Avanço das APIs e surgimento de novas camadas de tecnologia reduzem barreiras para que ERPs, fintechs, contabilidades e sistemas de gestão utilizem dados financeiros sem desenvolver toda a infraestrutura internamente 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Divulgação — Foto: Divulgação O Open Finance brasileiro está passando por uma nova etapa. Depois de avançar entre bancos, fintechs e consumidores, o ecossistema começa a se tornar mais acessível também para empresas de tecnologia que querem incorporar informações financeiras aos seus próprios produtos e serviços. A mudança está relacionada não apenas à expansão do sistema, mas ao surgimento de novas soluções que funcionam como uma camada intermediária entre a infraestrutura regulada do Open Finance e softwares usados diariamente pelas empresas. Na prática, isso significa que ERPs, sistemas de gestão financeira, plataformas contábeis e outras aplicações podem começar a utilizar dados bancários sem necessariamente desenvolver internamente toda a arquitetura necessária para se conectar ao ecossistema. O movimento acontece em um momento de amadurecimento do Open Finance no país. Dados do painel oficial do ecossistema mostram que o Brasil já ultrapassou a marca de 200 milhões de consentimentos ativos para compartilhamento de informações financeiras em 2026. Em agosto de 2025, o Banco Central também informava que cerca de 65 milhões de contas já estavam conectadas ao sistema. Mais do que o crescimento em volume, a evolução abre espaço para uma nova discussão no mercado: como transformar a infraestrutura criada pelo Open Finance em aplicações efetivamente incorporadas à rotina das empresas. Da infraestrutura financeira para os softwares do dia a dia O compartilhamento de informações no Open Finance ocorre por meio de APIs, interfaces que permitem que diferentes sistemas se comuniquem de maneira padronizada e segura. Embora esse modelo tenha criado novas possibilidades para o mercado financeiro, desenvolver uma integração diretamente com essa infraestrutura pode exigir equipes especializadas, manutenção constante e conhecimento sobre requisitos técnicos e regulatórios. Para Marcelo Braga, CEO da Polp, empresa de tecnologia que simplifica o acesso de outras companhias à infraestrutura do Open Finance, o amadurecimento do mercado começa justamente a mudar essa dinâmica. "Durante os primeiros anos do Open Finance, boa parte da discussão estava concentrada na construção da infraestrutura e na participação das instituições financeiras. Agora começamos a entrar em uma fase diferente, em que o desafio é fazer essa infraestrutura chegar às aplicações que as empresas já utilizam", afirma. É nesse espaço que começam a crescer empresas especializadas em transformar a complexidade técnica do Open Finance em APIs que possam ser incorporadas por outros softwares. A lógica se aproxima do movimento já observado em outros segmentos da tecnologia: em vez de cada empresa desenvolver internamente determinada infraestrutura, fornecedores especializados passam a oferecê-la como um serviço integrado aos produtos existentes. Open Finance como infraestrutura, e não necessariamente como produto Uma das empresas que atua nesse modelo é a Polp, plataforma brasileira que disponibiliza uma API de Open Finance para que outras companhias possam integrar informações financeiras às próprias soluções. Em vez de o usuário precisar acessar diretamente uma aplicação da Polp, a tecnologia pode funcionar nos bastidores de ERPs, fintechs, plataformas de gestão, sistemas contábeis e outros softwares. A partir da integração, essas empresas podem consumir informações bancárias autorizadas pelo usuário e utilizá-las dentro de seus próprios produtos, seja para conciliação financeira, análise de fluxo de caixa, automação contábil ou desenvolvimento de novos serviços. Segundo Braga, essa mudança pode ampliar significativamente o número de empresas capazes de desenvolver soluções baseadas no Open Finance. "O Open Finance não precisa ser um produto isolado que o usuário acessa. Ele pode ser uma infraestrutura invisível por trás do ERP, do sistema financeiro ou da plataforma contábil que a empresa já usa todos os dias. Quando reduzimos a complexidade da integração, mais empresas conseguem experimentar e criar produtos a partir desses dados", explica. A Polp, por exemplo, desenvolveu uma camada de tecnologia que recebe informações financeiras por meio do Open Finance e permite que outros sistemas as consumam através de uma única API. A companhia também trabalha com tratamento e categorização das informações recebidas, facilitando sua utilização pelas aplicações conectadas. Pequenas empresas de tecnologia entram na equação A simplificação também pode ter efeito sobre o perfil das companhias capazes de trabalhar com esse tipo de infraestrutura. Até pouco tempo atrás, desenvolver produtos conectados ao sistema financeiro costumava ser uma iniciativa mais concentrada em grandes bancos, fintechs ou empresas com equipes robustas de engenharia. Com APIs especializadas e modelos de infraestrutura como serviço, empresas menores passam a ter um caminho mais curto para incorporar funcionalidades financeiras aos produtos. Um software de gestão voltado a pequenas empresas, por exemplo, pode utilizar dados bancários para automatizar conciliações. Uma plataforma contábil pode receber movimentações financeiras diretamente dentro do sistema. Já uma fintech pode utilizar as informações como parte da análise financeira de seus clientes. "O efeito mais interessante dessa evolução é que a empresa não precisa se transformar em especialista em Open Finance para conseguir utilizá-lo. Um desenvolvedor pode integrar a API ao produto que já existe e concentrar seus esforços na experiência que quer entregar ao cliente", diz Braga. Na avaliação do executivo, a tendência é que o próprio termo Open Finance se torne menos perceptível para o usuário à medida que a tecnologia amadurece. "Quando uma infraestrutura realmente se populariza, o usuário deixa de pensar nela. Ele não quer necessariamente 'usar Open Finance'; quer abrir o sistema de gestão e encontrar as contas conciliadas, ter uma visão financeira melhor ou automatizar uma tarefa. O Open Finance passa a ser a tecnologia que torna isso possível por trás da experiência", completa. Com um ecossistema cada vez maior e novas empresas desenvolvendo camadas sobre as APIs existentes, o próximo estágio do sistema financeiro aberto brasileiro pode estar justamente fora dos aplicativos bancários: incorporado aos softwares e ferramentas que empresas utilizam diariamente.