Uma hora antes de subir ao palco para ser oficializado candidato ao Senado por Alagoas, Alfredo Gaspar (PL) recebeu uma ligação que tornaria aquela convenção, na prática, uma encenação eleitoral. Do outro lado da linha, Rogério Marinho (PL-RN), coordenador da campanha de Flávio Bolsonaro, queria saber se o deputado aceitaria abandonar a disputa estadual para ser candidato a vice-presidente. Gaspar topou. Mesmo assim, às 18h daquela terça-feira, foi aclamado candidato ao Senado, discursou como postulante à vaga e só horas depois embarcou para Brasília — ainda sem saber se Flávio de fato o escolheria. — Quero fazer mais pelo Brasil e por Alagoas. O Senado precisa da presença de quem tem coragem para lutar contra o sistema e em defesa do povo alagoano e brasileiro. O que está acontecendo no país é inaceitável — afirmou Gaspar durante a convenção. Naquele momento, porém, seu destino eleitoral já estava em negociação em outro plano. Os bastidores narrados pelo próprio Gaspar e por Marinho nesta quinta-feira revelam uma escolha conduzida em poucas horas, sob sigilo e com mudanças de rumo até para o candidato escolhido. O episódio foi o capítulo final de uma busca pela vice que atravessou meses, acumulou negativas de partidos do Centrão e chegou ao último dia das convenções sem uma solução definida. Segundo Marinho, a primeira ligação ocorreu quando faltava cerca de uma hora para o início do evento em Alagoas. — Eu liguei para Alfredo na véspera. Ele de fato teve um choque. Estava faltando uma hora para começar a convenção dele como senador — relatou o coordenador, em café com jornalistas. Marinho afirma que inicialmente fez apenas uma sondagem. Queria saber se Gaspar aceitaria antes de levar o nome a Flávio. Diante da resposta positiva, procurou o presidenciável e, depois, retornou ao deputado para dizer que ele estava convidado. A orientação foi manter segredo absoluto. — Eu disse: “Você está convidado, só que agora você não pode dizer nem à sua esposa”. Gaspar foi então à convenção e sustentou publicamente uma candidatura ao Senado que já sabia poder durar poucas horas. Segundo Marinho, ele foi “aclamado candidato ao Senado já tendo aceitado ser vice”. Flávio não ligou A indefinição, no entanto, não havia terminado. Gaspar contou que Marinho lhe disse que Flávio entraria em contato em seguida para tratar da composição. — Ele disse: “Daqui a dez minutos Flávio vai te ligar”. E Flávio nunca me ligou — contou. O silêncio fez Gaspar duvidar de que a escolha realmente fosse adiante. Depois da convenção e já perto da meia-noite, foi ele quem retomou o contato com Marinho. — Mandei uma mensagem: “Presidente, preciso mesmo ir a Brasília?” — relatou. O único voo disponível sairia durante a madrugada. Marinho recomendou que embarcasse, e Gaspar deixou Alagoas por volta das 2h, depois de ter passado parte da noite como candidato oficial ao Senado e sem confirmação direta do homem cuja chapa poderia integrar. A sucessão de movimentos ajuda a dimensionar o grau de improviso que marcou a conclusão da chapa. Flávio havia passado meses dizendo preferir uma mulher para a vice e, até a reta final, ainda tentava usar a vaga para atrair outra legenda. Quando essas negociações fracassaram, a campanha teve de buscar às pressas uma solução dentro do próprio PL. Chegou a Brasília defendendo Marinho Nem o desembarque na capital encerrou imediatamente a dúvida de Gaspar. Ao chegar ao QG da campanha, o deputado ainda acreditava que o candidato mais natural para a vaga poderia ser o próprio Rogério Marinho. — Perguntei se eu tinha alguma chance disso. Reafirmei: “Presidente, o nome certo, que eu venho aqui para bater palma, é o do senhor” — disse Gaspar. Marinho respondeu que não pretendia deixar a coordenação e revelou que havia sido ele próprio quem defendera o nome do alagoano junto a Flávio. — Ele disse: “Alfredo, eu estou hoje com uma missão muito importante, que é de coordenação. Eu indiquei o seu nome ao Flávio” — relatou. Flávio só chegou depois ao QG e formalizou pessoalmente o convite. A operação foi mantida sob sigilo até os minutos anteriores ao anúncio. Valdemar Costa Neto foi informado na noite anterior e, segundo Marinho, recebeu a recomendação de desligar o telefone. Nem mesmo integrantes responsáveis pela comunicação da candidatura sabiam quem seria o vice. — O assessor de imprensa do Flávio não sabia, ninguém do marketing sabia — afirmou Marinho. De meses de negociação a uma decisão em horas A pressa da definição contrasta com o tempo gasto pela campanha na tentativa de montar uma chapa mais ampla. Marinho admitiu nesta quinta-feira que o PL buscou sobretudo a federação União Progressista e o Republicanos e que um dos objetivos era aumentar o tempo de propaganda eleitoral. — Nós tentamos atrair partidos, notadamente a Federação União Brasil e Progressistas e o Republicanos. Infelizmente não tivemos êxito — afirmou. Segundo o coordenador, Tereza Cristina (PP-MS) e Daniella Marques (Republicanos) chegaram a aceitar os convites para a vice, mas não obtiveram autorização de suas legendas para integrar a coligação de Flávio. — Nós convidamos a senadora Tereza Cristina, que foi nossa primeira opção. Ela aceitou. Depois havia um desejo do próprio Flávio de trazer a economista Daniella Marques, que também aceitou o convite, mas infelizmente nós não conseguimos ficar com o Republicanos. As negativas deixaram Flávio sem o reforço partidário e de tempo de televisão que buscava e obrigaram a campanha a reorganizar a escolha dentro do PL. Segundo Marinho, a decisão passou então a considerar os assuntos que a candidatura pretende explorar contra Lula, sobretudo segurança pública e corrupção. Gaspar, ex-promotor, ex-secretário de Segurança e relator da CPI do INSS, foi apresentado como alguém capaz de reunir os dois temas. Bolsonaro queria Gaspar no Senado Embora tenha aparecido de última hora na chapa presidencial, Gaspar já estava no radar de Jair Bolsonaro havia dois anos. O deputado afirmou que o ex-presidente o chamou em 2024 para uma conversa e disse que acompanhava sua atuação. — Ele disse: “Alfredo, estou lhe observando. Gostaria que você fosse candidato a senador”. Bolsonaro teria reiterado a sugestão em 2025. Gaspar, no entanto, ainda planejava permanecer na Câmara. A projeção conquistada com a CPI do INSS acabou fortalecendo posteriormente sua candidatura ao Senado — justamente aquela oficializada na terça-feira e abandonada em menos de um dia. O fantasma de Vorcaro A escolha de Gaspar para reforçar o discurso de combate à corrupção também obrigou a campanha a enfrentar uma contradição já no primeiro encontro do vice com jornalistas. Questionado sobre as investigações relacionadas ao banqueiro Daniel Vorcaro que alcançaram Flávio pelo financiamento do filme "Dark Horse", Gaspar afirmou desconhecer que o cabeça da chapa fosse investigado e declarou confiança no presidenciável. — Eu confio 100% na lisura da atuação do candidato a presidente Flávio Bolsonaro. O Flávio Bolsonaro, até o presente momento, tem a minha total confiança. Gaspar afirmou ainda que, durante a CPI do INSS, esteve entre os parlamentares que mais cobraram explicações sobre Vorcaro e disse que o banqueiro “comprou metade da República dentro dos poderes”.
Sem ligação de Flávio, voo de madrugada e candidatura de fachada: os bastidores da escolha de última hora de Gaspar como vice
Deputado foi lançado ao Senado quando já havia aceitado ser vice, discursou como candidato e embarcou para Brasília sem saber se seria escolhido; decisão expõe improviso na reta final da chapa













