Trânsito parado há quarenta minutos. O e-mail do chefe cobrando aquele relatório que já devia estar pronto. A conta que venceu e ninguém lembrou de pagar. Para quem mora em uma cidade grande, esse cardápio de pequenas, e nem tão pequenas crises, já virou rotina. Aprendemos a conviver com o estresse como quem convive com o barulho da rua: incomoda e muito, mas é “normal”. Não é à toa que o estresse crônico já é tratado pela medicina quase como uma doença silenciosa. Ele eleva o risco cardiovascular, encolhe regiões do cérebro ligadas à memória e acelera o envelhecimento das células do sistema imunológico. Além disso, é um importante fator de risco para diversos transtornos mentais, incluindo aqueles ligados ao humor e à ansiedade. O papel do estresse crônico no surgimento e na progressão da depressão e da ansiedade é parcialmente explicado pelas diversas alterações cerebrais que pode desencadear. Atualmente, o transtorno depressivo maior afeta mais de 320 milhões de pessoas em todo o mundo. É a 13ª principal causa de incapacidade. Expectativas apontam que se tornará a principal causa até 2030. Os sintomas podem incluir humor depressivo, perda de interesse em atividades prazerosas, alterações de peso e apetite, distúrbios do sono e redução do foco em atividades. O transtorno depressivo pode causar prejuízos emocionais, cognitivos e sociais nos indivíduos afetados. A complexidade da doença torna a prática médica desafiadora, pois aproximadamente um terço dos pacientes não responde bem aos tratamentos. Pergunta que não quer calar Mas se o efeito nocivo do estresse prolongado já é bem documentado, uma pergunta mais recente e menos óbvia vem ganhando espaço nos laboratórios: será que esse processo acontece do mesmo jeito, no mesmo ritmo, em homens e mulheres? Conheça o trabalho do Hospital São Paulo (HSP/Unifesp) e do Ambulatório de Saúde dos Povos Indígenas (ASPIN) 1 de 11 Dr. Clayton Coelho em atendimento em aldeia dos indígenas Wauja — Foto: Acervo Projeto Xingu - UNIFESP 2 de 11 Paciente indígena passa por exame de imagem no Hospital São Paulo, que atende casos de média e alta complexidade. — Foto: Acervo Projeto Xingu - UNIFESP X de 11 Publicidade 11 fotos 3 de 11 Atendimento a paciente indígena no Hospital São Paulo, referência nacional em assistência especializada aos povos indígenas. — Foto: Acervo Projeto Xingu - UNIFESP 4 de 11 Fachada do Hospital São Paulo, na capital paulista, onde o cacique Raoni Metuktire está internado. — Foto: Acervo Projeto Xingu - UNIFESP X de 11 Publicidade 5 de 11 Dr. Douglas Rodrigues em atendimento em aldeia dos indígenas Wauja — Foto: Acervo Projeto Xingu - UNIFESP 6 de 11 Pesquisa ação entre os indígenas Kawaiete — Foto: Acervo Projeto Xingu - UNIFESP X de 11 Publicidade 7 de 11 Oficina de Saúde da Mulher entre os indígenas Wauja — Foto: Acervo Projeto Xingu - UNIFESP 8 de 11 Dr. Douglas Rodrigues em consulta com os indígenas Kaiabi — Foto: Acervo Projeto Xingu - UNIFESP X de 11 Publicidade 9 de 11 Cuidados entre os indígenas Mehynako — Foto: Acervo Projeto Xingu - UNIFESP 10 de 11 Vacinação entre os indígenas Ikpeng — Foto: Acervo Projeto Xingu - UNIFESP X de 11 Publicidade 11 de 11 Pesquisa ação entre os indígenas Yudjá — Foto: Acervo Projeto Xingu - UNIFESP Hospital que trata Raoni acumula seis décadas de experiência na saúde indígena e já realizou mais de 35 mil atendimentos Foi essa lacuna que nós, pesquisadoras do Laboratório de Farmacologia Molecular do Instituto de Ciências Biomédicas, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), decidimos investigar. O artigo acaba de sair publicado no periódico European Journal of Neuroscience. Para a pesquisa, utilizamos um modelo de experimento com camundongos Swiss que vivenciaram semana após semana uma série de estressores ambientais, de forma acumulada, que podem imitar o estresse da vida moderna. A ideia era tentar entender se machos e fêmeas reagem de forma diferente ao estresse prolongado, e em que momento essa diferença aparece. Em uma espécie de simulação da pressão constante que vivemos no dia a dia, os camundongos machos e fêmeas passaram por semanas de estresse crônico e imprevisível. Para alcançar nossos objetivos, aplicamos o modelo já conhecido de estresse crônico moderado imprevisível, conhecido pela sigla CUMS, do inglês chronic unpredictable mild stress, aos camundongos. Machos e fêmeas adultos foram expostos a quatro, seis ou oito semanas de estresse crônico moderado, seguidas de avaliação comportamental e quantificação da corticosterona sérica. A corticosterona é o principal hormônio do estresse em roedores e equivalente ao cortisol em humanos. Elas sentem mais O resultado foi positivo. Existe sim uma diferença, e ela é uma questão de tempo. Machos e fêmeas desenvolveram sinais de ansiedade logo nas primeiras semanas. Porém, as respostas em machos e fêmeas seguiram caminhos diferentes. Além de apresentarem uma estratégia diferente de enfrentamento ao estresse, as fêmeas mostraram alterações comportamentais relacionadas à ansiedade e à depressão de forma mais evidente. Mudras: gestos com as mãos trazem bem-estar e ajudam a tratar patologias como pressão alta e ansiedade 1 de 6 Shakti Mudra, para a insônia — Foto: Ana Branco 2 de 6 Apana Mudra, para a constipação — Foto: Ana Branco X de 6 Publicidade 6 fotos 3 de 6 Chinmaya Mudra, para a ansiedade — Foto: Ana Branco 4 de 6 Jnana Mudra, para os hemisférios cerebrais — Foto: Ana Branco X de 6 Publicidade 5 de 6 Hidrya Mudra, gesto do coração — Foto: Ana Branco 6 de 6 Padma Mudra ou Mudra da Flor de Lótus, indicado para problemas cardíacos — Foto: Ana Branco X de 6 Publicidade Esses movimentos têm sido utilizados na tradição do yoga e na medicina ayurvédica como ferramentas poderosas para canalizar a energia do corpo e atuar em diferentes sistemas do organismo Os sinais de comportamento depressivo, que incluem menos disposição para reagir diante de uma situação difícil, só surgiram após dois meses de estresse contínuo. Sobre a corticosterona, só as fêmeas apresentaram um aumento desse hormônio do estresse no sangue. Assim, os resultados de nosso estudo mostraram que as fêmeas parecem ser mais sensíveis aos efeitos nocivos do estresse crônico do que os machos. É este padrão que se assemelha aos dados clínicos em humanos. Mulheres são mais propensas a desfechos adversos induzidos pelo estresse do que homens, como ansiedade e depressão . Importante ressaltar que todos os experimentos com animais foram aprovados na Comissão de Ética no Uso de Animais de Laboratório da UFRJ sob as diretrizes éticas do Conselho Nacional de Controle de Experimentação Animal (Concea). Diferencial da pesquisa A importância do nosso trabalho é que, até então, apenas alguns estudos realizaram uma comparação direta e abrangente das diferenças entre os sexos nas respostas comportamentais induzidas pelo estresse. E a maioria concentrou os experimentos em linhagens de camundongos geneticamente idênticos, as chamadas linhagens isogênicas. Tal escolha negligencia a variabilidade genética inerente a população humana e seu impacto no desenvolvimento de transtornos relacionados ao estresse. Camundongos Swiss, por outro lado, possuem variação genética mais abrangente, mimetizando de forma mais fidedigna a variabilidade humana. Estudos abrangentes e bem conduzidos sobre os efeitos a longo prazo do estresse, comparando machos e fêmeas diretamente, contribuem não só para a compreensão dos malefícios do estresse, mas também para entendermos os mecanismos de resiliência, ou seja, de resistência ao estresse. E entendendo esses mecanismos, poderemos encontrar novas formas de tratar as doenças psiquiátricas relacionadas ao estresse. *Gilda Angela Neves é professora associada no Instituto do Ciências Biomédicas, Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Ana Clara Fernandes da Silva é mestranda no Programa de Pós-Graduação em Farmacologia e Química Medicinal, Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Isis Nem de Oliveira Souza é professora Adjunta do Instituto de Ciências Biomédicas, Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Rachel de Barros Telles é doutora pelo Laboratório de Farmacologia Molecular, do Instituto de Ciências Biomédicas, Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).*Este artigo foi republicado de The Conversation sob licença Creative Commons. Leia o artigo original.