Quando se fala em cinema psicodélico, muita gente imagina cores fluorescentes, caleidoscópios e personagens em transe. O imaginário costuma parar nos pôsteres dos anos 1960, no ácido lisérgico e nas animações que parecem ter sido desenhadas por alguém observando uma parede respirar. No entanto, uma das obras mais psicodélicas já realizadas quase não tem interesse em impressionar. É uma história silenciosa sobre uma menina que atravessa um mundo estranho e, aos poucos, deixa de ser a mesma.

A Viagem de Chihiro, de Hayao Miyazaki, não fala sobre drogas. Fala sobre consciência.

Toda experiência transformadora começa com uma travessia. Um túnel. Um caminho desconhecido. Um lugar que desperta a estranha sensação de já ter existido dentro de nós. Não há explicações. Não existe alguém dizendo como agir. Basta dar um passo, e a realidade passa a obedecer a outras regras.

Quem já acordou de um sonho particularmente vívido conhece essa sensação. Quem atravessou um luto, uma crise existencial, uma experiência profunda de meditação ou um estado psicodélico também. Existem momentos em que o mundo continua exatamente igual, mas deixa de parecer o mesmo. É difícil explicar. Apenas sentimos que alguma coisa mudou dentro de nós.