O Banco Central detalha sua decisão de cortar a taxa Selic em 0,25 ponto percentual na ata do Comitê de Política Monetária (Copom) que será divulgada nesta terça-feira. Com a redução da semana passada — a quarta no ciclo de afrouxamento dos juros iniciado em março —, a Selic caiu de 14,25% para 14%, a menor taxa desde o início de 2025. Como tem feito ao longo do ciclo de queda dos juros, o BC evitou sinalizar seus planos para as próximas reuniões no comunicado que anunciou o corte para 14%. Em um ambiente volátil, marcado pela guerra no Oriente Médio, pelas eleições no Brasil e por riscos derivados do El Niño, a estratégia do comitê tem sido esperar a evolução dos dados até cada reunião antes de tomar qualquer decisão, em um movimento que o comunicado descreveu como de "serenidade e cautela". "Em decorrência da dinâmica dos riscos associados à evolução dos preços, o Comitê reafirma que a magnitude total do ciclo de calibração será estabelecida à luz de novas informações visando assegurar a convergência da inflação à meta", disse o BC na quarta-feira passada. O Copom também alterou marginalmente sua avaliação sobre atividade econômica e inflação, após resultados mais favoráveis em índices recentes. As declarações do comitê sobre o desvio das expectativas inflacionárias em relação à meta de 3% — desvio que se aprofundou nos últimos meses, principalmente nos prazos mais longos, como 2028 — também mudaram, mas o comunicado, mais sucinto que o anterior, não deu muitos detalhes sobre esse ponto. Por isso, analistas econômicos devem procurar mais informações na ata para calibrar suas expectativas para o próximo encontro do Copom, cuja decisão será divulgada em 16 de setembro. O mercado financeiro está dividido entre mais um corte de 0,25 ponto percentual, para 13,75%, ou manutenção em 14%. No comunicado, o BC reconheceu a melhora marginal em alguns indicadores, como o IPCA — indicador oficial de inflação — de junho (0,16%) e o IPCA-15 de julho (0,06%), que trouxeram surpresas favoráveis, sobretudo nos índices subjacentes, que indicam a tendência de inflação. A geração de vagas formais de emprego, segundo o Novo Caged, também deu mais confiança aos analistas sobre a desaceleração no mercado de trabalho. "O conjunto dos indicadores divulgados desde a última reunião sugere uma moderação gradual da atividade econômica, embora ainda em patamar resiliente, com sinais mistos entre setores, e mercado de trabalho aquecido. Nas divulgações mais recentes, a inflação cheia desacelerou, porém ainda acima do limite superior da meta, enquanto as medidas subjacentes desaceleraram para patamar ligeiramente abaixo do limite superior da meta", disse o BC no comunicado. O colegiado, presidido por Gabriel Galípolo, também afirmou que os indicadores correntes de atividade se mantêm consistentes com uma trajetória de desaceleração no acumulado de 2026. Por outro lado, destacou que "monitora com atenção" a desancoragem adicional das expectativas de inflação para prazos mais longos, "na medida em que esta contribui para a determinação dos preços e aumenta o custo de desinflação". Segundo a economista-chefe da Sulamérica Investimentos, Natalie Victal, a expectativa é que a ata esclareça melhor o balanço do BC entre a avaliação sobre a atividade econômica e a preocupação com a desancoragem das expectativas — ou seja, o que está pesando mais para o Copom neste momento. — A ata pode ajudar a entender como está o balanço entre as duas coisas, a intensidade da preocupação — disse a economista, que espera o documento para revisar sua projeção para a Selic, hoje de manutenção em 14%, mas com risco de viés de baixa. Silvio Campos Neto, economista e sócio da Tendências Consultoria, espera maior detalhamento sobre as visões do BC quanto a atividade, inflação e mercado de trabalho — que, segundo ele, mudaram um pouco em relação ao Copom de junho. O economista também espera que o colegiado dê alguma pista de seus planos para setembro. — A impressão que ficou pra mim é que ele ainda pretende avançar com o ciclo, embora os riscos apontados sugiram que o espaço é pequeno. Acho que o BC deveria parar a partir de agora, mas talvez ele tente ir além — disse Campos Neto, que também projeta Selic em 14% em setembro, mas reconhece que pode haver mais um corte.