Titular da pasta fala sobre o preojeto da Biblioteca do Saberes, na Praça Onze, e a importância de 'instituições âncoras' na revitalização de áreas da cidade, além dos planos para a Semana de Arte do Rio, em setembro 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Lucas Padilha na exposição 'Cipó — Pinturas Huni Kuin na Coleção MAR', em cartaz na instituição da Praça Mauá: 'É inimaginável pensar hoje a cultura carioca sem levar em conta o Museu do Amanhã, o MAR' — Foto: Ana Branco RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você O projeto Praça Onze Maravilha prevê a construção da Biblioteca dos Saberes no Terreirão do Samba. A obra de R$ 1,75 bilhão busca revitalizar a região central. A Semana de Arte do Rio, agendada para setembro, terá mais de 200 pontos de programação. O evento integrará diversas manifestações artísticas e ateliês locais. Para mitigar impactos sociais, a prefeitura garante que nenhuma remoção de moradores ocorrerá fora da região central. Cerca de mil famílias vivem na área afetada. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Com projeto assinado pelo arquiteto burquinense Diébédo Francis Kéré, vencedor do Prémio Pritzker de 2022, a Biblioteca do Saberes é a estrela da próxima grande reforma urbanística da cidade, o Praça Onze Maravilha. Com 40 mil metros quadrados e criado em parceria com o escritório MPG Arquitetura, o equipamento ocupará a área do Terreirão do Samba, no projeto de revitalização do entorno do Sambódromo, com investimentos de cerca de R$ 1,75 bilhão. E é um exemplo de “instituições âncora” para a revalorização de áreas do Rio citado pelo secretário municipal de Cultura do Rio, Lucas Padilha. Em entrevista concedida em outra destas instituições âncora — o Museu de Arte do Rio (MAR), inaugurado em 2013 e um dos primeiros marcos do Porto Maravilha, na Praça Mauá — Padilha defende o modelo como forma de renovar a importância da cidade na cultura brasileira: “Por trás dessas instituições âncora, há a valorização de instituições locais, do desenvolvimento do território”. À frente da pasta desde o início do quarto mandato de Eduardo Paes (PSD) na Prefeitura do Rio, em janeiro de 2025 — atualmente, sob o comando de Eduardo Cavaliere, após Paes assumir a candidatura ao governo do Estado —, Padilha desenvolve outro grande projeto, a Semana de Arte do Rio, em setembro, coincidindo com a 16ª edição da ArtRio: “Será uma plataforma para integrar artes visuais e mercado, teatro, cinema, dança, performance, gastronomia, samba”. A próxima grande intervenção urbana planejada para o Rio será a Praça Onze Maravilha. Como no Porto Maravilha, que criou o MAR e o Museu do Amanhã, está ancorada num novo equipamento cultural, a Biblioteca dos Saberes. Como a experiência anterior pode influenciar esta nova? É inimaginável pensar hoje a cultura carioca sem levar em conta o Museu do Amanhã, o MAR. Mas essas duas instituições não são todo o caldo cultural e a cena artística da Pequena África. Por trás dessas instituições âncora, que são grandes investimentos e partem de arranjos público-privados, há a valorização de instituições locais, do desenvolvimento do território a partir da cultura que existe ali. A Biblioteca do Saberes será um acontecimento estético, ético e político, integrado ao Sambódromo, ao Arquivo Geral do Município, ao Arquivo Nacional, ao acervo da Funarte e do Itamarati, todos no entorno do Campo de Santana. A valorização desse território, da Praça Onze ao Porto, traz uma redescoberta da História do Rio que foi apagada. E memória é um serviço público que precisa ser oferecido pelos governos. E como foi pensada a viabilidade do projeto? O projeto de lei aprovado na Câmara Municipal (em maio) prevê que a Biblioteca dos Saberes pode receber (além da Cultura) recursos dos fundos de educação, porque vai ser importante para a rede pública. Também pode ter contrapartidas da construção civil na área e receber recursos de leis de incentivo, estaduais, municipais e federais. Ela não será financiada com uma fonte só, serão recursos públicos e privados, e nasce com um pensamento de sustentabilidade financeira, operacional e de construção. O projeto da Biblioteca dos Saberes, assinado pelo burquinense Diébédo Francis Kéré, vencedor do Prémio Pritzker de 2022 — Foto: Divulgação Recentemente, o Ministério Público Federal (MPF) cobrou mais debates públicos sobre o projeto urbanístico do Praça Onze Maravilha. Como as críticas aos riscos de remoções ou alterações de gabarito foram recebidas? O planejamento está sendo feito para tentar tornar esse impacto o menor possível. Na área de intervenção do projeto, vivem cerca de mil famílias de aluguel, incluindo de sublocação, que terão uma perspectiva de habitação social. A lei aprovada na Câmara e sancionada pelo prefeito Eduardo Cavaliere prevê que nenhuma remoção vai ser feita fora da AP1 (Área de Planejamento 1, que abrange a região central da cidade). As pessoas vão continuar morando no Centro. Esse diálogo tem sido feito de forma direta e sincera. Recebi moradores no Arquivo da Cidade e mostrei fotos da Reforma (do prefeito Henrique) Dodsworth, no Estado Novo, que derrubou vários espaços da Praça Onze, como a casa da Tia Ciata, mostrando que aquela transformação urbana não é a que estamos fazendo. Em setembro, está prevista nova edição da Semana de Arte do Rio, com uma programação ampliada, entre os dias 16 e 27, coincidindo a ArtRio (16 a 20). Como será? Podemos dizer que 2025 foi o ano zero. A gente tinha uma van, saindo da ArtRio para os equipamentos da cidade, e um sonho (risos). E foi um sucesso. A Semana de Arte não é um projeto de um ano só, ela é uma plataforma da cidade, para integrar artes visuais e mercado, teatro, cinema, dança, performance, gastronomia, samba. Vamos ter 27 ateliês do Centro do Rio abertos em 18 e 19 de setembro, para receber as pessoas, visitação a prédios históricos, como o Palácio Capanema. Isso junto de eventos e festivais (Flup, Panorama, Projeto Aquarius, Festival Internacional de Circo, Encontro de Cinema Negro Zózimo Bulbul, entre outros), exposições na Casa Brasil, Museu Nacional de Belas Artes (MNBA), Paço Imperial, Museu de Arte Moderna (MAM), serão 200 pontos de programação. Estamos planejando as edições de 2027 e 2028, negociando parcerias. O Centro do Rio tem algumas das instituições mais visitadas do país, como o Museu do Amanhã e o CCBB, mesmo 'disputando' turistas com as belezas naturais. Como ampliar ainda mais essa presença na região? O Centro do Rio tem uma história nacional. Você tem prédios e equipamentos municipais, estaduais, federais e privados, muitos do período da capital. Mas as pessoas precisam se sentir convidadas a conhecê-lo. Alguém já foi convidado a ir ao Palácio Capanema (marco da arquitetura modernista), qual é a programação? Queremos convidar o Brasil para vir ao Centro do Rio e conhecer mais sobre a História do seu país. O Centro é dos cariocas, mas também dos paulistas, dos goianos, dos manauaras. E, claro, também trazer turistas estrangeiros. Palácio Gustavo Capanema, reinaugurado em maio, após dez anos de obras — Foto: Márcia Foletto Uma das questões que impacta a ocupação do Centro é a segurança, que estará em debate na eleição estadual. Para a cidade do Rio é indispensável um pacto federativo, que o governo federal, estadual e o município assumam a sua responsabilidade. Com a Civitas (Central de Inteligência, Vigilância e Tecnologia em Apoio à Segurança Pública) e a Força de Segurança, o município assumiu o seu papel no ponto de vista de crimes patrimoniais, justamente o que causa a sensação de insegurança. Uma eleição é importante porque ela mostra que qualquer transformação real precisa de mais de quatro anos e mais de um governo envolvido. A democracia precisa aprender a oferecer solução de médio e longo prazo. O Rio também tem atraído turistas com a Cultura a partir dos grandes eventos, como o Todo Mundo no Rio. Como vê as críticas aos megashows em Copacabana por parte de produtores que cobram investimentos em outras regiões da cidade? Grandes eventos passam pela Cultura, mas estamos falando de outra coisa, que é a economia criativa. Inclusive, são financiados de um jeito diferente. Você não financia um acervo de um museu ou um acervo comunitário porque o impacto vai ser de um para sete na arrecadação do ISS e na atração de milhões de turistas, ou em reportagens internacionais. O motivo do fomento cultural é a existência de uma cultura brasileira soberana, do direito da cidade à cultura. O incentivo cultural sobre do ISS (Imposto Sobre Serviços) da prefeitura é de mais de R$ 90 milhões por ano, são orçamentos que não competem. Se os a prefeitura investe R$ 10 milhões, R$ 15 milhões nos shows, vêm outros R$ 80 milhões de patrocínio privado. Do ponto de vista da economia criativa, o Todo Mundo no Rio é um produto maravilhoso. Mas do ponto de vista cultural, territorial, não é mais importante do que acontece na Areninha de Anchieta. Amo a Madonna, a Lady Gaga, a Shakira, mas elas não me interessam mais que o artista anônimo com um trabalho importante em mediação cultural no seu bairro. As necessidades são diferentes, mas não são excludentes.