedir um golpe militar e punir os responsáveis. E o presidente Milei não fez isso apenas uma vez, mas em diversas ocasiões em menos de uma semana, a primeira delas na convenção do Partido Liberal. As imagens desse evento, as palavras do presidente argentino, surpreenderam tanto brasileiros quanto argentinos... foi algo assombroso, que ele repetiu depois outras vezes.O mais importante é ressaltar que a relação entre a Argentina e o Brasil é muito importante e superior a quem está no poder em qualquer momento. O Brasil é o principal parceiro comercial da Argentina, temos programas bilaterais e mecanismos importantíssimos de longa data. Lembremos do encontro entre os presidentes Raúl Alfonsín e José Sarney nas fronteiras, que abriu uma nova era nas relações mútuas. Criamos mecanismos de transparência até na questão nuclear.O que a Argentina precisa fazer?A Argentina precisa valorizar sua relação com o Brasil da mesma forma que o Brasil valoriza a sua com a Argentina. Precisamos ser muito claros sobre isso, pelo bem dessa relação, esse tipo de agressão precisa parar imediatamente, para trabalhar no vínculo bilateral, que é tão importante. Para o governo brasileiro, a relação entre os dois países é primordial, importantíssima, e precisamos saber se o atual governo argentino pensa o mesmo em relação ao Brasil. Essas ofensas foram muito graves. Por isso, é preciso preservar essa relação, parar as agressões, e retomar o caminho da normalidade na relação binacional.Milei acusa o governo brasileiro de financiar a recente campanha internacional contra a Argentina.Isso é completamente falso. Nem precisa ser economista para entender esse absurdo sobre pagamentos de bilhões… e também as referências que ele fez sobre o ex-ministro da Fazenda argentino, que foi candidato à presidência. Ele veio ao Brasil, mas foi para se encontrar com o ministro da Fazenda brasileiro. Ele fez isso como chefe do Ministério da Economia. Não é possível dizer que, por isso, nós éramos a favor de um candidato. Isso é totalmente mentira.O senhor se refere a Sergio Massa (ministro da Economia do kirchnerismo entre 2022-2023) …Isso mesmo. Sergio Massa veio por motivos relacionados ao seu ministério e se encontrou com o ministro da Fazenda. Não é a mesma coisa. Não há equivalência entre isso e o que acabou de acontecer. Essas são invenções, não são coisas verdadeiras.Quando Julio Bitelli (embaixador brasileiro na Argentina) volta para Buenos Aires?Bom, quando cessarem as condições que levaram à sua saída, assim como à saída do embaixador (Guillermo Daniel) Raimondi (embaixador argentino no Brasil), que eu conheço há 30 anos, um diplomata ilustre. É preciso um gesto: parar a agressão. É um gesto simples, dada a importância das relações bilaterais.O senhor gostaria de visitar a Argentina…Ter a oportunidade de fazê-lo, tomara que seja em breve. Com muito prazer.Surpreende o fato de Milei e alguns líderes pró-governo nos EUA chamarem Lula de comunista?Isso faz parte das agressões. Surpreende porque o Brasil tem uma economia aberta, atualmente com a menor taxa de inflação da sua história, desemprego mínimo e um enorme comércio exterior, com enormes reservas cambiais. Um país que opera sob um modelo capitalista. O presidente Lula nunca negou nada nem quis mudar esse modelo econômico. Não sei, talvez essa seja a visão do presidente argentino.A região está se deslocando fortemente para a extrema direita. Como o Brasil está reagindo a essas mudanças?Essas mudanças são resultado das eleições em toda a região, é a decisão dos eleitores. Então não estamos preocupados, são decisões dos eleitores. Alguns jornais argentinos noticiaram que o Brasil estava isolado. Isso é falso. O Brasil tem contato enorme com todos os países da região. Eu agora estou falando com vocês de Cali, Colômbia, onde estou para a posse do presidente Abelardo de la Espriella, cerimônia à qual o presidente Lula não pôde comparecer porque as eleições vão ser daqui a alguns meses. Na semana passada, também estive presente como representante do presidente na posse da presidente peruana Keiko Fujimori. Temos excelentes relações com todos os líderes latino-americanos. O presidente chileno José Antonio Kast visitará o Brasil, e estamos definindo uma data. Nossa relação com o presidente Rodrigo Paz, da Bolívia, é excelente, e recebemos um feedback muito positivo do governo peruano sobre a continuidade da nossa relação. Encontrei-me com o vice-presidente da Colômbia, que expressou sentimentos muito positivos sobre as nossas relações, e continuaremos trabalhando com o governo colombiano. Não há isolamento; temos boas relações com todos: o presidente do Equador, com o Panamá, com a Guiana, Suriname…Os EUA estão pressionando publicamente para reduzir a influência da China, o principal parceiro comercial do Brasil, na região. Essa demanda é realista?O Brasil tem relações muito importantes com os EUA, são o nosso segundo maior parceiro comercial, e também tem relações importantes com a China. A presença da China não se limita ao Brasil, mas se estende por toda a América. O presidente Lula está implementando uma política de presença em todos os continentes, com um comércio equilibrado. O comércio com o Sudeste Asiático, por exemplo, está crescendo enormemente, assim como o comércio com a Europa. Não temos dúvidas sobre a importância de relações com todos os países.Mas a política de sanções comerciais também iria nessa direção…Considero que uma política de pressão e sanções não é útil, o que funciona é a negociação. O Brasil sempre foi favorável a negociações e acordos, tanto com aqueles com quem compartilhamos posições quanto com aqueles com quem temos divergências. A imposição de sanções não é útil, é preciso sempre ter em mente o interesse nacional, e é isso que defendemos. Lula não se interessa pela política de outros países. Como chefe de Estado, ele está aberto ao diálogo e à negociação com todos os países, independentemente da posição política de cada um. Não é crível que uma ação punitiva melhore a posição em uma negociação.Os Estados Unidos parecem discordar e se uniram à família do ex-presidente Bolsonaro nesse sentido.Eles já foram responsabilizados no Brasil e devem responder por crimes de alta traição e de lesa-pátria. São responsáveis ​​pela campanha que resultou nas sanções que estão causando sofrimento a empresários, capitalistas, servidores públicos e trabalhadores que estão perdendo seus empregos. O governo brasileiro implementou programas para proteger os setores mais afetados. Quanto à família Bolsonaro, lembro que dois deles já foram condenados: um pelo Supremo Tribunal Federal (o ex-presidente Jair Bolsonaro) e o outro (Eduardo, irmão do candidato presidencial Flávio), que está nos Estados Unidos. Ele perdeu sua cadeira na Câmara dos Deputados. No Brasil, ele será processado por declarações e ações atacando o país.Se ele (Trump) perder as eleições legislativas, talvez isso tenha algum efeito sobre a política tarifária e ela seja flexibilizada. Todos os países da região estão enfrentando dificuldades com isso, incluindo a Argentina, e o Brasil também. Todos nós estamos sofrendo o impacto das tarifas americanas.Perfil: Mauro Luiz Lecker Vieira, nascido no Rio de Janeiro em 1951, é um diplomata de carreira brasileiro, formado no renomado Instituto Rio Branco. Sua extensa biografia destaca seu trabalho como embaixador nos Estados Unidos de 2010 a 2015 e, antes disso, na Argentina, de 2004 a 2010. Atualmente, ocupa o cargo de Ministro das Relações Exteriores no governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Anteriormente, ocupou o mesmo cargo durante o breve segundo mandato da ex-presidente Dilma Rousseff, do PT. Vieira foi posteriormente nomeado Representante Permanente do Brasil nas Nações Unidas, cargo que ocupou durante o governo de Jair Bolsonaro até 2023.Ping-pong: * Que livro o senhor está lendo?“Los ingenieros del Caos, de Giuliano da Empoli.”* Filmes favoritos?“Sempre gostei do cinema latino-americano contemporâneo.” E cita o filme argentino Relatos Selvagens e a adaptação cinematográfica de Parque Lezama. Acrescenta: "Estou gostando muito da série El Encargado com Guillermo Francella, no streaming."* Comida e bebida?“Um bom vinho e um bom churrasco.”* Período histórico?“Para um diplomata, é sempre o presente e seus desafios.”* Personagem favorito?“A sociedade brasileira, personagem coletivo que defendeu a democracia contra um golpe militar.”