Até 30 de julho, os incêndios já haviam consumido 115 mil hectares de floresta na França neste verão, um número que posiciona a tragédia como a pior desde 1949. Bombeiros cavaram mais de cem quilômetros de trincheiras. Mais de 200 mil pessoas chegaram a ser retiradas de casa desde o início da crise. Uma das regiões de vinho mais famosas do mundo, Bordeaux, está no epicentro das queimadas.

A fumaça de madeira em combustão basta para danificar o vinho, mesmo sem o fogo alcançar a videira: libera fenóis voláteis que a casca da uva absorve a distância, compostos que se prendem a açúcares da fruta e ficam escondidos até a fermentação soltá-los de novo. “Um vinho que a princípio não cheira a fumaça pode desenvolver, aos poucos, odores de chaminé, durante a fermentação ou até no envelhecimento”, disse Eric Serrano, diretor do Institut Français de la Vigne et du Vin, ao Financial Times dias atrás. “É uma bomba-relógio.”

Em 2022, outro incêndio na Gironde queimou mais de 20 mil hectares de floresta perto de vinhedos, e os piores temores não se confirmaram: testes posteriores encontraram níveis desprezíveis de compostos de fumaça na maioria das uvas, e o gosto de fumaça amplamente temido não apareceu no vinho engarrafado. A comparação inevitável é a Napa Valley de 2020, quando dezenas de vinícolas optaram por não engarrafar a safra, avaliando que o risco à reputação superava o risco real ao paladar. Bordeaux ainda não sabe em qual dos dois precedentes vai cair.