Com Europa, Japão e emergentes como Brasil e Índia sem protagonismo na inteligência artificial, as duas maiores economias do mundo buscam expandir campos de influência 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Painel na Conferência Mundial de IA, em Xangai, mostra os modelos mais populares da tecnologia no país: o evento foi a base de lançamento da Waico — Foto: Qilai Shen/Bloomberg Nas últimas semanas, o que parecia um distante rival no retrovisor dos EUA mostrou-se um competidor duríssimo na corrida pelo domínio da inteligência artificial (IA). Ao lançar quatro modelos impactantes e inaugurar um novo órgão de governança global para a IA, a China deixou claro que a hegemonia nessa nova fronteira tecnológica é disputada entre dois polos. Com Europa, Japão e emergentes como Brasil e Índia sem protagonismo no desenvolvimento da IA, as duas maiores economias do mundo tentam agora expandir seus campos de influência em um setor decisivo para a economia e a segurança, mas aplicam estratégias políticas e comerciais antagônicas para atrair países aliados, em um quadro que lembra a tensão da Guerra Fria, no século XX. As quatro IAs chinesas que abalaram os EUA nos últimos dias — GLM 5.2, Kimi K3, Qwen 3.8 Max e DeepSeek V4 Flash — desafiam o poder americano de alguma forma. Os três primeiros modelos são rivais tecnológicos: exibem performance igual, ou até superior, à de americanos como Fable 5 (Anthropic) e GPT 5.6 Sol (OpenAI) em várias tarefas. Já o DeepSeek V4 Flash é o maior símbolo da disputa por preço: sem descontos, custa US$ 0,17 por 1 milhão de tokens processados (os pedacinhos de palavras lidos e gerados por um modelo), enquanto o Fable 5 cobra US$ 18, mais de cem vezes mais. O lado americano parte de um cenário no qual a IA é uma extensão de um ecossistema de mercado consolidado há décadas nos setores de informática e telecomunicações. Os EUA combinam investimento privado massivo, atração de talentos e domínio sobre hardware. Os modelos do Vale do Silício, na Califórnia, são fechados e tratados como a “fórmula da Coca-Cola” para garantir ganhos altos com os direitos de uso. Isso molda a expansão de sua influência tecnológica global. É uma abordagem que especialistas chamam de full stack: “venda casada” de todas as camadas, incluindo chips, serviços em nuvem e modelos de ponta. — Os EUA têm uma estratégia de quem já tem um mercado consolidado. Isso fica muito claro em contratos que preveem exclusividade de longo prazo, de fornecimento de manutenção, de atualização de produtos, de programas e equipamentos, e assim por diante — explica Gustavo Macedo, professor do Insper. Pacto hierárquico É uma parceria mais cara, mas o engajamento de outros países vem acompanhado de maior segurança (inclusive contra suposta espionagem chinesa), previsibilidade e acesso irrestrito à tecnologia de ponta, como chips e modelos. As desvantagens estão na visão mais vertical e menos colaborativa, explica Alcides Peron, professor da Faculdade de Ciências Aplicadas da Unicamp: — Os EUA não propõem modelos ou linhas de cooperação no campo de desenvolvimento de novas tecnologias de IA. Não propõem nenhuma forma de transferência de tecnologia ou de espalhamento de centros de pesquisas, exceto data centers, o elo mais fraco da cadeia produtiva da IA. O ápice dessa visão hierárquica veio com a criação do Pax Silica, iniciativa do Departamento de Estado dos EUA lançada no fim de 2025 para garantir cadeias de suprimentos seguras de IA, semicondutores e minerais críticos para a indústria de tecnologia americana. O objetivo do governo Donald Trump é criar um ecossistema de países aliados capaz de reduzir dependências externas, principalmente da China. Os 35 que formam o bloco, incluindo Reino Unido e Japão, não assinam obrigações jurídicas, mas aceitam alinhar suas cadeias e delegar a gestão da infraestrutura a empresas dos EUA, mantendo-se sob a tutela de Washington na atual guerra tecnológica. Os novos modelos chineses partem de uma lógica diferente. Desde antes da popularização da IA, com o boom do ChatGPT no fim de 2022, a China já estabelecia que deveria se tornar uma potência em IA aplicada. O Plano de Desenvolvimento da Inteligência Artificial de Nova Geração, de 2017, previa que a tecnologia deveria turbinar diversos setores da economia, incluindo indústria, serviços e saúde. Para isso, não é necessária uma IA com cognição humana — e, portanto, tratada como segredo industrial — e sim modelos eficientes para as áreas de atuação. O foco está na aplicação eficiente da IA. Negócio da China Transpostos para a era da IA generativa, os princípios de eficiência tornaram-se ainda mais importantes nessa ofensiva, diante da escassez de chips. A China desenvolveu técnicas para extrair mais desses componentes, incluindo mixture-of-experts, mecanismos de atenção esparsa e quantização de 4 bits. Os americanos têm outro nome para a eficiência chinesa: “roubo”. Acusam Pequim de praticar “destilação”, processo em que as respostas de um modelo são usadas para treinar outro. Para acelerar a adoção da IA, a nação liderada por Xi Jinping aposta também na ideia de difusão: oferecer modelos abertos de IA para que qualquer empresa, governo ou indivíduo possa baixar, modificar e trabalhar com eles, aprimorando aplicações e acelerando o passo do país nesse campo em meio às barreiras dos EUA. — A China percebeu que o código aberto gera desenvolvimento mais rapidamente. As empresas trazem uma solução de parceria, na qual você treina em cima do código aberto, enquanto elas ajudam na construção da sua infraestrutura. Para os chineses, não há problema em você rodar as IAs que criaram em um servidor próprio. Até porque está faltando servidor — diz William Guey, pesquisador de IA na Universidade Tsinghuan, na China. A oferta chinesa de IA vem acompanhada de outras facilidades, como dispensa de exclusividade, atualizações vitalícias, manutenção mais barata no longo prazo e treinamento. O governo dos EUA classificou essa estratégia como uma ameaça em um relatório de março deste ano. O texto destaca que, em 2025, havia 337 modelos abertos chineses. Em 2022, eram 32. Mas a constatação mais dolorosa foi que 80% das startups americanas usavam modelos chineses no ano passado, um índice que deve ter subido após dispararem os custos por token dos modelos dos EUA. “Enquanto os principais modelos dos EUA mantêm uma liderança estreita em capacidades, eles arriscam perder não apenas a corrida por uma base de usuários global, mas também a capacidade de definir os padrões técnicos e normas que governarão o desenvolvimento da IA por anos”, diz o documento. Analistas concordam que a estratégia da China permite ao país fazer de seus modelos o padrão global tecnológico, especialmente nas nações em desenvolvimento, criando uma relação de dependência no longo prazo que afasta os EUA. Há três semanas, no mesmo dia do lançamento do Kimi K3, Xi Jinping anunciou a criação da Organização Internacional de Cooperação em Inteligência Artificial (Waico, na sigla em inglês) numa cerimônia em Xangai que tinha a presença do secretário-geral da ONU, António Guterres. Com a adesão de 29 países — como Rússia, Indonésia, África do Sul, Cuba e Venezuela —, é uma iniciativa de governança global que deve funcionar como contraponto diplomático ao Pax Silica. Os objetivos, segundo a China, incluem apoiar iniciativas de capacitação, coordenar estratégias nacionais, promover o diálogo e a interoperabilidade, além de estimular a cooperação científica em ecossistemas de código aberto e o desenvolvimento seguro da IA. No entanto, especialistas observam que o grupo ainda carece de outras grandes economias emergentes, como Índia, México e Coreia do Sul. E o Brasil? O Brasil é um dos países fundadores da iniciativa chinesa, mas ainda não virou Estado-membro da Waico. O governo do presidente Lula tem adotado um discurso de pragmatismo e autonomia na questão da IA, citando a atuação em outros fóruns globais, como ONU, OCDE, Parceria Global em IA, Grupo de Amigos do Processo de IA de Hiroshima e as Cúpulas Globais de Segurança. A atuação de muitas big techs americanas no Brasil, que inclusive têm contratos com órgãos públicos, sugere afinidade com os EUA, mas a diplomacia brasileira, centrada no multilateralismo, parece mais alinhada à China. Há ainda rusgas comerciais e políticas entre Lula e Trump. — O Brasil adota uma postura de não alinhamento em matéria de IA, preservando sua autonomia para cooperar com diferentes parceiros, públicos e privados. Na perspectiva brasileira, modelos baseados em código aberto, pautados pela responsabilidade social, pela transparência e pela ampla disseminação do conhecimento, são particularmente atraentes — diz o ex-chanceler Celso Amorim, assessor especial do presidente Lula para assuntos internacionais. Eugênio Vargas Garcia, embaixador responsável por IA no Itamaraty, explica que o Brasil tenta se posicionar de forma estratégica nas cadeias tecnológicas globais, buscando parcerias com transferência de tecnologia. Ele cita como exemplo o acordo de compra de caças Gripen da Suécia, com parte da fabricação no Brasil em parceria com a Embraer. O objetivo do país é diversificar parcerias e não “colocar todos os ovos na mesma cesta”, define o embaixador: — O Brasil se coloca como “país ponte”, presente em vários fóruns ao mesmo tempo. Jogamos em vários tabuleiros. Até agora, só o Cazaquistão está tanto na Pax Silica quanto na Waico. Gustavo Macedo, do Insper, observa que o Brasil tem as quatro dimensões críticas da era da IA: dados (população conectada), recursos naturais (minerais críticos), energia e trabalho (gerado pelo uso da IA). Para quem não lidera o desenvolvimento tecnológico, é um quadro complexo, com uma série de relações de interdependência, que deve se agravar quando a China atingir a autonomia em chips. A próxima rodada de batalhas no tabuleiro de “War”, portanto, já está definida.