Em vez de procurar milagres nos céus ou tentar decifrar os desígnios do Universo, a peça "Meu Deus!" prefere fazer uma pergunta bem mais prática: o que acontece quando o próprio Criador entra em crise e resolve ir ao psicólogo? Escrita pela dramaturga israelense Anat Gov (1953–2012) e em cartaz no Teatro das Artes, no Shopping Eldorado, a comédia dirigida por Elias Andreato coloca Deus frente a frente com uma terapeuta exausta em uma sessão de emergência de 80 minutos.

Na trama, o Criador surge sob o apelido "D", interpretado por Sergio Guizé. Abatido por uma depressão que já dura dois milênios, ele está cansado das cobranças humanas e desiludido com o rumo da civilização, a ponto de cogitar um fim definitivo para a sua obra. Do outro lado da sala está Ana, vivida por Bianca Bin. Mãe solo de Paulo, papel de Enzo Morente, um jovem no espectro autista, a terapeuta equilibra uma rotina exaustiva com um ateísmo pragmático, adotado quase como uma defesa contra as decepções do cotidiano.

A partir desse encontro improvável, a peça inverte a lógica tradicional da fé. A figura que historicamente ouve as preces e lamentações agora precisa ser ouvida. Sem recorrer a dogmas, catequese ou pregações, o diálogo avança apoiado em um humor ágil e ácido. Ao tentar convencer o paciente a não desistir do mundo, Ana acaba confrontando as próprias feridas. A escrita de Anat Gov evidencia que a crise divina é, na verdade, um reflexo da própria desorientação humana, lembrando que culpar o destino ou a providência pelas tragédias costuma ser apenas uma forma de fugir da responsabilidade ética.