Pilotos eram estimulados a ignorar falhas de sistema que pudessem adiar ou cancelar a realização de voos, afirmam investigadores da PF 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 José Luiz Felício Filho, presidente da VoePass, em vídeo de pronunciamento após o acidente do ATR 72-500 — Foto: VoePass/divulgação O presidente da VoePass, José Luiz Felício Filho, sabia da "cultura de omissão" que vigorava na empresa antes da queda do avião ATR 72-500 que deixou 62 mortos em Vinhedo (SP) em agosto de 2024, afirma o inquérito da Polícia Federal (PF) sobre o acidente. A informação foi revelada no documento sobre a investigação da PF que sustentou o indiciamento do empresário e outras 15 pessoas pelo acidente. Usando informações de interrogatórios, mensagens de celular e conversas gravadas no sistema de áudio da caixa preta da aeronave, os investigadores constataram que era comum que falhas de sistema em aviões da empresa fossem omitidas de autoridades para evitar cancelamentos de voos. Um desses problemas sistêmicos, o mal funcionamento do dispositivo que limpa o gelo acumulado no corpo do avião, foi a causa mecânica da queda do ATR 72-500. A causa humana, diz a PF, foi a ação deliberada de ignorar os alertas do cockpit de que a aeronave precisava de reparo urgente. Mais sobre o acidente da VoePass No inquérito policial, os investigadores mencionam que Felício Filho reconheceu que esse tipo de comportamento vinha ocorrendo na VoePass em outras instâncias. "Em seu próprio termo de depoimento, prestado em 04/08/2026, o próprio investigado confirmou ciência sobre a cultura de omissão da empresa de evitar o registro de falhas no Livro de Bordo, relatando ter sido pessoalmente alertado, ao longo dos anos, por diretores da própria ANAC sobre esse padrão de conduta dos pilotos - o que afasta qualquer alegação de desconhecimento superveniente do risco", diz o documento. O Ministério Público analisa agora o inquérito para definir se oferecerá denúncia à justiça. O teor do relatório da PF pode aumentar a chance de que Felício Filho seja formamente denunciado por homicídio. O inquérito sugere que a prática de omissão era deliberada, e imposta de cima para baixo na estrutura hierárquica da VoePass para evitar que aviões ficassem parados em aeroportos distantes. "A diretoria frequentemente pressionava o setor operacional sugerindo 'segurar essa liberação', orientando que panes fossem omitidas e só reportadas quando a aeronave retornasse à base principal de Ribeirão Preto", diz o documento. O inquérito também reforça o fato de que o presidente da empresa tem licença de piloto e possui plena capacidade de entender a gravidade dos fatos relatados, o que invalida argumento de que não pode deixar de ser responsabilizado tecnicamente, além de administrativamente. "Felício também admitiu que a implantação de um sistema automatizado de monitoramento de dados de voo capaz de identificar a recorrência da falha no sistema antigelo — apontado por ele mesmo como estando 'nos planos' da companhia — não havia sido, de fato, implementada até a data do acidente", diz o documento. "Ele declarou, ainda, ter sido piloto da própria empresa, com experiência pessoal na operação de aeronaves regionais e conhecimento direto da suscetibilidade desse tipo de aeronave a condições de gelo, o que afasta a tese de mero investidor alheio aos aspectos técnicos da operação." Apesar de comprometer Felício Filho, o relatório da PF não aponta com tanta clareza como responsável pela cultura de omissão da VoePass o diretor de segurança operacional da empresa, David da Costa Faria Neto, que também está entre os indiciados. Faria Neto foi da Força Aérea Brasileira (FAB) e chegou à empresa paulista após ter sido superintendente de padrões operacionais Anac, "um profissional altamente qualificado" segundo o presidente da empresa. "Felício tinha ciência de que a estrutura formal de segurança operacional da empresa (chefiada por David) funcionava apartada do núcleo apontado pelas testemunhas como responsável pela pressão contra o reporte de falhas", diz o inquérito. "Ao ser instado a individualizar a conduta de cada envolvido, ele próprio reconheceu expressamente que 'a aeronave não deveria estar naquela condição, mas também não deveria ter sido despachada para aquela rota'", diz o relatório. Segundo a PF, o inquérito possui a base necessária ao Ministério Público para dar o peso de responsabilidade ideal a cada indiciado dentro de uma eventual provável denúncia formal.