Climatologista Carlos Nobre fala sobre chegada do El Niño e eventos extremos em São PauloCientista diz que governos locais estão mais preparados do que no passado. Crédito: Reportagem: Roberta Jansen; Edição: Jefferson PerlebergGerando resumoDiante da possibilidade de um El Niño de forte intensidade, o governo federal e o setor produtivo começam a reforçar medidas para reduzir os impactos sobre a agropecuária. Na semana passada, por exemplo, o governo anunciou R$ 1,335 bilhão para ações de mitigação dos efeitos climáticos. Do total, R$ 998 milhões serão destinados às áreas de abastecimento de alimentos, segurança alimentar, saúde e monitoramento hidrológico. PUBLICIDADEOutros R$ 337 milhões correspondem ao crédito extraordinário aberto pela Medida Provisória nº 1.367/26 para prevenção e combate a incêndios. A ministra da Casa Civil, Miriam Belchior, também anunciou a compra de 310 mil toneladas de arroz e 180 mil toneladas de milho para recompor os estoques públicos e reduzir riscos de desabastecimento caso a produção seja afetada.As medidas oficiais buscam reduzir os impactos econômicos e sociais de eventuais perdas na produção, mas a principal linha de defesa contra um El Niño intenso continua sendo a adaptação da agropecuária às mudanças climáticas. Essa avaliação é compartilhada pela Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura. PublicidadeEm relatório divulgado neste mês, o movimento defendeu que o agronegócio brasileiro acelere a adoção de práticas produtivas resilientes, amplie a recuperação de áreas degradadas e fortaleça seus instrumentos de adaptação aos eventos climáticos extremos.Leia tambémCusto maior, margem menor e impactos do El Niño: os desafios para o agro na safra 2026/2027Sem avanço sobre concessão de hidrovias no norte e com El Niño, ‘taxa seca’ volta ao radarSegundo a Coalizão, o uso sustentável da terra deixou de ser apenas uma estratégia ambiental e passou a ser um elemento estrutural para preparar o setor para um cenário de maior instabilidade meteorológica. A entidade também alerta que a elevada probabilidade de um El Niño de forte intensidade reforça a urgência dessas medidas.No campo, produtores também podem dispor de ferramentas capazes de reduzir os riscos climáticos. Especialistas ouvidos pelo Estadão/Broadcast Agro ressaltam, contudo, que essas tecnologias exigem planejamento e investimento, não sendo soluções que possam ser adotadas às vésperas de uma safra.PublicidadeO pesquisador da Fundação Getulio Vargas (FGV) Eduardo Assad alerta que, embora as tecnologias para enfrentar eventos climáticos extremos existam há mais de 35 anos, sua adoção é gradual e normalmente leva de três a quatro anos para produzir resultados consistentes. Mas vale a pena. Segundo ele, propriedades que investiram em práticas conservacionistas registraram perdas próximas de 15% em eventos climáticos severos, enquanto as que não adotaram medidas chegaram a perder mais de 25% da produção.Entre as principais recomendações estão o fortalecimento do sistema radicular das plantas por meio da melhoria da estrutura física do solo, a manutenção de cobertura permanente com palhada, o plantio direto de qualidade e a adoção dos sistemas de integração lavoura-pecuária (ILP) e integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF). Nas regiões sujeitas a enchentes, Assad recomenda a recomposição da vegetação como forma de reduzir os impactos provocados pelo excesso de chuvas.O uso sustentável da terra deixou de ser apenas uma estratégia ambiental e passou a ser um elemento estrutural para preparar o setor para um cenário de maior instabilidade meteorológica Foto: Tiago Queiroz/EstadãoO agrometeorologista e sócio-fundador da Rural Clima, Marco Antônio dos Santos, também defende que o setor concentre esforços na mitigação dos riscos climáticos e no planejamento das propriedades, em vez de ampliar o alarmismo em torno das previsões de um El Niño poderoso este ano. Segundo ele, o acompanhamento permanente das condições meteorológicas permite ajustar decisões de plantio, manejo e colheita conforme a evolução do clima, reduzindo parte dos impactos provocados pelo fenômeno. PublicidadeÁrea plantada pode encolherA safra de grãos 2026/27 começa a ser semeada a partir desta semana no Brasil, cercada de preocupação quanto ao El Niño, que altera o regime de chuvas, ameaçando os resultados da temporada. Com o fenômeno climático já configurado e podendo ser um dos mais intensos, produtores redobram a atenção no planejamento da safra, que pode ocupar área menor em alguns Estados e ter menos tecnologia empregada, a despeito dos riscos maiores.A alegação dos agricultores é a de que os custos de produção subiram e o cenário geopolítico, que segue instável, mantém os insumos em alta, ante preços mais baixos das commodities. No campo, os sinais das alterações climáticas começam a ser observados na safra de inverno, cujas lavouras ainda se desenvolvem: chuvas excessivas no Sul do Brasil ao longo do mês de julho lavaram o solo em regiões de trigo e levaram embora nutrientes, que precisarão ser repostos. Quanto à safra verão, as sementes de soja e milho ainda não foram lançadas na terra, mas no bolso do produtor a conta já aumentou. E pode ser maior ainda, caso um El Niño de forte intensidade se estabeleça.O diretor técnico da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil, Bruno Lucchi, afirmou que a entidade projeta área plantada igual ou menor ante 2025/26, com pressão do maior custo de produção, acomodação dos preços dos produtos agrícolas e o risco de um “super El Niño”. “É um momento crítico, com as variáveis climáticas intensas, no qual os produtores vão avaliar com cautela os investimentos na safra”, disse Lucchi. /Colaborou Guilherme Nannini, Mateus Maia e Lavínia KauczPublicidadeVale ler tambémOs arquitetos do agro: os brasileiros que ajudaram a tornar o País a referência global em alimentosBraskem rejeita proposta de empréstimo de US$ 700 milhões na reestruturaçãoValor Investimentos compra Aliança Corretora de Seguros e inaugura unidade em Limeira